João Paulo Lima

Deputado estadual pelo PT em Pernambuco. Economista, mestre e doutorando. Ex-metalúrgico, sindicalista, aluno de Paulo Freire e 1º prefeito negro e operário do Recife (2001-2008).

O filho do camponês vai virar doutor

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Médico da família vinculado ao programa Mais Médicos realiza atendimento domiciliar | Crédito: Araquem Alcântara / Palácio do Planalto

É o enfrentamento à crença de que os pobres devem permanecer pobres para que os ricos continuem ricos

Na semana passada, ao saber da abertura de uma turma extra do curso de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) destinada a jovens assentados, quilombolas e educadores do campo, senti uma mistura de alegria e tristeza. Alegria por testemunhar mais uma iniciativa do Governo Federal em busca da igualdade de oportunidades – um avanço num país ainda tão desigual e injusto.

E tristeza, acrescida de indignação e revolta, ao ver a reação que a medida provocou na elite pernambucana e em seus porta-vozes, que trataram o caso com intenso preconceito e ódio. Quase como se fosse uma profanação do curso médico, historicamente visto como distinção de classe, privilégio dos bem-nascidos, símbolo de uma sociedade que encara certos espaços do saber como herança sagrada para uns poucos.

O curso, resultado de parceria entre a UFPE e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), com apoio do Incra, tem um simbolismo imenso. Rompe barreiras, aproxima a saúde do povo e reafirma que a história é feita de transformações e conquistas – como ocorreu com o voto feminino, com o reconhecimento dos direitos da população negra e da comunidade LGBTQIAPN+.

Mas não se trata só de identitarismo: é, em essência, uma expressão da luta de classes, que se manifesta não apenas em rupturas, mas também na batalha cotidiana por melhores condições de vida das pessoas historicamente marginalizadas. É o enfrentamento à crença equivocada de que os pobres devem permanecer pobres para que os ricos continuem ricos.

Com 80 novas vagas no Centro Acadêmico do Agreste, em Caruaru, o curso não retira vagas do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Ao contrário, amplia a presença da universidade pública em Pernambuco e dá um passo fundamental na interiorização da formação médica.

Mas, como sempre acontece quando o Brasil avança em justiça social, a direita conservadora reage com ódio e preconceito. Tentam deslegitimar a iniciativa afirmando que é “um curso do MST”, que “viola a isonomia”, que “cria privilégios”. É o mesmo discurso elitista e desinformado de sempre – o mesmo que se ouviu quando foram criados o Prouni, o Fies, as cotas raciais e o Mais Médicos.

As mesmas vozes dizendo que “vai cair a qualidade”, que “é populismo”, que “é privilégio”. Os mesmos que demonizaram os médicos cubanos que atenderam populações pobres, mesmo vindo de um país cuja medicina é uma das mais avançadas do mundo.

É preciso colocar o debate em perspectiva: o Pronera é um programa de Estado, com base legal consolidada, criado há mais de 25 anos e reconhecido como uma das políticas mais relevantes de educação no campo. Já formou milhares de professores, agrônomos, veterinários, advogados e enfermeiros — sempre em parceria com universidades públicas.

Agora, avança ainda mais com o curso de Medicina. E faz isso com critérios técnicos e pedagógicos transparentes: a seleção inclui redação sobre a realidade do campo, análise do histórico escolar e reserva de vagas para pessoas de baixa renda, negras, pardas e com deficiência. Tudo dentro da lei, amparado na autonomia universitária e na missão pública da UFPE.

As críticas de entidades médicas e de parlamentares bolsonaristas revelam, na verdade, a defesa de um modelo elitista e excludente de formação médica – um modelo que, por séculos, manteve a Medicina como espaço reservado às classes dominantes, herdeiras diretas da cultura aristocrática e escravocrata que moldou o Brasil.

Não é coincidência que o Conselho Federal de Medicina e setores conservadores se oponham ao projeto, como também se opuseram à democratização da formação médica e ao programa Mais Médicos, que levou assistência a regiões onde antes não havia sequer um posto de saúde.

A turma do Pronera na UFPE não representa um privilégio — é um ato de reparação histórica. É a garantia de que jovens do campo, filhos e filhas de trabalhadores rurais, possam se formar médicos, atender a suas comunidades e ajudar a reduzir o abismo na distribuição de profissionais de saúde entre o litoral e o interior.

Não se trata apenas de formar médicos, mas de formar profissionais comprometidos com o povo brasileiro, com o SUS, com a vida, com a dignidade. Gente que conhece a dor da seca, a distância dos hospitais, a dificuldade de conseguir uma consulta. Pessoas que não abandonarão o interior após se formar, porque o interior é o seu lugar de origem e compromisso.

Ao contrário do que afirmam os críticos, essa iniciativa não fere a Constituição — ela a cumpre. Basta ler o artigo 205, que define a educação como direito de todos e dever do Estado; e o artigo 207, que assegura a autonomia universitária para definir seus programas, currículos e formas de seleção.

O que realmente fere a Constituição é o preconceito — o racismo e o ódio de classe que ainda persistem em parte da sociedade brasileira e que se revelam quando o pobre, o negro, o camponês ou o indígena ousam ocupar espaços antes reservados à elite.

Devemos, portanto, reafirmar nosso apoio à UFPE, ao Pronera e ao governo do presidente Lula por essa medida de justiça social e valorização da vida. O Brasil não precisa de menos médicos, e sim de mais médicos comprometidos com o povo.

Aos que se dizem defensores da “meritocracia”, lembro: não há mérito possível quando o ponto de partida é desigual. Cabe ao Estado corrigir essa distância, criando oportunidades para que todos, sem distinção de origem, possam estudar, servir e transformar o país.

A medicina do futuro deve ser popular, humanista e solidária. O diploma de médico precisa representar compromisso com a vida e com o povo – e não distinção de classe.

Não apenas como deputado estadual, mas como alguém vindo do povo, que sabe o quanto é difícil ter acesso à educação e o quanto uma oportunidade dessas pode mudar uma vida, me sensibilizo, me solidarizo e me somo a essa luta.

Da mesma forma, registro minha total solidariedade à UFPE, instituição séria, digna e merecedora do respeito dos pernambucanos. É preciso respeitar sua autonomia e a decisão corajosa de promover uma política de inclusão que dialoga diretamente com o direito constitucional à educação e à saúde.

O Brasil é do povo brasileiro! E os filhos dos pobres vão ser doutores, sim!

Editado por: Vinicius Sobreira

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