Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo, MsC em Economia Rural, Dr. em Engenharia de Produção. Extensionista rural aposentado, fotógrafo.

Crise do capitalismo e o fim do American way of life

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EUA tem responsabilidades com a aceleração de tendência global no sentido de destruição da vida, situação que já nos coloca diante daquele ponto de não retorno

Nesta semana o comentário desta coluna se apoia em confluência do discurso de Gustavo Petro, na Organização das Nações Unidas (ONU),  com análise do economista Richard Wolf, sobre a crise do capitalismo.

Eles coincidem em interpretar que o governo dos Estados Unidos (EUA) tem responsabilidades com a aceleração de tendência global no sentido de destruição da vida, situação que já nos coloca diante daquele ponto de não retorno, onde o colapso se tornará inevitável e incapaz de ser detido por qualquer tecnologia ou forças políticas e sociais.

Na base, o movimento inercial -autodestrutivo- do capitalismo em seu estágio atual nos EUA, onde se conectam aspectos objetivos da realidade com a subjetividade e os valores da população.

Na superfície, a expressão cruel da decadência moral e intelectual. Erguidos ao controle de um governo detentor de armas poderosas, pessoas dominadas por impulsos destrutivos e egocêntricos, negacionistas ao que lhes seja antagônico, ameaçam a humanidade.

No limite, controlando o império em estertor, um grupo obscurantista dominado pela crença de que alguns dentre eles fazem parte de categoria dotada de qualidades superiores, que se entende como representação de um povo escolhido por deus, para dominar o planeta.

É neste caldo que Richard Wolf afirma, em entrevista com Glen Diesen, que O Capitalismo Ocidental Está Se Autodestruindo. A circunstância tende a nos arrastar porque somos parte daqueles povos e territórios que eles entendem estarem aqui, para servi-los.

Em reação inconsciente ou no esforço para negar ou por não conseguirem enxergar o fim do American way of life, os norte-americanos moldados por lutas fraticidas, -todos contra todas em busca da acumulação de riquezas – , teriam se deixado levar pela demagogia de um líder carismático da pior estirpe. Sonhando com a opulência de uma America Great Again, por apatia e ignorância, em uma espécie de doença mental, coletiva, aquela sociedade teria concedido àquele líder e a seu grupo, poderes suficientes para “retomar” na força (doa a quem doer, dentro ou fora do país)  tudo  que ele afirma ter sido roubado, por pretos, pardos, asiáticos, pobres ou diferentes em qualquer sentido, dos brancos norte-americanos ricos. Isso provavelmente não incluiria, mas Trump claramente vem aproveitando a oportunidade para reivindicar, também uma espécie de preferência divina, para determinação do que é adequado para os habitantes de qualquer local deste planeta. Tudo falso, afora a estupidez dos que o elegeram. Mas isso não importa.

O drama vem do fato de que o plano não se sustenta. Inclusive porque o modelo não o permite.

Mas eles avançam.

E assim, diante da superação de limites inaceitáveis de barbárie, de miserabilidade e  na iminência do esgotamento de recursos, emergem a cada dia mais fortes, reações de intolerância por parte dos explorados.

Olhando para si, para os seus e para o entorno, o sul do mundo percebe que Gaza não é o fim, nem o começo. É mais do mesmo. É a continuidade de mecanismo que já foi utilizado no passado, com outros povos nativos, diante da expansão dos EUA e outros impérios. E isso também revela que todas as ameaças veladas apontam para nós, e escondem perigos reais.

Por outro lado, constata-se que ao mesmo tempo em que a miséria cresce nos países do ocidente, decresce na China, aquele canto do mundo que os norte-americanos não se atrevem a ameaçar.

O que isso pode dizer em termos de modelo a ser perseguido ou rejeitado, por nós? Onde as correções parecem mais simples e até os problemas, mais desejáveis, levando em conta os medos que sentimos, os sonhos que temos e a realidade que pretendemos ver estendida ao futuro dos nossos?

Sem dúvida são distintos, o capitalismo norte-americano, orientado em favor de oligopólios e o social-capitalismo chines, orientado pelo estado socialista. Conhecemos bem o que esperar do Trump, mas o que sabemos do Xi Jinping? Muito pouco. Será que é porque os que nos dominam querem nos manter ignorantes a respeito do que a China pretende e pode oferecer?

 Precisamos entender o que isso significa, com mais informações e revisando aquilo que já sabemos.

Sabemos que aqui, no domínio do neoliberalismo a serviço do império capitalista, uma economia movida pelo consumo, para favorecer os empresários tratou de eliminar o poder de negociação dos trabalhadores organizados em sindicatos. Com isso, desgastou o poder de compra dos consumidores, fragilizando os mercados e as indústrias locais. Os investidores, em busca de ganhos migraram dos setores produtivos para a privatização de serviços públicos essenciais garantindo para si o controle dos estados, pelas “leis de mercado”. A democracia, de verdade, do povo pelo povo e para o povo, desapareceu com a financeirização de tudo. A depredação dos bens comuns, dos recursos naturais e a ampliação no número de miseráveis vieram em seguida, gerando tensões similares em diferentes países do sul global. Felizmente não aqui, ainda, mas em boa parte dos outros casos, os impasses decorrentes disso têm sido corrigidos pela expansão das guerras e doenças. Mecanismos que, vendo bem, passaram a ser utilizadas como instrumentos eficazes tanto para a remodelação de territórios como para a eliminação dos consumidores excedentes, aqueles sem poder de compra.

