Jean Freire

Jean Freire é médico e deputado estadual de Minas Gerais pelo Partido dos Trabalhadores (PT)

Aqui, o “trem desgoverna”: o ataque de Zema à Copasa

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Doutor Jean Freire (deputado estadual PT/MG) | Crédito: Foto: Luiz Foto: Luiz SantanaS/ ALMGantana

A gestão Zema virou o retrato de um trem desgovernado

“Aqui o trem prospera”. Esse é o slogan do governo de Minas. E prospera mesmo, mas não para o povo. O trem que de fato prospera hoje é o trem do silenciamento, que atropela o diálogo e ignora quem será afetado pelas decisões. A prova mais concreta disso foi o fim da obrigatoriedade do referendo para a privatização da Copasa, o único instrumento que garantiria ao povo mineiro o direito de decidir sobre o próprio patrimônio.

Aqui prospera o trem do sucateamento dos serviços públicos, que fragiliza estruturas essenciais e deixa servidores à própria sorte. Prospera o trem do entreguismo, que transforma patrimônio do povo em moeda para agradar o mercado financeiro.

Prospera o trem da privatização, que corre a toda velocidade, sem freio e sem responsabilidade, passando por cima dos direitos dos mineiros em nome dos interesses políticos do governador Romeu Zema.

Minas já colocou R$ 96 bilhões em ativos à disposição, três vezes o necessário

A gestão virou o retrato de um trem desgovernado, guiado por pressa, improviso e prioridades que não correspondem ao que a população vive no dia a dia. Agora esse trem mira diretamente a Copasa, uma das empresas mais estratégicas de Minas Gerais.

A Copasa atende 75% dos municípios mineiros — cerca de 12 milhões de pessoas — e opera sistemas de água e esgoto em mais de 300 cidades. Não é apenas uma prestadora de serviço: é uma companhia com presença territorial profunda e papel estruturante, sobretudo para o interior e regiões historicamente negligenciadas.

É também uma empresa reconhecida. Acumula prêmios nacionais e internacionais por sua governança, sustentabilidade e eficiência. Em 2025, venceu o Atlas Governance Awards na categoria “Estatal”. Em 2024, recebeu o Prêmio VOL pelas melhores práticas de voluntariado corporativo.

Sua capacidade técnica é tamanha que a companhia é convocada para atuar em desastres ambientais em outros estados, como nas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, em 2024. Tudo isso enquanto enfrenta sucateamento proposital e ataques que tentam fragilizar sua imagem.

Argumentos não se sustentam

Ainda assim, o governo tenta justificar a privatização com argumentos que não se sustentam. A “modernização” é o primeiro deles. Mas uma empresa que lucrou R$ 360,8 milhões no terceiro trimestre de 2025, que investiu R$ 2,17 bilhões em 2024 — o maior valor da sua história — e que tem R$ 17 bilhões planejados para os próximos anos não precisa de uma venda para se modernizar. Ela já é moderna. E é moderna porque é pública.

Outro argumento é a suposta incapacidade de cumprir o Marco Legal do Saneamento. Os números mostram o contrário: a Copasa abastece 11,8 milhões de mineiros com água, atende 636 municípios, cobre mais de 99% da população atendida com abastecimento e coleta esgoto para mais de 8,8 milhões de pessoas em 309 cidades.

O que existe não é incapacidade técnica, mas uma narrativa construída pelo próprio governo, que precariza, reduz investimentos e depois aponta o resultado como justificativa para vender a empresa.

O terceiro argumento é o Propag. O governo tenta apresentar o programa federal como uma exigência de privatização, o que é falso. O Propag permite que estados quitem até 20% de suas dívidas oferecendo ativos, mas não obriga a venda de estatais e nem define quais ativos devem ser usados.

Minas já colocou R$ 96 bilhões em ativos à disposição, quase três vezes mais do que os R$ 36 bilhões necessários para aderir ao programa. Ou seja, já cumpriu a parte financeira sem precisar vender a Copasa.

Além disso, a valorização das ações da empresa atrai o interesse direto de grandes instituições financeiras, como Itaú Unibanco e BTG Pactual, que têm ampliado posição no setor de saneamento e seriam diretamente beneficiadas pela abertura total do capital. A decisão de incluir a empresa no pacote, portanto, não nasce de obrigação legal ou necessidade operacional, mas de uma escolha política que atende ao mercado.

Consequências

As consequências da desestatização são conhecidas. Países e capitais que privatizaram seus serviços de água, como Berlim, Paris e Buenos Aires, reestatizaram após aumentos abusivos, queda na qualidade e falta de transparência. Mas nós não precisamos ir muito longe. Pará de Minas e Ouro Preto são exemplos recentes de como as tarifas explodiram e a qualidade despencou após privatizações locais.

No Rio de Janeiro, onde a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE) foi leiloada em 2021, a situação escancarou o pior do modelo privado: condomínios tiveram tubulações de esgoto concretadas por não aceitarem cobranças abusivas. Se isso acontece numa das cidades mais ricas e visíveis do país, imagine o impacto em pequenas cidades, distritos e comunidades rurais.

Mas o principal ponto a ser destacado é o perigo do aumento das tarifas. Hoje, 700 mil famílias recebem descontos da Tarifa Social, com abatimentos de até 50%. No setor privado, cuja lógica é o lucro e não a função pública, não há garantia de manutenção desse direito. E quem mais sofre são justamente as regiões mais vulneráveis, como os Vales do Jequitinhonha e do Mucuri, onde a Copasa e a Copanor atuam com maior esforço logístico e onde o investimento não é um negócio lucrativo, mas uma obrigação social.

A Copasa cumpre essa função porque pertence ao povo mineiro. Uma empresa privada não terá a mesma motivação nem o mesmo compromisso. No cenário de sucateamento, redução do serviço ou aumento de tarifas, práticas comuns após privatizações, o cidadão perde a capacidade de reivindicar.

A privatização da Copasa não trará benefício algum ao estado. Pelo contrário: ameaça a segurança hídrica, compromete o saneamento básico, enfraquece o planejamento de longo prazo e coloca milhões de pessoas à mercê de interesses privados.

A companhia foi construída pelos mineiros, não pode ser usada como ativo financeiro para atender projetos de governo.

A disputa em torno da Copasa é estrutural: define o futuro da água, da saúde e do desenvolvimento em Minas. Manter a empresa pública é garantir que decisões sobre um recurso vital continuem sendo tomadas com base no interesse coletivo, e não na rentabilidade de acionistas.

Jean Freire é médico, deputado estadual e vice-presidente do Partido dos Trabalhadores (PT) em Minas Gerais

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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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