Jornal Bicicleta

Neste espaço, o jornalista Rogério Viduedo vai discutir o uso da bicicleta sob a perspectiva do trabalhador, da trabalhadora, pois é uma ferramenta de transformação social e de combate tanto das mudanças climáticas quanto de doenças do coração e diabetes. Cidades que incentivam o uso da bicicleta têm menores índices de poluição e as pessoas têm uma saúde melhor. No entanto, não se pode esquecer que um ciclista também é pedestre e usuário de transporte público, temas que também serão abordados aqui.

Um programa Hospital Amigo da Bicicleta poderia economizar milhões do SUS

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Ciclistas do Pedalula no Elevado João Goulart em São Paulo - 23/10/2022 - Crédito Rogério Viduedo.
Ciclistas do Pedalula no Elevado João Goulart em São Paulo, em 23 de outubro de 2022. | Crédito: Rogério Viduedo

Estabelecer uma cultura da bicicleta na rede de saúde poderia resolver o segundo maior desejo de quem pedala: ter locais seguros para guardar a bicicleta.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, poderia economizar um bom dinheiro do Sistema Único de Saúde (SUS) caso desenvolvesse um plano ousado de incentivo ao uso da bicicleta com o objetivo de reduzir os altos índices de pessoas com hipertensão, diabetes e obesidade que geram custos anuais de R$ 3,45 bilhões, na proporção de 59% (R$ 2,035 bi), 30% (R$ 1,035 bi) e 11% (R$ 375 milhões), respectivamente, a cada doença. Os números referem-se a 2018 e foram publicados pelo Ministério em 2020.

No estudo, os pesquisadores alertaram para a obesidade como fator de risco para hipertensão e diabetes. Nesse recorte, os custos chegaram a R$ 1,42 bilhão, ou 41% do total. Segundo o site do Hospital Albert Einstein, combater excesso de peso “é um desafio complexo para a saúde pública”. Envolve cultura alimentar, condições econômicas, fatores genéticos e metabólicos e comportamentos ambientais e emocionais.

Uma das frentes de batalha é o combate ao sedentarismo, e uma das armas é fazer as pessoas usarem a bicicleta como transporte do dia a dia. Há pesquisas consistentes que comprovam a eficácia desse remédio contra a obesidade.

Um estudo publicado no American Journal of Public Health comparou os dados de 14 países com os 50 estados e 47 grandes cidades dos EUA e apontou que locais com maiores taxas de caminhadas e uso da bicicleta tinham menores índices de obesidade e diabetes em comparação com aqueles mais dependentes de transporte motorizado.

Um exemplo é Oslo, na Noruega, onde um estudo, acompanhou 2.445 moradores de bairros de baixa renda e concluiu que as pessoas que utilizavam bicicleta como meio de transporte tinham menor incidência de diabetes, menos obesidade e melhores níveis de colesterol HDL, o bom colesterol, mesma conclusão de pesquisadores japoneses que, durante 14 anos, acompanharam trabalhadores e trabalhadoras e quem se deslocava a pé ou de bicicleta apresentou risco 46% menor de desenvolver diabetes em comparação a usuários de transporte motorizado.

Aqui no Brasil temos uma pesquisa realizada em 2017 que pode embasar a decisão do ministro. O pesquisador Victor Calil, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), apontou que São Paulo poderia economizar anualmente cerca de R$ 34 milhões com internações no SUS caso mais pessoas usassem a bicicleta. Estimou ainda uma adição de R$ 870 milhões anuais ao Produto Interno Bruto (PIB) da cidade se o potencial ciclável das viagens realizadas de automóvel e ônibus fosse aproveitado.

Segundo ele, o percentual de viagens de ônibus e de carro de até oito quilômetros de distância que poderiam ser substituídas por trajetos de bicicleta chega a 31% dos deslocamentos feitos por ônibus, meio de transporte usado em 35% do total de viagens na cidade de São Paulo; e 43% dos feitos por automóvel, transporte usado em 31% dos deslocamentos na capital. O restante, 34% das viagens, é feito por meios menos poluentes, como o metrô, ou com a combinação de mais um modo de transporte. É muito dinheiro, ainda mais levando em consideração a redução da poluição, o bem-estar mental, entre outros fatores.

Eu sei que lidar com esse assunto não é fácil, uma vez que a competência de gerir trânsito e fazer infraestrutura cicloviária é dos municípios, mas o Ministério da Saúde poderia criar um grupo técnico que pudesse estudar possibilidades de políticas públicas intersetoriais em conjunto com as pastas das Cidades, dos Transportes, da Educação e até mesmo da Cultura e colocar definitivamente o olhar da medicina para esse uso da bicicleta, atividade em risco devido à proliferação das e-bikes, consideradas por alguns como veículo sustentável — uma falácia —, já que não possuímos nenhuma política de reaproveitamento das baterias.

O ministro, por sua vez, poderia criar mecanismos de incentivo dentro da sua jurisdição, de modo a não depender de outras partes. Dentre as ações, sugiro instituir campanhas permanentes de incentivo às pedaladas nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e motivar que hospitais ligados ao sistema destinem espaço seguro para funcionários, pacientes e acompanhantes deixarem a bicicleta em segurança pelo período que precisarem.

Como exemplo, eu tenho usado a bicicleta para ir e vir ao Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC), onde tenho minha companheira novamente internada para tratamento oncológico. Isso tem sido de grande auxílio, já que o hospital, localizado na Radial Leste, no bairro da Mooca, aqui em São Paulo, tem uma vizinhança erma e os deslocamentos para serviços, principalmente durante a noite, tornam-se inseguros devido à distância da área de comércio e da estação de metrô.

Estabelecer uma cultura da bicicleta na rede de saúde poderia resolver o segundo maior desejo de quem pedala: ter locais seguros para guardar a bicicleta. No meu caso, ainda que a Estapar, empresa que gere o estacionamento, seja amigável com ciclistas, não disponibiliza local planejado para elas. Eu tenho que deixar a minha de modo improvisado, junto às motocicletas. Fica a dica.

Editado por: Luís Indriunas

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