Não sabemos como é na China, mas aqui se percebe que a generalização da parte que nos toca, do modelo norte-americano, é de assustar. Traz evidências da inviabilidade de um modelo que não serve para nós, os da periferia. E como está ficando claro – e agora sabemos-, também não serve para os pobres que vivem no coração do capitalismo.

E isso pode explicar, ao menos em parte, nossa curiosidade e expectativas com relação ao que possa vir da China. Afinal, enquanto Trump mente sobre tudo que diz respeito a nossas relações comerciais, e coloca sobretaxas no café brasileiro, a China elimina as taxas, anula aquela chantagem e compra os produtos que ficariam sem mercado. São só negócios, ok. Mas quando envolvem relação de respeito e reciprocidade os negócios prosperam. E isso sugere que não será ruim, para nós, trocar aquela dependência de mercados norte-americanos, pelos asiáticos.

Mas toda a dependência, de um cliente poderoso, é perigosa. Verdade. E aí está mais um motivo para fugir da dependência de qualquer império, buscando alianças multilaterais. Nesta perspectiva, se além da China pudermos acessar a Índia, a Rússia, os países da África e da Oceania, no BRICS e outras alianças,  será melhor. O fato de que sabemos que indo por este caminho, o das decisões independentes e soberanas, descontentaremos os norte-americanos, justificaria a desistência de nossa autonomia, em favor deles?

As encenações de Trump ajudam a entender sua lógica. As reuniões com cadeiras baixinhas para os interlocutores, assim como as ameaças recheadas de sinais de desprezo a todos que ele manifesta entender como os “outros”, são elucidativas. Todos nós somos os “outros”, aqueles a quem se destinam todas as ameaças do império. Apontadas em direção a cada um, elas se destinam a todos, e assim avançarão, até o momento em que surjam elementos concretos, de resistência coletiva.

Os imperialistas não aceitam que seu modelo de vida é insustentável, porque ignoram que sempre o foi. Eles acreditam que podem manter aquela condição irreal intimidando, atacando, ameaçando, blefando.  Mas o futuro sempre vem. O acúmulo de injustiças provoca reações, que desenvolvem alianças e estimulam o surgimento de novas lideranças, inclusive onde há poucos anos isso seria impensável.

Por isso, hoje se percebe que todos os “outros”, aqueles que agora fazem coro culpando os EUA, que aplaudiram Lula na ONU, formam o bloco dos “nosotros”. E “nosotros”, como dizia Mujica, “nosotros”, como disse Petro, “nosotros” que acreditamos na ciência e na solidariedade, precisamos assumir que temos pouco mais de dez anos para salvar a humanidade revertendo a tendencia de destruição da biosfera, que vem sendo acelerada pelo capitalismo.

E pela China também, sem dúvida. Mas com o Xi Jinping parece que dá para negociar.

 Então, olhando a raiz do problema se percebe que para o Império negacionista norte americano, sob domínio do irracionalismo gritado por Trump, a luta contra o aquecimento global é altamente subversiva.

Isto implica – e aqui me valho do discurso de Petro- na necessidade de uma revolução popular global, uma revolução de povos unidos, de civilizações articuladas em defesa da humanidade. Uma revolução multilateral, contra todos os impérios. Algo que só será possível através de alianças dos povos e governos comprometidos com a defesa da vida, dispostos a uma união contra os que a ameaçam.

Para isso será necessário que as Nações Unidas se transformem numa instância de representação da humanidade unida, com o reconhecimento de que não existe uma raça superior, ou um povo escolhido de Deus.

Por isso, disse Petro, precisamos compreender que “Os Estados Unidos ensinam a tirania.” E que só passaremos a uma fase de reconstrução da economia global, justa e consequente, se reagirmos à realidade triste que Gaza nos revela.

A  superação da crise  climática, exige enfrentamento do império e seus satélites, com um exército poderoso, formado por países que não aceitem genocídios e se proponham a empreender caminhada onde somente a humanidade unida poderá deter sua própria degradação.

Petro falou muito mais. Seu discurso foi amplo, e como o de Lula, também não passou desapercebido a Trump. Agora, o presidente colombiano está sendo ameaçando de retaliação por suas ações “imprudentes e incendiárias” em ato pró palestina, onde -após aquele discurso na ONU-  pediu a todos os soldados do exército norte americana que desobedeçam às ordens de Trump, não atirem no povo  e se filiem aos melhores anseios da humanidade.

Onde isso pode nos levar, não sabemos.

O que sabemos é que a roda da história está girando e que, como escreveu Guimarães Rosa, “viver é muito perigoso”. Talvez por isso, ele também alertou que “o que a vida espera de nós é coragem”.

Lula, Gustavo Petro e Richard Wolf, sabem o que isso significa. Precisamos aprender com eles e escolher a velocidade dos nossos passos. Quanto ao rumo, as dúvidas são cada vez menores.

Vem aí uma Cruzada. Aliás, a palavra é título de música de Renato Braz, pelo Boca Livre.

Para encerrar, e porque as grandes lutas se dão também no miúdo, resta reafirmar:  É fundamental que em 2026 os senadores eleitos nos respeitem e mereçam nosso respeito. Fora golpistas! Sem anistia aos traidores, sem tolerância com os vendilhões da pátria.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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