Não é mesmo ótimo, ter algo de positivo para iniciar uma conversa séria sobre acontecimentos ameaçadores?
Pois esta semana nos trouxe isso.
A combinação de arte, ética e dignidade oferecida pela turma de O Agente Secreto, aos milhões que assistiram o Globo de Ouro, reacendeu um farol que precisamos valorizar e alimentar. Precisamos nos inteirar do que ali está posto, para orientar nossos comportamentos em relação aos desafios que estão caindo sobre todos nós.
Jovens do mundo todo (em especial aqueles da nossa terra) que por desinformação ainda fazem pouco caso das ameaças fascistas, têm naquele filme mais uma oportunidade de amadurecimento e reflexão conscientizadora.
A linha daquela história vai além do que já vimos em Ainda Estou Aqui. O Agente Secreto revela outras dimensões relacionadas aos horrores da ditadura e aos perigos de uma história fraudada, indigna, que tende a se retroalimentar e avançar, com a paparicação e as tentativas de perdoar e ocultar os criminosos golpistas.
Vale destacar que a extrema direita se beneficia da manutenção ativa, no Brasil, de uma espécie de democracia representativa “de mercado”, controlada pela corrupção e chuvas localizadas de dinheiro, onde hipócritas no papel de produtos desenhados por sistemas de mistificação se colocam como candidatos a cavaleiros do apocalipse, peões a serviço do próximo golpe. Avaliações de Leandro Becker, no Intercept desnudam isso e precisam ser examinadas com cuidado. Ali se lê que a extrema direita precisa tão somente conquistar o espaço atualmente ocupado por 16 senadores de centro-esquerda (e reeleger os seus), para controlar o Senado Federal. Agregando isso à ação das bancadas golpistas consolidadas na Câmara, eles poderão aprovar mudanças constitucionais e o impeachment do presidente da república, bem como de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Também poderão criminalizar, julgar e destituir ministros de estado, os comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, o procurador geral da república e o advogado-geral da União. Se trata de possibilidade de golpe de pelos caminhos democráticos, utilizando o dinheiro, a deformação de informações e a manipulação de sentimentos relacionados ao medo, em suas várias dimensões, para eleger cavalos de tróia dispostos a recolocar no poder, em todos os níveis da república, herdeiros da última ditadura e seus novos associados.
As implicações, que extrapolam de longe aquelas ameaças terríveis (reescrever a história, anular livros, matar uns trinta mil, invadir a Venezuela, metralhar os petistas, agronegociar territórios indígenas, perseguir adeptos de religiões de matriz africana e todo tipo de diversidade contrária ao modelo fascista…), apontam no rumo oposto de uma nação democrática. Sugerem o abandono da soberania, com generalização de juramentos à bandeira norte-americana e com o pais voltando a afundar no pântano estabelecido pelo governo Bolsonaro.
A projeção da extrema direita, destrinchada nas matérias de Leandro Becker e Thalys Alcantara (Esquerda pode sumir com a invasão da extrema direita no Senado em 2026 e Onde estão as 16 cadeiras que podem dar a maioria do Senado à extrema direita em 2026, do Intercept), não é irrealista, e com certeza só poderá ser contida com a conscientização e o envolvimento popular.
Daí a importância adicional do espaço conquistado pelos filmes Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto.
Do muito que se poderia comentar, sobre este último filme, para além do alerta que ele traz para as múltiplas dimensões de uma tragédia que voltará a se abater sobre todos nós, se não bloquearmos os planos da extrema-direita para controle do Senado – e portanto da República -, quero chamar atenção para o fato de que Kleber Mendonça e Wagner Moura, com os prêmios de melhor filme de língua “estrangeira” e melhor ator, botaram no chinelo (e esta é uma avaliação generalizada) a super produção de Paul Thomas Anderson, com Leonardo Di Caprio, Sean Pen e Benicio del Toro (Uma Batalha Após a Outra). Este, sem dúvida um grande filme e também sério concorrente ao OSCAR, foi produzido ao custo de US$ 300 milhões. Já o “nosso” agente secreto custou cerca de 5,5 milhões de dólares. A diferença indica que o poder do capital pode ser vencido pela inteligência, pelo compromisso e pelo conteúdo de verdade, se impondo sobre a ficção.
