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Para enfrentar a extrema direita, precisamos de estratégia política e unidade

A luta contra a anistia para os golpistas é um dever moral, além de um compromisso político

Analisar a conjuntura brasileira recente tem sido um desafio para nós da esquerda, diante do avanço da extrema direita em todo o mundo, das contradições do governo Lula (PT) e da dificuldade de mobilização social que, de modo geral, temos vivido desde o processo eleitoral de 2022. 

Os acontecimentos políticos das últimas semanas me parecem cruciais para retomarmos os debates sobre a nossa tática, não somente visando as eleições do ano que vem, que certamente exigirão de nós, mais uma vez, um esforço de construção de unidade, mas para derrotar de vez o golpismo e a extrema direita no nosso país.

Bolsonaro é o chefe da organização criminosa golpista

Tivemos uma grande vitória com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em tornar Jair Bolsonaro (PL) e mais sete aliados — entre eles, cinco militares — réus em ação penal pela tentativa de golpe contra nossa democracia que culminou na barbárie do 8 de janeiro de 2023. No Brasil, é a primeira vez que militares viram réus por crimes de golpe e isso é histórico. 

Nas arguições dos ministros, na denúncia feita pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, e na leitura do relatório de Alexandre de Moraes fica nítido que Bolsonaro é o chefe da organização criminosa golpista, que inclusive tinha planos de assassinar Lula e Geraldo Alckmin, recém-eleitos presidente e vice-presidente, e o próprio Moraes. 

A luta contra a anistia para os golpistas é um dever moral, além de um compromisso político

Ainda serão analisadas pela Corte as denúncias contra os demais golpistas. Ao todo, são 34 denunciados pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

A luta contra a anistia para os golpistas é um dever moral, além de um compromisso político, para nós do campo progressista. No domingo (30), véspera do aniversário do golpe de 1964, setores da esquerda saíram às ruas de várias capitais brasileiras pela prisão de Jair Bolsonaro. 

Em Belo Horizonte, nosso ato ocupou o centro da cidade, reuniu movimentos, organizações e blocos carnavalescos. Força social se mede nas ruas, embora a atuação conjunta nas redes sociais seja uma dimensão importante para combater a extrema direita. O ato de domingo foi bonito, alegre e de luta, e os desafios de ampliar a mobilização e conquistar a periferia para o nosso lado ainda seguem firmes.

A decepção dos bolsonaristas por não terem conseguido os “2 milhões” de defensores da anistia foi perceptível. Sem a estrutura governamental e o cartão corporativo fica mais difícil convocar o gado

Do lado de lá, embora mais enfraquecido do que em outros momentos, o bolsonarismo demonstrou em Copacabana, no início de março, que ainda existe e continua apostando na disseminação de mentiras e no desejo da manutenção do poder do macho e da branquitude. É simbólico ver aquele caminhão, todo enfeitado com bandeiras dos Estados Unidos, tomado de homens brancos que não têm nenhum escrúpulo em seus discursos. 

A decepção dos bolsonaristas por não terem conseguido os “2 milhões” de defensores da anistia na praia foi perceptível. Afinal, sem a estrutura governamental e o cartão corporativo fica mais difícil convocar o gado. 

E tem outro elemento fundamental: 62% da população são contra a anistia aos participantes do 8 de janeiro, segundo pesquisa do Datafolha. Ou seja, a pauta central dos golpistas não tem apelo social e dificilmente vai estourar a bolha bolsonarista convicta. Temos que entrar nessa disputa.

Em Minas Gerais, Zema quer juntar os cacos do bolsonarismo

Diante de certo fracasso do bolsonarismo, que agora vê a sua principal liderança virar réu, Romeu Zema (Novo), como canalha que é, tem gastado muitas energias querendo pegar carona no antipetismo que sempre angariou votos e seguidores para a extrema direita. 

Primeiro, o governador protagonizou aquela série de micos nas visitas do presidente Lula a Belo Horizonte e a Betim, reproduzindo discursos prontos, que parecem terem sido retirados de um grupo do WhatsApp. Em suas redes socais, Lula é um alvo frequente e as críticas são sempre as mesmas frases usadas outrora por Bolsonaro. 

Entre os micos do governador, é inesquecível o vídeo em que ele come uma banana com casca para criticar o preço dos alimentos. Nos últimos dias, ele defendeu a golpista Débora Rodrigues dos Santos, que participou do atentado do 8 de janeiro, e, em entrevista à imprensa, se posicionou pela “anistia ampla”, criticou a justiça brasileira por “tomar decisões tendenciosas” e afirmou com todas as letras que Bolsonaro é o maior nome da direita. 

