É possível que quando a gauchada estiver lendo este artigo, já tenha sido decidido o embate sobre a(s) candidatura(s) que representarão o campo progressista no Rio Grande do Sul. Apesar do risco de escrever sobre um tema superado, me sinto na obrigação de fazê-lo como contribuição ao processo de reflexão e aprendizado histórico.
Como é do meu perfil, início me posicionando, no caso, em defesa da candidatura do companheiro Edegar Pretto para a disputa político-ideológica no pleito deste ano. Pela minha análise, ele representa a melhor opção para o embate regional e nacional contra o projeto neoliberal de extrema direita representados pelas candidaturas Zucco e Bolsonaro filho. E, antes que venham me rotular de estreito ou hegemonista, quero lembrar que em 1985 eu e meus pares, defendemos contra a maioria do partido, o apoio à candidatura de Alceu Collares nas eleições municipais em Porto Alegre.
Em 1990, da mesma forma, o voto em Alceu Collares no segundo turno estadual e, em 2020, junto com várias lideranças dos movimentos sociais que compõe os processos do Fórum Social Mundial (FSM), articulei um movimento suprapartidário pela aliança entre PT, PcdoB, Psol, PDT, Rede e PV já no primeiro turno das eleições em Porto Alegre, tendo Juliana Brizola (PDT), Fernanda Melchionna (Psol) e Sofia Cavedon (PT) como nomes cotados para liderar aquela frente.
Pontuadas estas duas questões, gostaria de dialogar sobre o que, no meu entender, está em jogo nesta escolha estratégica para as eleições de 2026. O que alimenta o debate sobre as candidaturas do campo progressista no Rio Grande do Sul não é a capacidade de amplitude das alianças de cada uma delas. Fosse isso, Edegar reúne a maior parte dos partidos e lideranças do estado. E, em outros estados, o PT terá a vaga de governador e as duas vagas do Senado, sobrando aos demais partidos que apoiam Lula, indicarem a vice, como é o caso aqui na Bahia.
Tão pouco, me parece, a discussão está colocada em relação a construção de um palanque amplo para Lula no estado. Esse palanque está montado, inclusive com o PDT, ou alguém enxerga Carlos Lupi e Juliana Brizola no palanque do Caiado ou do Flávio Bolsonaro? Inimaginável. Aliás, é preciso reconhecer que o PDT perdeu força nesta janela eleitoral, com a saída de oito deputados federais e uma dezena de deputados estaduais para outros partidos. No RS, o PDT possui apenas dois deputados federais, um número modesto frente aos nove parlamentares que compõe os demais partidos do campo progressista que estão ao lado de Edegar Pretto. Dito isso, essa conta não é eleitoral.
A disputa reside em outro campo. É sobre o caráter do projeto que será defendido. Há um campo político liderado pela RBS que pretende dar o tom dos limites do embate político eleitoral, em especial, tentando moldar o projeto democrático e popular, nos mesmos moldes que tenta fazer, em âmbito nacional, a Rede Globo.
Esse fenômeno já vivemos em 2002 quando da sucessão do governo Olívio Dutra. Naqueles tempos, a RBS não criticava todo o PT, mas aqueles setores denominados por ela de radicais, a seu ver, sinônimo de estreitos ou pouco democráticos. Parcela do partido caiu nesta marola achando que seria mais fácil ampliar votos em relação a classe média conservadora, não enfrentando diretamente o projeto neoliberal defendido pela empresa jornalística. Ledo engano. A esquerda gaúcha, com raízes profundas numa cultura participativa nascida em Porto Alegre que estava se espraiando pelo Rio Grande do Sul através do Fórum Social Mundial, sofreu um profundo revés. Do qual ainda não nos recuperamos completamente.
Em 2026, novamente a história da luta de classes nos coloca frente a uma escolha estratégica similar. O cenário é crítico. A extrema direita se apresenta como alternativa para o mundo a partir de uma ideia de liberdade plena para quem tem dinheiro, é branco e hetero. E defende o extermínio das mulheres, das periferias, das populações negras e indígenas, dos imigrantes, das pessoas LGBTQIAPN+, todos considerados se inimigos e inimigas.
