Neste 25 de novembro, Dia Internacional de Combate à Violência Contra as Mulheres, quase sempre repetimos as mesmas urgências: denunciar, reconhecer as violências, quebrar o ciclo. São afirmações fundamentais, salvam vidas. Mas há uma parte da história que quase nunca é dita e que, para milhares de mulheres, começa justamente onde as campanhas terminam.
Falo aqui da vida depois da ruptura de uma dinâmica de violências, da mulher que respira fundo pela primeira vez em muito tempo, mas que ainda sente o peito tremer. Da mulher que decide partir, mas não sabe onde vai dormir na noite seguinte. Da que escapa, mas carrega cicatrizes que não aparecem no corpo. Da que sobrevive, mas precisa reaprender a viver.
Porque sair da violência não é um final feliz, é o começo de um caminho árduo, profundo, delicado e muitas vezes solitário.
A autonomia financeira é, muitas vezes, a primeira muralha a vencer. Muitas mulheres saem de casa carregando apenas os documentos, quando muito. Sem renda, sem rede de apoio, sem perspectiva, apenas com a coragem. Reconstruir essa autonomia não é só sobre salário, é sobre recuperar o direito de sonhar, voltar a pagar as próprias contas, sim, mas também escolher seus passos, suas roupas, seus horários, seus afetos. É sobre não depender do agressor, nem do medo.
Por isso, nosso mandato segue investindo em políticas que fortaleçam a mulher que está recomeçando: formação profissional, apoio a iniciativas de geração de renda, recursos para equipamentos públicos que acolhem, protegem e impulsionam novas trajetórias. Além de ações políticas contundentes e coletivas para assegurar e melhorar a qualidade dos serviços de atendimento às mulheres, como a defesa intransigente pelo funcionamento 24 horas das Delegacias Especializadas no Atendimento às Mulheres, as DEAMs, e a criação da Vara Especializada em Violência Doméstica.
A mulher que sai de um período de violências muitas vezes ainda carrega a culpa que não é dela. A vergonha que não lhe pertence, o medo de que tudo recomece. É um processo lento para reencontrar o próprio nome, a própria voz, o próprio sorriso. Uma travessia de reaprendizagem: descobrir que não foi fraca, foi sobrevivente; que não foi silenciosa, foi silenciada; que não estava sozinha, mas isolada por uma lógica de dominação que este país ainda não enfrentou como deveria.
Reconstrução emocional
Há também a reconstrução emocional, tantas vezes invisível. A violência deixa marcas profundas que não aparecem no corpo, mas afeta a autoestima, a confiança e a capacidade de retomar a própria vida. É preciso tempo, cuidado e políticas integradas de apoio psicológico e social.
Temos insistido, no Legislativo, que a recuperação emocional não é um detalhe, é parte essencial do enfrentamento, porque toda mulher tem direito a reconstruir sua dignidade e seu senso de pertencimento no mundo. Toda mulher tem direito à reconstrução da própria dignidade.
Romper essa repetição de violências é também reconquistar o direito de existir plenamente. É voltar a ocupar a rua sem medo, é votar sem ser pressionada, é trabalhar sem ser perseguida, é amar sem ser punida. É exatamente por isso que, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, temos atuado para que o enfrentamento à violência não se limite ao momento da denúncia, mas alcance todas as dimensões da vida da mulher.
Algumas das nossas iniciativas:
- Criamos o Programa de Enfrentamento ao Assédio e Violência Política contra a Mulher (PL 2309/20) – porque a política também é um território de disputa onde o machismo tenta nos calar.
- Instituímos a Política de Conscientização e Enfrentamento ao Assédio e à Violência Sexual (PL 2568/2021) – para que as instituições públicas sejam espaços de segurança e respeito.
- Propusemos o Código de Defesa da Mulher (PL 3413/2025) – uma política abrangente que reúne proteção, dignidade, prevenção e reconstrução.
Cada projeto, cada emenda, cada articulação é parte de uma mesma defesa: a vida, o futuro e a liberdade das mulheres.
25 de novembro
Neste 25 de novembro, é hora de olharmos para as mulheres que sobreviveram, para as que estão recomeçando, para as que ainda vão encontrar coragem, sem nunca nos furtar de lutar por aquelas que não tiveram tempo, porque o Estado, a sociedade e todos nós falhamos com elas.
Nosso compromisso é diário. Nosso mandato segue de pé por todas. Pelas que já romperam o ciclo, pelas que ainda romperão e pelas que mereciam ter vivido para ver o próprio recomeço.
Combater a violência é também garantir caminhos de liberdade e acompanhar cada mulher até que ela consiga seguir com segurança, com autonomia, com dignidade, com afeto e com o futuro nas próprias mãos.
Leninha é bióloga e mestre em Desenvolvimento Social (Unimontes), está em seu segundo mandato como deputada estadual. É uma mulher negra, periférica e trabalhadora e constrói sua trajetória de vida e luta a partir das bases populares, com raízes profundas no Norte de Minas. É a primeira vice-presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e atual presidente do Partido dos Trabalhadores em Minas Gerais (PT MG).
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Leia outros artigos de Leninha em sua coluna no jornal Brasil de Fato.
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Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