Romeu Zema, comedor de banana com casca, está muito mais preocupado em se posicionar na polarização com o PT do que em ter política séria para diminuir a fome e a pobreza em Minas Gerais

No X, chegou a soltar que espera que a justiça seja feita e que Bolsonaro recupere seus direitos políticos. Não é novidade que Zema é um apoiador do inelegível, porém intensificar as críticas ao PT, a Lula e elogiar a esse nível o mais recente réu, é uma tentativa desesperada de angariar a massa verde-amarelo para Novo. 

O que o governador não fala é que ele não zerou o ICMS de produtos da cesta básica, como fez o governo federal, para conter o preço dos alimentos. Uma medida mesquinha, que demonstra que o governador comedor de banana com casca está muito mais preocupado em se posicionar na polarização com o PT do que em ter política séria para diminuir a fome e a pobreza no nosso estado. 

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Ele também não conta que reajustou o próprio salário em 300%, ao mesmo tempo em que critica a “gastança” do governo federal, e que tem um plano macabro de privatizações das estatais, de sucateamento do serviço público e de fechamento de hospitais. 

Para além das eleições, qual é o nosso projeto para o Brasil?

Lula segue sendo a nossa principal liderança capaz de vencer a extrema direita nas próximas eleições. E, a partir da unidade das forças populares, já vimos que é possível fazer uma campanha bonita, alegre, com proposta concreta para mudar a vida do povo. 

É fato que, neste momento, diante de deslizes graves da condução política do governo federal, temos muito o que cobrar do nosso presidente. Ao mesmo tempo, é preciso considerar que o cenário nacional é desfavorável, diante da forte oposição da extrema direita, da pressão do centrão, do mercado financeiro e da atuação do Banco Central, que recentemente elevou a taxa Selic ao maior patamar desde 2016.

Para enfrentar esses setores das classes dominantes, a solução é a guinada à esquerda e a implementação de mais medidas populares. Recentemente, tivemos avanços históricos e fundamentais, como a desapropriação das terras para fins de reforma agrária do Quilombo Campo Grande, após a luta de quase 30 anos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e o projeto de lei de isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil. 

Nossa tarefa, para além de cobrar mais medidas populares do governo federal, é construir, ampliar e fortalecer os espaços de debate estratégico

Mas ainda é insuficiente. A taxação dos bilionários, por exemplo, é uma medida de reparação histórica e de justiça social. É inadmissível que, até hoje, os donos das grandes fortunas não paguem impostos ou paguem menos do que os trabalhadores assalariados. 

Além disso, Lula precisa se posicionar pelo fim da escala 6×1 e em defesa da PEC protocolada pela nossa deputada federal Erika Hilton (Psol) em parceria com Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), liderado pelo nosso vereador do Rio de Janeiro Rick Azevedo (Psol). São medidas como essas, que resvalam as estruturas arcaicas de opressão do nosso país, que devem ser encampadas pelo nosso presidente.

Nossa tarefa, para além de cobrar mais medidas populares do governo federal, é construir, ampliar e fortalecer os espaços de debate estratégico. Isso é urgente. No tema da taxação dos bilionários e da redução da jornada de trabalho, por exemplo, estamos construindo um plebiscito popular junto das frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, e diversos movimentos populares. 

Até setembro, queremos dialogar com a população brasileira sobre esses temas e provocar um grande processo de mobilização, formação política e reflexão sobre os rumos do nosso país. 

Outra iniciativa em que estamos envolvidas é o Festival Mulheres em Luta (MEL), que vai reunir  mulheres de todas as regiões do país nos dias 11, 12 e 13 de abril, em São Paulo. A proposta, que foi encaminhada pelo Instituto E Se Fosse Você?, liderado por Manuela D´Ávila, é justamente pensar coletivamente nossa estratégia política para o Brasil, a partir do nosso olhar, de mulheres em sua diversidade.

Enfrentar a extrema direita, que a cada eleição tem buscado a maioria das câmaras municipais, e que agora visa a renovação dos dois terços do Senado, é a nossa principal tarefa. 

Não conseguiremos avançar sem unidade, sem trabalho de base e sem espaços coletivos de discussão. Devemos aproveitar este momento de desgaste do bolsonarismo para ampliarmos ainda mais as nossas lutas. O 1º de maio já está aí e será mais um momento para irmos às ruas em defesa dos nossos direitos, da nossa democracia e pela prisão de Bolsonaro e dos golpistas do 8 de janeiro. Vamos com ânimo. Jamais devemos abandonar nossa convicção de que só a luta é capaz de mudar o Brasil.

Iza Lourença é vereadora em BH pelo Psol.

Leia outros artigos de Iza Lourença em sua coluna no Brasil de Fato MG.

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

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