Para nossa surpresa, na semana em que uma égua caiu numa adutora da Copasa e afetou o abastecimento na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o governo de Minas não recuou um milímetro no projeto de privatizar a companhia que atende cerca de 75% dos municípios mineiros. Já sabemos: não existem coincidências nas decisões políticas.
Há um ciclo por trás da pressão e da pressa para a privatização: redução de investimentos, demissões em grande escala, menor capacidade pública de manter o serviço e prevenir acidentes. Privatizar a Copasa não resolve automaticamente esses problemas. Em Ouro Preto, após a concessão do saneamento, moradores denunciaram contas mais altas para pagar e episódios recorrentes de água barrenta.
Estamos vendo uma lógica que atravessa todo um projeto político. Romeu Zema deu diferentes explicações sobre trabalho infantil após a repercussão negativa de declarações dadas ao podcast Inteligência Ltda e em entrevistas posteriores. Eu gostaria que tudo isso fosse apenas uma confusão de entendimentos. Mas não é só disso que se trata.
Algumas conquistas são básicas. Crianças no Brasil têm direito a estudar, brincar e ser protegidas, inclusive no ambiente digital. Tenho orgulho de ter trabalhado para aprovar o Eca Digital justamente por isso. Garantir proteção integral à infância é uma tarefa de todos nós, todos os dias, porque o que muita gente chama de oportunidade pode significar abuso, trabalho infantil e retirada do direito de crianças pobres à educação.
O mesmo governador que defende privatizações amplas também criticou as políticas de valorização da aposentadoria. Hoje, quem recebe um salário mínimo tem reajuste com reposição inflacionária e ganho real previstos na legislação federal. Retirar isso é decidir que só uma parcela muito pequena da população brasileira pode reivindicar descanso e dignidade depois de uma vida inteira de trabalho.
Enquanto isso, na UEMG, estudantes e professores resistem à tentativa de transformar a eleição da reitoria em disputa condicionada ao patrimônio imobiliário da universidade.
E, no plano federal, a Anvisa cumpre seu papel técnico ao fiscalizar riscos sanitários e suspender produtos nocivos à saúde da população. Por outro lado, setores políticos transformam assuntos sérios sobre a saúde das pessoas em disputa ideológica e chacota.
Em todos esses episódios a pergunta é uma só: o que cada projeto político está procurando proteger? O patrimônio e o lucro indiscriminado das empresas? A proteção da vida? Criança na escola, aposentado com dignidade, trabalhador descansando, universidade pública de pé, água limpa na torneira e saúde tratada com seriedade ou a falta total de respeito e dignidade?
Patrimônio, para o projeto político que eu defendo e acredito, são as pessoas. É por isso que estamos há muitos anos defendendo um projeto de dignidade para Minas e para o Brasil. Porque escolhemos todos os dias proteger as pessoas e cuidar delas.
Macaé Evaristo é deputada estadual (PT-MG) e ex-Ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania.
—
Leia outros artigos de Macaé Evaristo em sua coluna no jornal Brasil de Fato
—
Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

