Por Leleco Pimentel, Padre João e Patrine Santos
O Norte de Minas, especialmente o território do Alto Rio Pardo, enfrenta há décadas um processo contínuo de degradação ambiental e social, impulsionado pela mineração e pela monocultura de eucalipto. O que antes era uma paisagem marcada pela diversidade do Cerrado, por águas abundantes e comunidades rurais produtivas, hoje revela sinais de exaustão, escassez e abandono.
Essas transformações não ocorreram de forma natural. São resultado da imposição de modelos econômicos concentradores, que privilegiam grandes empresas em detrimento da agricultura familiar e das comunidades tradicionais. A expansão desordenada dessas atividades tem causado impactos irreversíveis na vida e na cultura dos povos geraizeiros.
Monocultura de eucalipto: o deserto verde
Entre as empresas protagonistas desse processo está a Rio Rancho, uma das pioneiras na introdução e expansão da monocultura de eucalipto na região. Assim como outras do setor, consolidou-se sob o discurso do progresso e da geração de empregos, mas o saldo ambiental e social é devastador.
O eucalipto, cultivado em larga escala, consome grandes volumes de água e compromete o equilíbrio ecológico do Cerrado. O desaparecimento de nascentes, a compactação do solo e a perda da biodiversidade transformaram vastas áreas em verdadeiros desertos verdes. A homogeneização da paisagem substitui a vida pela monocultura e condena o território à esterilidade.
Mineração: riqueza que sai, pobreza que fica
A atividade mineradora reforça o mesmo modelo predatório. No Alto Rio Pardo, a exploração de pedras e minérios retira as riquezas do subsolo e as transporta para fora da região, deixando para trás uma terra remexida, empobrecida e sem vida.
Sob o discurso do desenvolvimento, a mineração provoca danos profundos: altera o curso das águas, degrada o solo e compromete o sustento das famílias. A suposta prosperidade prometida nunca se concretiza — o capital mineral se concentra nas mãos de poucos, enquanto os prejuízos recaem sobre a população local.
A conivência política e o abandono do território
Outro fator que agrava a situação é a omissão e, em alguns casos, o envolvimento direto de prefeitos e autoridades locais com as empresas responsáveis pela degradação. Em vez de protegerem os territórios e cobrarem responsabilidade socioambiental, muitos gestores públicos se alinham aos interesses corporativos, permitindo a continuidade de práticas destrutivas.
Essa conivência política aprofunda a desigualdade e perpetua o ciclo de exploração. O poder público municipal, que deveria representar o interesse coletivo, tem se tornado cúmplice da expropriação das comunidades e da devastação do Cerrado.
Consequências sociais e deslocamento forçado
O avanço simultâneo da mineração e da monocultura tem provocado um êxodo silencioso. Famílias inteiras foram obrigadas a deixar o campo, diante da escassez de água e da infertilidade da terra. O resultado é o enfraquecimento das comunidades rurais, o empobrecimento da vida coletiva e o desaparecimento de práticas culturais e produtivas que sustentavam a região há gerações.
A omissão do poder público, somada à influência política e econômica das empresas, consolida um modelo que trata o Cerrado como mercadoria, e não como território de vida. Essa lógica de espoliação condena o Alto Rio Pardo a um futuro incerto, marcado pela desigualdade e pela perda de soberania local.
Resistência e urgência de outro modelo
Apesar da destruição, as comunidades geraizeiras resistem. São guardiãs de um conhecimento ancestral que mantém o equilíbrio entre a terra, a água e a cultura. A agroecologia, o uso coletivo do território e o manejo sustentável dos recursos são exemplos de alternativas viáveis e necessárias para reconstruir o Cerrado com justiça e dignidade.
Repensar o modelo de desenvolvimento é uma urgência ética e ambiental. O Alto Rio Pardo não precisa de promessas de progresso, mas de políticas que garantam o direito à terra, à água e à vida digna para quem sempre cuidou da região.
Enquanto houver geraizeiros de pé, haverá Cerrado, memória e resistência.
Leleco Pimentel é deputado estadual pelo PT (MG), Padre João é deputado federal pelo PT (MG) e Patrine Santos é jornalista
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Este é um artigo de opinião. A visão dos autores não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

