mariam pessah

ARTivista feminiSta, escritora, poeta e tradutora. Autora dA saliva que umedece, poemariam – um tratado sobre línguas, 2025; Meu último poema 2023; Em breve tudo se desacomodará, 2022; entre outros. Organizadora do Sarau das minas/Porto Alegre, desde 2017, e coordenadora da Oficina de escrita e escuta feminiSta. Curadora da FestiPoa literária.

25 de Novembro e o enigma da heterossexualidade compulsória

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ilustração para o 25 de novembro
A data de 25 de novembro, Dia internacional de combate à violência contra as mulheridades, foi criada durante o 1º EFLAC | Crédito: @konspira.z

Vamos aproveitar a data simbólica do 25 de novembro para pensar novas relações?

A data de 25 de novembro, Dia internacional de combate à violência contra as mulheridades, foi criada durante o 1º EFLAC – Encontro Feminista Latino-americano e Caribenho, na Colômbia, em 1981. Com o objetivo de lembrar o assassinato das Hermanas Mirabal: Minerva, Patria e María Teresa, que foram brutalmente torturadas e assassinadas em 1960, por lutar contra a ditadura de Rafael Trujillo na República Dominicana.

Aproveito este dia para trazer um grande interrogante que tenho há tempos dando volta na cabeça. Será que alguém consegue me ajudar a pensar? Como pode ser que o patriarcado esteja tão bem constituído e construído e costurado (mas não fechado) para que a maioria das pessoas não se pergunte como pode ser que uma mulher ou uma menina sejam mortas a cada 10 minutos por seu parceiro íntimo ou outro membro da família, e a heterossexualidade continue sendo a norma?!

Se uma mulher ou menina é assassinada a cada 10 minutos, significa que morrem seis por hora, a cada dia morrem 144, a cada mês, 4.320, a cada ano: 51.840!!!!!!!!

NÃO SÃO NÚMEROS, SÃO VIDAS.

Cadê as brechas?! Cadê as rebeldias?!

Se fosse uma doença seria uma pandemia.

Muitas mulheres são mortas pelos seus parceiros íntimos. Existe já o termo VPI – Violência por parceiro íntimo, dado que a maioria dos feminicídios são executados por amantes, ex-amantes, namorados, ex-namorados, maridos, ex-maridos.

Como pode ser?

Quero entender o mistério! Como é possível que ainda a maioria de mulheridades continue dentro do sistema, do regime heterossexual, dado que vivemos neste regime de domínio e extermínio que é o patriarcado. Me nego a chamar de guerra.

Guerra é o que se passa entre Rússia e Ucrânia, forças similares. Tampouco podemos chamar com este nome o extermínio que executa o estado sionista contra o povo palestino.

Como é possível que algumas mulheres possam relaxar sabendo que podem estar dormindo com seus algozes?

(Imagino a cara de algumas amigas me olhando/lendo. Fazer o que, já perdi muitas em nome do sincericídio.)

— Somos anormais! Somos anormais!

Seu grito me assustou. O que ela queria dizer?

— Somos anormais! — Insistiu. — Somos homossexuais! — me revelou.

Em minha ignorância sobre as classificações, eu não tinha a menor ideia do que isso significava. Só me interessava o amor.

A escritora lésbica, Cristina Peri Rossi, narra no seu romance A insubmissa, (tradução de Anita Rivera Guerra) este fato que aconteceu quando sua amiga — não namorada — da adolescência, lhe revela quem elas são perante a sociedade.

“Somos anormais, somos monstros”, vai insistir mais tarde.

Como se constrói a heterossexualidade compulsória? (Nome dado pela poeta e teórica lésbica feminista estadunidense Adrien Rich, livro traduzido pela poeta Angélica Freitas, editora Bolha) “Anos depois, Alina, que se casou em um esforço inútil para deixar de amar Verónica, se suicidou”. Alina, a amiga confessora de Cristina, quem tentara ser normal — ou normativa — acabou sendo empurrada à morte pelo sistema.

Quem é o mostro?!

Quem, como dizia Cristina de adolescente, ela só pensava no amor, mostrando que sim é natural amar a outra mulher, ou, a sociedade hétero-patriarcal, que vai empurrar ao suicídio a tantas pessoas? Até hoje. E sobretudo hoje com os avanços dos fascismos.

“O patriarcado é uma máquina feminicida”, afirma Marcia Tiburi no seu novo livro Ninfa Morta. E nesse livraço de 300 páginas vai defender a ideia de que existe um sexo-gênero matador e um sexo-gênero matável.

Então, eu cada dia tenho mais perguntas.

Em Ninfa morta, Marcia diz: “O medo e a insegurança em relação aos parceiros íntimos, aqueles homens que habitam a casa, é uma constante”.

Então, bora pensar juntas/juntes como combater tamanha violência! Ódio misógino! Não por acaso os números aumentam em épocas de governos fascistas como foi com Bolsonaro, e está sendo com Milei e Trump. Vermes que (paradoxo, ou mais violência?) não gostam da lei do aborto legal.

É óbvio que os homens não protegem, né?

Precisamos, urgente, acabar com esse conto de fadas! É muito sério o massacre do qual quase nem se fala e que acontece no mundo todo e frente aos nossos olhos.

O Estado tampouco protege.

Nos protegemos entre nós, as/es amigas/amigues, com as nossas redes. Estudando, entendendo e praticando comunidade. Desafiando as leis e compreendendo como desmontar, desfazer, desacomodar o CIStema hétero-patriarcal-capitalista-racista.

Vamos aproveitar a data simbólica do 25 de novembro para pensar novas relações? e

Viva a autonomia feminiSta!

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato. 

Editado por: Vivian Virissimo

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