Leninha

Leninha é deputada estadual pelo PT, 1ª vice-presidenta da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e presidente estadual do Partido dos Trabalhadores

O fim da escala 6×1 é também uma pauta feminista e antirracista 

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Trabalhadores e trabalhadoras protestam contra a escala 6×1
Trabalhadores e trabalhadoras protestam contra a escala 6×1 | Crédito: Elineudo Meira/@fotografia.75

O direito ao descanso não é privilégio, não é luxo

Tem gente que gosta de falar da escala 6×1 como se fosse apenas uma discussão sobre economia, mas eu gosto de olhar para este tema tendo a vida real como norte. 

Na política, convivo diariamente com pessoas que trabalham sem parar. Motoristas, assessoras, profissionais da limpeza, jornalistas, seguranças, trabalhadoras do comércio, da saúde, da educação. Gente que vive numa correria permanente, muitas vezes sem tempo para descansar, cuidar da saúde ou estar com a família. A maioria de nós já passou por uma rotina esgotante e sabe que é inevitável o corpo pedir socorro. 

A correria desorganiza a saúde mental, rouba o tempo do cuidado com quem amamos e com nós mesmas, tira da vida aquilo que também nos sustenta: a conversa sem pressa, o almoço em família, um sono bem dormido, a festa, o descanso.

Essa é a rotina normal de milhares de brasileiros, e eu me pergunto: que vida faz sentido se for apenas trabalhar para continuar trabalhando?

Talvez por isso tanta gente tenha se reconhecido no debate sobre o fim da escala 6×1, uma discussão cada vez mais forte entre as pessoas nas ruas. Prova disso foi a pesquisa Quaest que mostra que sete em cada dez brasileiros apoiam o fim desse modelo de jornada. Existe um esgotamento coletivo envolvendo a vida do povo trabalhador brasileiro, e felizmente as pessoas estão percebendo isto com mais nitidez. Não pode ser normal viver sem tempo para existir.

Quando nos aprofundamos um pouco mais neste debate, vemos outras camadas importantes de serem encaradas, como a maneira que essa jornada de trabalho pesa de forma diferente para homens e mulheres.

Mulheres e jornada 7×0

Para muitos homens, o único dia de descanso ainda permite encontrar amigos, assistir futebol e dormir até mais tarde. Para a grande maioria das mulheres brasileiras, não. Elas trabalham seis dias fora de casa e, no sétimo, continuam trabalhando dentro dela. O “tempo livre” se torna o dia de lavar roupa, cozinhar, limpar a casa, organizar a semana, cuidar dos filhos, dos idosos, das pessoas doentes. Muitas vezes, cuidar também do marido, porque a divisão do trabalho doméstico no Brasil segue profundamente desigual.

Para a maioria das mulheres trabalhadoras, a escala nunca foi 6×1. Sempre foi 7×0. No momento em que a política se afasta dessa realidade concreta, ela deixa de fazer sentido para a sociedade. 

O trabalho do cuidado também move a economia, mas quase nunca é reconhecido, muito menos remunerado. As jornadas extensas e pouco flexíveis pesam muito mais sobre as mulheres, especialmente sobre as mulheres negras, periféricas e mães, que sustentam este país funcionando enquanto convivem com a precarização, o transporte cansativo e a ausência de tempo para si. O fim da escala 6×1 é também uma pauta feminista e antirracista. 

Temos, atualmente, embasamento científico suficiente para afirmar que a ausência do descanso significa mais adoecimento físico e mental, trazendo ansiedade, exaustão e depressão. A escala exaustiva significa mães sem tempo de educar os filhos, estudar, descansar ou simplesmente estar presentes.

Outro ponto urgente de atenção dentro desse tema é a maneira como a rotina exaustiva também aprisiona mulheres em relações violentas. Muitas trabalhadoras não conseguem acessar uma rede de apoio, procurar atendimento psicológico ou romper ciclos de violência porque vivem consumidas pelo trabalho e pelo cansaço.

Por isso, quando o presidente Lula diz que o povo quer o fim da escala 6×1 para namorar, estudar e ter lazer, ele está falando de dignidade humana. O direito ao descanso não é privilégio, não é luxo.

Normalizar a exaustão é assinar um pacto com diferentes formas de opressão. O capitalismo transforma nosso tempo em produtividade. O racismo faz com que o peso do trabalho recaia de forma ainda mais cruel sobre a população negra. E o machismo naturaliza que mulheres carreguem jornadas invisíveis de cuidado sem reconhecimento e sem descanso.

Existe um legado de exaustão nas famílias negras brasileiras. Gerações inteiras precisaram viver no limite da sobrevivência. Talvez por isso descansar ainda pareça culpa para tanta gente, mas nós precisamos urgentemente nos desamarrar da cultura da produtividade. Gente não nasceu apenas para produzir. Nasceu também para conviver, criar, amar, sonhar,  contemplar e brilhar.  

Defender o fim da escala 6×1 é defender uma economia que coloque a vida no centro. Ao observar de verdade o cotidiano do povo trabalhador, uma coisa fica evidente: o Brasil merece viver melhor. A beleza, a poesia, o relaxamento, são direitos a serem conquistados.

Leninha é bióloga, mestre em Desenvolvimento Social (Unimontes) e está em seu segundo mandato como deputada estadual. É uma mulher negra, periférica e trabalhadora e constrói sua trajetória de vida e luta a partir das bases populares, com raízes profundas no Norte de Minas. É a primeira vice-presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e atual presidenta do Partido dos Trabalhadores em Minas Gerais (PT MG).

Leia outros artigos de Leninha em suacoluna no jornal Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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