Ivan Moraes

Ivan Moraes é pai, jornalista, sonhador, escritor, conversador, defensor de Direitos Humanos e ex-vereador do Recife pelo PSOL.

A revolução e o bloco do “eu sozinho”

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Indígenas participam de ação do Acampamento Terra Livre em frente ao Congresso
Indígenas participam de ação do Acampamento Terra Livre em frente ao Congresso | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Qual dos dois está de verdade trabalhando pela revolução?, tascou-me o moçoilo. Os dois!, respondi rápido, antes que a cerveja esquentasse

No meio do Carnaval, fui abordado por um jovem, filho de um grande amigo. O adolescente, começando a cair nas graças de Momo, interessado pela vida e pelo mar de experiências e sensações mediadas pela bomba de hormônios que tem tomado seu corpo. Eu pensando que o papo era frevo e folia, mas a dúvida que o rapaz queria tirar era outra.

Ele queria saber minha opinião sobre uma falsa polêmica envolvendo políticos do campo progressista que atuam em frentes diferentes. Enquanto um se destaca principalmente pela agitação nas redes e na conscientização de classe, o outro tem se dedicado com sucesso a ocupar espaços institucionais e buscar consensos para resolver problemas mais imediatos da população. “Qual dos dois está de verdade trabalhando pela revolução?”, tascou-me o moçoilo, tal qual um confete na cara. “Os dois”, respondi rápido, antes que a cerveja esquentasse ou o bloco virasse a esquina.

Afinal de contas, não faltam tarefas para quem quer, de fato, amar e mudar as coisas. Construir uma sociedade mais justa, mais solidária, em que todas as pessoas vivam com liberdade e direitos garantidos, não é coisa simples nem de uma pessoa só. Às vezes, nem de uma geração só.

Tem tarefa para todo mundo no processo de construção de um mundo melhor e possível. É imprescindível ter gente fazendo barulho. Realizando ação direta, causando impacto e chamando a atenção. Nunca, na história do mundo, se conquistaram direitos sem que houvesse pessoas organizadas, em grandes quantidades, ocupando espaços públicos e visíveis. Direito não cai do céu. Não brota da boa vontade de quem concentra poder. Direito é arrancado.

E quem vai para a rua não pede licença. Quer tudo e quer muito e quer logo. E precisa de interlocutores que estejam na “barriga do monstro” para potencializar suas demandas e lutas. Alguém que lhes abra as portas quando necessário. Gente que possa protegê-las da força bruta do Estado sempre que preciso, porque o Estado também bate – e bate forte.

Quem senta à mesa tem que ter paciência. Precisa ter estômago para conversar com adversários, de quem também precisa entender os idiomas e códigos. Jogo de cintura para derrotar inimigos, tranquilidade e persistência para conquistar aliados. Sabedoria para conhecer as regras do jogo e malemolência para saber como usá-las a seu favor. E precisa — e muito — de gente elevando o sarrafo, querendo tudo, querendo mais e querendo logo.

Nada como um protesto bem feito para dar trabalho e, em seguida, fortalecer quem dialoga nas instâncias institucionais. Possibilitando aquele argumento de que “o povo não vai permitir que isso aconteça” ou mesmo o velho “esse pessoal não está para brincadeiras, precisamos dar uma resposta logo”.

Achar que essas tarefas são antagônicas ou que quem as executa está em campos opostos é ingenuidade, vacilo ou má fé.

A quem se interessa, João Paulo, um dos melhores prefeitos que o Recife já teve, diz que “um dia bom de trabalho na prefeitura era quando tinha um carro de som na porta, protestando por alguma coisa”. Escolado e doutorado nos debates do poder, o veterano político sabe como poucos se aliar à revolta popular em favor de uma negociação mais dura com quem concentra poder. Não por acaso, depois de dois mandatos no Executivo e outros tantos no Legislativo, segue bem-vindo e celebrado em tudo o que é manifestação popular.

Em busca de mais uma dose de capiroska ou distraído por uma moça que passava ao seu lado, o filho do meu amigo deu-se por satisfeito. Olhou nos meus olhos, apertou a minha mão e falou sério: “pode contar comigo”. Mal sabe ele que eu conto mesmo.

Editado por: Vinicius Sobreira

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