Jornal Bicicleta

Neste espaço, o jornalista Rogério Viduedo vai discutir o uso da bicicleta sob a perspectiva do trabalhador, da trabalhadora, pois é uma ferramenta de transformação social e de combate tanto das mudanças climáticas quanto de doenças do coração e diabetes. Cidades que incentivam o uso da bicicleta têm menores índices de poluição e as pessoas têm uma saúde melhor. No entanto, não se pode esquecer que um ciclista também é pedestre e usuário de transporte público, temas que também serão abordados aqui.

Nunes despreza legado de Covas e afrouxa Plano de Ação Climática de São Paulo

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Nunes não quer saber de incentivar bicicleta, considerada uma política petista de sucesso que deve ser deixada nas sombras.

O mais novo retrocesso na política cicloviária paulistana administrada pelo prefeito bolsonarista Ricardo Nunes é alterar substancialmente o Plano de Ação Climática do Município e, entre outros afrouxamentos, retirar a meta de se chegar ao ano de 2030 com 4% dos deslocamentos diários dos munícipes sendo realizados em bicicleta, que atualmente não passa de 1%. Mas, para quem acompanha a política cicloviária isso não é nenhuma surpresa. Desde que assumiu, Nunes faz o mínimo possível em relação à segurança e conforto de quem opta em se deslocar só com a força do corpo. 

Nunes não quer saber de incentivar bicicleta, considerada uma política petista de sucesso que deve ser deixada nas sombras. Desde que assumiu, a turma dele cortou tudo o que é meta envolvendo expansão de ciclovias ou incentivo ao uso do modal ativo. O Plano de Metas deixado por Covas quando morreu, continha a obrigação de construir 300 quilômetros até 2024. Nunes fez menos de 50 e na revisão deste plano jogou a mesma meta para 2028. Quem me dera trabalhar numa firma na qual eu mesmo faço a meta e, se eu quiser, mudo-a ao meu bel prazer.

Não imaginei que teria saudade do Bruno Covas. O Plano de Ação Climática que ele deixou contém 88 menções à bicicleta e sua integração à cidade com implantação de mais ciclovias, bicicletários e campanhas para abandonar o uso dos transportes automotores individuais. Na revisão promovida pela turma de Nunes, em andamento, a bicicleta ficou reduzida a cinco citações, com cinco metas nem um pouco ambiciosas, como instalar bicicletários em 100% dos terminais de ônibus até 2028 ou subsidiar um programa de bicicletas compartilhadas para população de baixa renda até 2032, mesmo prazo para publicar legislação de incentivo à instalação de bicicletários em edifícios de empresas sediadas no Município.

Pedalar em São Paulo tem sido cada vez mais difícil, principalmente para quem não mora no centro expandido, onde se concentra a maior oferta de infraestrutura cicloviária. Para quem mora da ponte pra cá, a luta é diária para cruzar os rios e linhas de trens por pontes e viadutos inóspitos e totalmente inseguros, tanto para pessoas em bicicletas quanto para pedestres. E sobreviver é uma luta. Só neste ano, segundo o Infosiga, já morreram 27 ciclistas na cidade, número que pode parecer pouco em relação à uma população de 12 milhões de pessoas, mas é muito alto para a família de quem vive o luto. 

*Rogério Viduedo é jornalista de São Paulo e integrante do Programa de Jornalismo de Segurança Viária da Organização Mundial da Saúde. Cobre as áreas de segurança viária a mobilidade sustentável desde 2016. Em 2018, criou o site Jornal Bicicleta para cobrar autoridades por soluções eficientes para deslocamento da população. Recebeu o Prêmio Abraciclo em 2021 com a reportagem “Cultura da bicicleta se aprende na escola”.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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