Apenas a sociedade organizada poderá impedir o golpe em financiamento e em armação, contra o Brasil, através do qual a extrema direita acredita conseguir controlar e vender nosso país, a partir do resultado das eleições de outubro.
O marketing, os gastos destinados a emplacar candidatos da onda golpista corresponde a qualquer investimento capitalista: eles pensam obter retornos ampliados colocando seus agentes em áreas chave da república. Isso permite entender, por exemplo, as doações do pastor Fabiano Zetel, cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para as campanhas eleitorais de Bolsonaro e Tarcisio. Ele “deu” três milhões de reais, para o primeiro, e dois milhões para o segundo. Doações. Vindas de um cara ligado ao Banco Master, que retido no aeroporto quando embarcava para Dubai. Só dele, foram retidos, estão congelados, 5,7 bilhões de reais.
Na mesma linha, as campanhas do Partido da Midia Golpista, sugerindo que o governo Lula financiou O Agente Secreto, são ilustrativas da disputa pela construção de mentiras desmobilizadoras. Na real, o filme pode ser considerado de baixo custo e seu patrocínio veio de recursos de investidores privados a que se somam R$7,5 milhões (US$1,5 milhão), do Fundo Setorial do Audiovisual , que faz parte da Agencia Nacional do Cinema – ANCINE. Nem um real, da lei Rouanet, tão frequentemente utilizada para financiar shows alienantes de boiadeiros bolsonaristas. Ocorre o oposto. Os dez maiores beneficiários da lei Rouanet são Zezé de Camargo e Luciano, Gustavo Lima, Leonardo, Amado Batista e Eduardo Costa entre outros, que se apresentam em festas populares promovidas por prefeitos de direita, com espaço para candidatos de direita se pavonearem no palco.
E é isso que devemos ter em foco. Seremos amassados por ilusões e mentiras neste ano que começa com as ameaças de Trump. Seus capachos com cidadania brasileira, aqueles que aprovam o saque a recursos da Venezuela e da Colômbia, que concordam com o bloqueio as ameaças de tomada do petróleo do Irã, como se comportarão em relação às riquezas nacionais? Aliás, apoiando o bloqueio ao Irã, eles aceitam que o Brasil não venda nem compre nada daquele país. Ignoram que ele é nosso oitavo maior cliente. Que nossas trocas comerciais deixam vantagem de 2,9 bilhões de dólares para o Brasil. A quem interessa esse bloqueio?
Os bolsonaristas, que fazem pouco caso de nossas necessidades e interesses, defenderão a biodiversidade da Amazônia, as terras raras ou o petróleo brasileiro da margem Equatorial e do pré-sal, da gula trumpista?
Como agirão aqueles que desde agora se revelam entreguistas, no caso de se verem fortalecidos pela ampliação da tropa golpista que – segundo pretendem- controlará o Senado?
Este é o quadro que se desenha esta semana, alimentado por atitudes complexas e até aqui pouco esclarecedoras do ministro Toffoli em relação a investigações relacionadas ao Banco Master, tema para avaliação durante a próxima semana.
Por hora, é momento de fazer novo esforço e ir à luta, corpo a corpo, nos espaços onde podemos trabalhar pelo Brasil de amanhã. Precisamos fazer isso para eleger senadores que entendam as mensagens daqueles filmes, que nos respeitem e que mereçam nosso respeito.
Cabe aos gaúchos evitarmos que pessoas como Van Hatten, Heinze, Sanderson, Yeda e Rigotto ocupem espaços destinados a Pimenta e Manuela. Cabe aos brasileiros de outros estados da federação, fazer o mesmo, em seus âmbitos de atuação.
Uma música…
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

