Por Adriana Gerônimo, Iza Lourença, Keit Lima e Paula da Bancada Feminista
A principal tarefa da esquerda brasileira em 2026 é construir uma maioria eleitoral, social e política contra o bolsonarismo: a nossa missão mais importante é reeleger Lula presidente e preservar a barreira de contenção que já estabelecemos contra o avanço das forças reacionárias no país. No Psol, não há dúvida sobre isso: seremos parte de uma coligação com o PT em 2026.
Há muitas razões que levam o Psol a colocar a unidade da esquerda no centro da tática e tratar com seriedade os riscos e os perigos da atual conjuntura: o Brasil continua polarizado politicamente e fraturado socialmente, como demonstram as pesquisas recentes; o Congresso Inimigo do Povo impediu, em muitos momentos, que o governo pudesse aprovar mais medidas populares que correspondem ao programa que foi eleito nas urnas em 2022; mesmo com a condenação e a prisão de Jair Bolsonaro, a extrema direita produziu uma grande quantidade de lideranças, em diversos partidos, que seguem ativas e com disposição de ir ao enfrentamento nas ruas e nas redes, como vimos nos protestos convocados por Nikolas Ferreira no último domingo; não menos importante é o papel de Donald Trump na América Latina com a ofensiva militar no mar do Caribe, o sequestro de Maduro e Cília Flores, o sufocamento de Cuba, a disputa pelo controle no canal do Panamá, a imposição do tarifaço, a agressão à soberania dos países e a interferência objetiva em processos eleitorais.
Nesse sentido, a ideia mais perigosa que enfrentamos hoje é a de que a reeleição do Lula presidente seria um passeio ou estaria garantida desde já.
Com base em uma expectativa errada, as energias das nossas lideranças podem acabar sendo gastas em disputas secundárias, quando o mais importante deveria ser construir, de um lado, a amplitude necessária para isolar o bolsonarismo e, de outro, as condições para engrossar o caldo de mobilização popular e gerar o entusiasmo necessário na base da esquerda para disputar com todas as forças as ideias populares e antifascistas em uma batalha que já começou.
Unidade na diversidade
Com esses objetivos nítidos, a esquerda brasileira precisa fortalecer a unidade na diversidade.
Qualquer desequilíbrio em um desses pólos leva ao enfraquecimento de forças para a batalha principal. A unidade para somar forças na coligação precisa se combinar com a diversidade da esquerda para amplificar a disputa de projeto de Brasil justo, democrático e soberano, para ampliar as vozes, as lideranças, os palanques e a quantidade de candidatos e candidatas que levarão para as ruas e para as redes as ideias socialistas dentro de uma coalizão plural.
É nesse contexto que se insere a discussão sobre as desvantagens de abrir mão da Federação Psol-Rede em 2026. O Psol aprovará uma coligação com Lula neste ano, mas o debate de abrir mão da sua federação tem uma natureza muito diferente.
Na legislação em vigor, as federações devem atuar, por quatro anos, como um só partido nas eleições, com lista única de candidatos, perdendo o direito à liderança própria nos parlamentos e, sendo obrigado, a abrir mão de candidaturas majoritárias em todos os estados. Quem define quem será o candidato a governador, senador e prefeito é a executiva da federação, com base no tamanho de cada partido que a compõe.
Sendo assim, o PT, como o maior partido, definiria esses candidatos, seja nos critérios do atual estatuto da Federação Brasil da Esperança, seja em possíveis prévias. Lembrem-se que, em 2020, o PT realizou prévias para escolher seu candidato e definiu o Jilmar Tatto para a prefeitura de São Paulo, enquanto o Psol lançou Guilherme Boulos e Luiza Erundina.
O debate que está acontecendo no Psol a esse respeito é legítimo: um partido democrático é aquele que garante amplo espaço para divergência interna. Esse é o critério de um partido vivo e plural. Nossos camaradas que defendem que o Psol entre na Federação Brasil da Esperança são valiosos e as nossas convergências de projeto histórico estão acima dessa diferença tática. Nada disso abala o nosso trabalho comum no Psol no presente e no futuro.
No sentido de contribuir com este debate, de maneira saudável, consideramos a experiência que já temos.
Em 2022, as duas federações formaram uma coligação para eleger Lula contra Bolsonaro, mas preservaram a sua autonomia política e jurídica. O Psol ultrapassou sozinho o critério da cláusula de barreira que é exigido para 2026 já na eleição de 2022 e, com a Rede, ampliou a votação. Como resultado, naquelas eleições, tanto o PT, quanto o Psol, ampliaram a sua bancada parlamentar no Congresso Nacional. Isso é um patrimônio para a luta antifascista no país.
Além disso, a esquerda brasileira não fica mais forte quando se torna menos diversa, quando é obrigada a lançar menos candidatos e quando só pode construir um único palanque para governador, prefeito e senador.
Há muitos exemplos práticos que confirmam isto: o fato de que o Psol teve o direito de lançar Guilherme Boulos e Luiza Erundina em 2020 para a prefeitura de São Paulo atrapalhou a esquerda brasileira e os movimentos de unidade?
Em nossa opinião, categoricamente, essa campanha ajudou a esquerda nos anos seguintes. O mesmo aconteceu com Áurea Carolina para a prefeitura de Belo Horizonte, com Manuela D`Ávila pelo PCdoB em Porto Alegre e Renata Souza pelo Psol no Rio de Janeiro, todas campanhas à prefeitura lançadas em 2020, sem o apoio do PT no primeiro turno.
O mesmo acontece agora com Áurea Carolina e Manuela D`Ávila candidatas ao Senado para 2026. É, por isso, que abrir mão da federação Psol-Rede é desvantajoso para a luta principal contra o bolsonarismo.
Papel complementar
O papel do Psol e do PT, em duas federações, é complementar: a unidade na coligação alavanca os dois partidos. A diversidade das duas federações alavanca a pluralidade necessária no interior de uma coalizão capaz de derrotar a extrema direita, na luta política, eleitoral e ideológica.
Até para defender o governo Lula no Congresso Nacional, foi útil ter o Psol como um partido com as mãos mais livres para questionar e enfrentar o centrão sempre que necessário.
O Brasil necessita da formação de uma aliança plural para eleger Lula e derrotar a extrema direita, não de homogeneização da esquerda em uma única federação.
Adriana Gerônimo, mulher negra, vereadora do Psol de Fortaleza; Iza Lourença, mulher negra, vereadora do Psol de Belo Horizonte; Keit Lima, mulher negra, vereadora do Psol em São Paulo & Paula da Bancada Feminista do Psol, mulher negra, co-deputada estadual do Psol em São Paulo.
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Leia outros artigos de Iza Lourença em sua coluna no Brasil de Fato MG.
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Este é um artigo de opinião. A visão das autoras não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

