Na semana passada, ao saber da abertura de uma turma extra do curso de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) destinada a jovens assentados, quilombolas e educadores do campo, senti uma mistura de alegria e tristeza. Alegria por testemunhar mais uma iniciativa do Governo Federal em busca da igualdade de oportunidades – um avanço num país ainda tão desigual e injusto.
E tristeza, acrescida de indignação e revolta, ao ver a reação que a medida provocou na elite pernambucana e em seus porta-vozes, que trataram o caso com intenso preconceito e ódio. Quase como se fosse uma profanação do curso médico, historicamente visto como distinção de classe, privilégio dos bem-nascidos, símbolo de uma sociedade que encara certos espaços do saber como herança sagrada para uns poucos.
O curso, resultado de parceria entre a UFPE e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), com apoio do Incra, tem um simbolismo imenso. Rompe barreiras, aproxima a saúde do povo e reafirma que a história é feita de transformações e conquistas – como ocorreu com o voto feminino, com o reconhecimento dos direitos da população negra e da comunidade LGBTQIAPN+.
Mas não se trata só de identitarismo: é, em essência, uma expressão da luta de classes, que se manifesta não apenas em rupturas, mas também na batalha cotidiana por melhores condições de vida das pessoas historicamente marginalizadas. É o enfrentamento à crença equivocada de que os pobres devem permanecer pobres para que os ricos continuem ricos.
Com 80 novas vagas no Centro Acadêmico do Agreste, em Caruaru, o curso não retira vagas do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Ao contrário, amplia a presença da universidade pública em Pernambuco e dá um passo fundamental na interiorização da formação médica.
Mas, como sempre acontece quando o Brasil avança em justiça social, a direita conservadora reage com ódio e preconceito. Tentam deslegitimar a iniciativa afirmando que é “um curso do MST”, que “viola a isonomia”, que “cria privilégios”. É o mesmo discurso elitista e desinformado de sempre – o mesmo que se ouviu quando foram criados o Prouni, o Fies, as cotas raciais e o Mais Médicos.
As mesmas vozes dizendo que “vai cair a qualidade”, que “é populismo”, que “é privilégio”. Os mesmos que demonizaram os médicos cubanos que atenderam populações pobres, mesmo vindo de um país cuja medicina é uma das mais avançadas do mundo.
É preciso colocar o debate em perspectiva: o Pronera é um programa de Estado, com base legal consolidada, criado há mais de 25 anos e reconhecido como uma das políticas mais relevantes de educação no campo. Já formou milhares de professores, agrônomos, veterinários, advogados e enfermeiros — sempre em parceria com universidades públicas.
Agora, avança ainda mais com o curso de Medicina. E faz isso com critérios técnicos e pedagógicos transparentes: a seleção inclui redação sobre a realidade do campo, análise do histórico escolar e reserva de vagas para pessoas de baixa renda, negras, pardas e com deficiência. Tudo dentro da lei, amparado na autonomia universitária e na missão pública da UFPE.
As críticas de entidades médicas e de parlamentares bolsonaristas revelam, na verdade, a defesa de um modelo elitista e excludente de formação médica – um modelo que, por séculos, manteve a Medicina como espaço reservado às classes dominantes, herdeiras diretas da cultura aristocrática e escravocrata que moldou o Brasil.
Não é coincidência que o Conselho Federal de Medicina e setores conservadores se oponham ao projeto, como também se opuseram à democratização da formação médica e ao programa Mais Médicos, que levou assistência a regiões onde antes não havia sequer um posto de saúde.
A turma do Pronera na UFPE não representa um privilégio — é um ato de reparação histórica. É a garantia de que jovens do campo, filhos e filhas de trabalhadores rurais, possam se formar médicos, atender a suas comunidades e ajudar a reduzir o abismo na distribuição de profissionais de saúde entre o litoral e o interior.
Não se trata apenas de formar médicos, mas de formar profissionais comprometidos com o povo brasileiro, com o SUS, com a vida, com a dignidade. Gente que conhece a dor da seca, a distância dos hospitais, a dificuldade de conseguir uma consulta. Pessoas que não abandonarão o interior após se formar, porque o interior é o seu lugar de origem e compromisso.
Ao contrário do que afirmam os críticos, essa iniciativa não fere a Constituição — ela a cumpre. Basta ler o artigo 205, que define a educação como direito de todos e dever do Estado; e o artigo 207, que assegura a autonomia universitária para definir seus programas, currículos e formas de seleção.
O que realmente fere a Constituição é o preconceito — o racismo e o ódio de classe que ainda persistem em parte da sociedade brasileira e que se revelam quando o pobre, o negro, o camponês ou o indígena ousam ocupar espaços antes reservados à elite.
Devemos, portanto, reafirmar nosso apoio à UFPE, ao Pronera e ao governo do presidente Lula por essa medida de justiça social e valorização da vida. O Brasil não precisa de menos médicos, e sim de mais médicos comprometidos com o povo.
Aos que se dizem defensores da “meritocracia”, lembro: não há mérito possível quando o ponto de partida é desigual. Cabe ao Estado corrigir essa distância, criando oportunidades para que todos, sem distinção de origem, possam estudar, servir e transformar o país.
A medicina do futuro deve ser popular, humanista e solidária. O diploma de médico precisa representar compromisso com a vida e com o povo – e não distinção de classe.
Não apenas como deputado estadual, mas como alguém vindo do povo, que sabe o quanto é difícil ter acesso à educação e o quanto uma oportunidade dessas pode mudar uma vida, me sensibilizo, me solidarizo e me somo a essa luta.
Da mesma forma, registro minha total solidariedade à UFPE, instituição séria, digna e merecedora do respeito dos pernambucanos. É preciso respeitar sua autonomia e a decisão corajosa de promover uma política de inclusão que dialoga diretamente com o direito constitucional à educação e à saúde.
O Brasil é do povo brasileiro! E os filhos dos pobres vão ser doutores, sim!