Essa escolha narrativa não nos permite vacilar na pauta da disputa eleitoral. Não me parece que a defesa da boa gestão pública seja a linguagem mais assertiva. É preciso escutar os simbolismos que realmente estão impactando as pessoas. E esses simbolismos dizem mais sobre visão de mundo e de sociedade do que de gestão de serviços. As pessoas querem acesso a bens de qualidade, renda, querem uma vida digna e satisfatória e querem tudo isso agora. E, como sabemos, há recursos, tecnologia, logística e condições objetivas para atender as necessidades de toda humanidade. O problema é de projeto político.
Se há condições, por que não temos esses direitos? A resposta é simples: eles não querem um mundo para todos os seres humanos e nós queremos. É o projeto da exclusão contra o projeto da inclusão. As eleições será um nós contra eles em escala global. Neste sentido, é preciso vincular o projeto bolsonarista às aventuras bélicas e econômicas do governo Trump e seus impactos para a vida cotidiana das pessoas. E vincular nosso projeto a sociedade de bem-estar social e de inclusão que está ocorrendo na China e em outras partes do mundo. Essa relação pode aproximar a classe média conservadora não bolsonarista das propostas e programa do campo democrático e isolá-los.
Encerro destacando a complexidade envolvida na definição da candidatura no Rio Grande do Sul. Minha avaliação é que, mantida as duas candidaturas, uma delas irá ao segundo turno contra Zucco. Não vejo a candidatura de Gabriel Souza decolando, aliás, o crescimento do candidato bolsonarista é justamente porque a base do governo Leite se bandeou em seu apoio. O problema da disputa Edegar e Juliana na urna é que, eleitoralmente, quem passar para o segundo turno, vai partir de um percentual baixo, entorno de 25%, contra a projeção de mais de 40% do candidato da direita. Não tem como buscar essa diferença. A unidade já no primeiro turno pode representar uma base inicial entorno de 32% a 35% o que, dependendo das campanhas e do cenário nacional no segundo turno, pode viabilizar uma vitória nas urnas.
Importante ressaltar que são dois nomes com estaturas similares. No entanto, Juliana tem contra si a postura política recente do PDT que compôs a base do governo Leite que tanto mal fez ao estado, sem nunca ter feito críticas aos seus posicionamentos, nem votado contra suas principais propostas. Neste contexto, difícil ela apresentar-se como uma candidatura antítese de um governo neoliberal fracassado. Além disto, o PDT não tem estrutura partidária em todo estado e, onde tem, há setores alinhados com a direita que não irão apoiar uma candidatura de esquerda, seja ela qual for.
Por outro lado, o embate nacional contra a candidatura Edegar Pretto acabou por fortalecê-la. Nenhum dos partidos que o apoiam vacilaram em sua defesa, pelo contrário, o Psol declarou publicamente que não participa de uma frente liderada pelo PDT. O “desencontro” da agenda com Lula na semana passada, a meu ver, não foi um sinal de desprestigio de Edegar, pelo contrário, Lula não aceitou ser usado como pivô do partido o que poderia resultar num racha no bloco de aliança gaúcho. Como líder nacional sabe que é mais fácil dobrar o PDT do que correr o risco de desmobilizar a esquerda em um estado tão emblemático como o RS.
Na verdade, como dito inicialmente, a pressão contra a candidatura Edegar não é o PDT. E, a ideia de que a RBS está no epicentro do movimento para tirá-lo do páreo, fortalece o simbólico de que ele é o melhor nome para o embate direto com Zucco e Bolsonaro filho e que, com estratégia correta, mobilização e organização, derrotá-los num segundo turno, ao lado de Lula, Manuela, Pimenta e Juliana. Essa é a escolha estratégica que precisamos acertar.
* Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

