Macaé Evaristo

Macaé Evaristo é professora, assistente social e deputada estadual da 20ª Legislatura da ALMG. Atuou por 20 anos na Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte. Foi a primeira mulher negra a ocupar os cargos de secretária de Educação em BH (2005 a 2012) e em Minas (2015 a 2018). Como vereadora, atuou por uma cidade educadora e antirracista. Foi secretária da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI) do MEC (2013-2014), e, entre 2024 e 2026, ocupou o cargo de Ministra dos Direitos Humanos e Cidadania.

Com o ECA Digital, o Estado chegou onde antes existia aflição 

No audio source provided.
ECA DIGITAL
Presidente Lula sancionou o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente; lei foi proposta pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) e ganhou força após denúncias feitas pelo influenciador Felca | Crédito: AdobeStock

Estatuto Digital da Criança e do Adolescente não caiu do céu. Foi conquistado

Antes de ser deputada, antes de ser ministra, antes de ser gestora, sou professora. Foi no chão da sala de aula da educação básica que aprendi o que escrevo hoje.

Recebi famílias, caminhei ao lado de movimentos de defesa de crianças e adolescentes, trabalhei com conselhos tutelares muito antes da palavra “algoritmo” entrar no nosso vocabulário. As histórias chegavam com preocupação e, muitas vezes, constrangimento. Cabiam quase sempre na mesma pergunta: como faço para proteger meu filho, minha filha? 

Mensagens trocadas em celulares e computadores, publicidade e conteúdo impróprios chegavam como prova do risco. O cansaço estava sempre ali. A dúvida sobre o que fazer, também. A culpa das famílias ficava sempre nas entrelinhas e as mães, sobretudo, carregavam um peso que não era delas.

O que mudou de lá para cá não foi a aflição. Foi a escala. Hoje tudo acontece mais rápido, tudo está conectado, tudo se desdobra em segundos. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 mostra que o uso da internet é amplamente disseminado entre crianças e adolescentes de 9 a 17 anos. 

Crianças e adolescentes brasileiros vivem conectados a plataformas digitais desde muito cedo, expostos diariamente a publicidade, conteúdos algorítmicos, inteligência artificial e diferentes riscos online, enquanto famílias e escolas tentam, muitas vezes sozinhas, acompanhar a velocidade dessas transformações. Ainda segundo a TIC Kids Online Brasil 2025, 65% das crianças e adolescentes usuários de internet já utilizaram ferramentas de IA generativa, e 10% afirmaram recorrer a essas tecnologias para conversar sobre problemas pessoais ou emoções. 

Nossas crianças estão buscando colo onde não há ninguém. Estão sob o “cuidado” das plataformas e de seus algoritmos. E não há cuidado nenhum nisso.

Estatuto Digital da Criança e do Adolescente

O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (Lei nº 15.211, em vigor desde março)  não caiu do céu. Foi conquistado. Trabalhamos, no governo federal, com o Conanda, com os movimentos e organizações de defesa das infâncias, e com o Congresso, para que essa lei existisse. 

Defendemos a lei porque ela reconhece, pela primeira vez no Brasil, a responsabilidade das plataformas na proteção das crianças e adolescentes. A responsabilidade não é só da mãe que trabalha dobrado. Não é do pai, da avó, do responsável que cria sozinho. Não é da professora que sustenta três turnos nas salas de aula. As empresas lucram com cada minuto a mais de tela. É delas que temos que cobrar.

Para dar alguns exemplos, a lei estabelece limites a práticas de design digital que induzem crianças e adolescentes ao uso excessivo de telas.  Prevê que os serviços e produtos digitais adotem padrões elevados de proteção de dados, privacidade e segurança de crianças e adolescentes. E, ainda, tem previsão de sanções significativas para as plataformas que descumprirem suas obrigações. É um grande avanço e ainda temos grandes desafios por enfrentar.

O trabalho agora é fazer essa lei chegar na ponta. À escola. Ao Conselho Tutelar. Ao CRAS. Ao Ministério Público. À diretora que, neste momento, recebe uma mãe na porta da escola e precisa ter resposta, encaminhamento, rede. Cuidar de criança nunca foi tarefa de uma pessoa só. Não vai ser agora. Há um provérbio africano que repito sempre: é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.

O Brasil está aprendendo a ser essa aldeia. Demoramos, enquanto a gente discutia se devia ou não regular, alguém do outro lado do mundo programava o próximo conteúdo a aparecer na tela das nossas filhas e filhos. Agora chegamos.

A aldeia somos nós: a mãe que pergunta, a professora que percebe, a conselheira que acolhe, a assistente social que age, o sistema de garantias que responde. A proteção de crianças e adolescentes é prioridade absoluta. E quem chega para cuidar de criança e adolescente não pode recuar.

Macaé Evaristo é deputada estadual (PT-MG) e ex-Ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania.

Leia outros artigos de Macaé Evaristo em sua coluna no jornal Brasil de Fato

Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

|

Newsletter