Nenhuma tradição nasce pronta. A cultura popular se constrói no tempo, no uso e na adaptação. A Folia de Reis, no Vale do Jequitinhonha, é fruto desse processo: uma prática que atravessou séculos porque foi sendo reinventada pelo povo, de acordo com o território e com a vida cotidiana.
Chegada ao Brasil no período colonial, a Folia de Reis está ligada à celebração do nascimento de Jesus e à narrativa bíblica da visita dos três Reis Magos. A cantoria e a caminhada representam essa jornada, feita de casa em casa, e foram sendo recriadas pelo povo ao longo de mais de três séculos, especialmente nas áreas rurais.
Em Minas Gerais, consolidou-se como uma manifestação múltipla, com variações de ritmo, instrumentos, versos e modos de circular pelas casas, conforme cada região. Em reconhecimento a essa trajetória, a Folia de Reis foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial de Minas Gerais, em 2017, reforçando seu valor como expressão viva da cultura popular, construída coletivamente e transmitida entre gerações.
Vale do Jequitinhonha
No Vale do Jequitinhonha, a folia ganhou identidade própria. A cantoria, os caminhos percorridos e os modos de receber refletem uma cultura construída na oralidade e na convivência. É uma tradição transmitida entre gerações, sem padronização, em que cada grupo carrega marcas do lugar onde vive. Por isso, dialoga com outras expressões do mesmo tronco cultural, como o reisado, presentes em diferentes regiões do estado.
Registros culturais apontam a existência de centenas de grupos de Folia de Reis em Minas Gerais, distribuídos por regiões como o Jequitinhonha, o Norte de Minas, o Vale do Rio Doce e a Zona da Mata. Essa diversidade reforça que não se trata de uma prática única, mas de manifestações moldadas pelo tempo, pelo território e pelas pessoas.
A bandeira dos Santos Reis vai à frente. A cantoria se organiza em versos acompanhados por viola, violão, caixa e pandeiro. A folia acontece nas ruas, nos quintais e nas varandas, acompanhando o ritmo do lugar. Cada casa é visitada com pedido de licença, louvação e agradecimento. A comida é simples e partilhada.
No Vale do Jequitinhonha, a Folia de Reis também dialoga profundamente com a cultura negra. Os ritmos, a percussão, a oralidade, o corpo em movimento e a organização coletiva carregam marcas da presença africana na formação da religiosidade popular. Essa herança não aparece como elemento isolado, mas como parte constitutiva da folia, entrelaçada à fé católica, ao território e às experiências históricas das comunidades.
Em um tempo marcado pelo individualismo, a folia afirma outra lógica: a do encontro, do comum e da permanência dos vínculos. Mesmo tratada muitas vezes de forma superficial, como curiosidade ou atração, a cultura popular segue existindo porque faz sentido para quem a pratica.
A importância da Folia de Reis como prática cultural viva também foi reconhecida por pesquisadores que se dedicaram a escutá-la a partir do território. Entre eles, destaca-se Frei Francisco van der Poel, o Frei Chico, que dedicou grande parte de sua vida ao estudo da religiosidade popular e da Folia de Reis, especialmente em Minas Gerais e no Vale do Jequitinhonha. Com uma postura marcada pela escuta e pela humildade, registrou cantigas, rituais e modos de organização das folias, contribuindo para afirmar seu valor histórico, cultural e simbólico a partir do olhar de quem vive a tradição no cotidiano.
No Vale do Jequitinhonha, a Folia de Reis não é memória distante nem encenação do passado. É prática viva, moldada pelo território, atravessada por heranças indígenas, africanas e europeias, sustentada pela convivência e pela fé popular. Ao seguir cantando e caminhando, ela reafirma a cultura popular como uma das formas mais potentes de produzir identidade, pertencimento e continuidade.
Dr. Jean Freire é médico, deputado estadual e vice-presidente do PT de Minas Gerais.
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