Mauri Cruz

Advogado socioambiental (PUC/RS), especialista em direitos humanos (UFRGS/ESMPU), professor de pós-graduação nas disciplinas de planejamento urbano, direito à cidade, mobilidade urbana, contratos, licitações, parcerias e gestão de organizações da sociedade civil. Diretor Executivo do Instituto de Direitos Humanos – IDhES, consultor, sócio e diretor da Usideias – Usina, Ideias e Projetos Ltda pela qual atua nos temas de pesquisa, planejamento, gestão, comunicação e avaliação de programas e projetos há mais de 20 anos.

Eleições 2026: da urgência da necessidade, a potência da mudança

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As entrevistas para a pesquisa, contrata pelo O Povo, foram feitas de 16 a 18 de março de 2026. Foram realizadas 816 entrevistas em todo o Ceará, distribuídas em 35 municípios.
Nove governadores saíram o cargo e pretendem disputar uma vaga no Senado | Crédito: TRE-GO

No atual estágio do processo democrático brasileiro, vivemos tempos de retrocessos

A afirmativa feita nesta semana por Juliana Brizola, candidata do campo progressista ao governo do estado do Rio Grande do Sul, de que a necessidade é maior que nossas diferenças, demonstra a clara consciência de que, no atual estágio do processo democrático brasileiro, vivemos tempos de retrocessos. Quase que inevitavelmente, o termo necessidade me remeteu a uma área que estudo: a hierarquia das necessidades de Abraham Maslow — a pirâmide das necessidades —, base principal de reflexão. Maslow argumenta, assim como fizeram Hobbes, Freud e Lacan, que o ser humano é motivado pela busca de satisfação das suas necessidades e que essa busca possui uma hierarquia. Primeiro, é necessário atender as necessidades básicas, fisiológicas, como respirar, alimentar-se, vestir-se, proteger-se, sentir-se seguro. Num segundo momento, vêm as necessidades de relacionamento interpessoais, de constituir um círculo amoroso familiar e de amigos e, mais acima, as necessidades de pertencimento, de autoestima, de realização pessoal e coletiva.

Juliana, ao declarar que, neste momento histórico, a necessidade está acima de nossas divergências, parte da premissa de que, antes de discutirmos que tipo de democracia defendemos, democratas, progressistas, socialistas e comunistas precisam se unir para garantir que haja democracia. Ela nos lembra que vivemos tempos complexos, onde a ideia de uma sociedade de iguais está em risco e que o desejo de cada um dos nossos campos políticos não pode se sobrepor à necessidade prioritária de sobrevivência.

É importante termos consciência de que esta é a régua que orienta nossas escolhas e decisões desde que o ciclo virtuoso iniciado em 2003 foi golpeado. Foi o sentimento de necessidade que fez com que nos uníssemos diante das tragédias do (des)governo Bolsonaro e que, no estado gaúcho, boa parte do campo progressista fosse às urnas em 2018 e em 2022 para votar contra os bolsonaristas raiz, Ivo Sartori e Onyx Lorenzoni. É esse sentimento que ainda hoje, em âmbito nacional, coloca lado a lado setores tão díspares como PT, PSD, MDB e até o PP.

No entanto, reconhecer este limite de necessidade não pode significar a abdicação do desejo de construir uma sociedade pós-capitalista. Essa, no meu entender, deve ser a questão-chave. Agir de forma efetiva e consciente, sabendo que as escolhas de alianças eleitorais são táticas e, como dito, orientadas pela sobrevivência. No entanto, elas não podem apagar o desejo real de transformação social. Desejo que deve ser orientado pela convicção de que o capitalismo é incapaz de produzir uma sociedade de iguais — base material para uma verdadeira democracia.

A desigualdade é o principal entrave para a construção e consolidação da democracia como modelo ético nas sociedades atuais. Isso porque, após décadas e décadas de eleições, a maioria da população tem plena consciência de que está muito distante de ver atendidas suas principais necessidades. Embora a narrativa de avanço social e de redução da pobreza seja real, o estágio decadente do capitalismo exclui cada vez mais seres humanos do acesso aos direitos essenciais, como moradia digna, trabalho decente, mobilidade sustentável, direito à segurança e à vida plena, beneficiando um percentual ínfimo de privilegiados. Para os que estão embaixo, é uma inclusão fragilizada; para os de cima, cada vez mais riqueza e concentração.

Neste contexto, é uma contradição que um sistema político e econômico excludente tenha construído uma legitimidade social tão abrangente junto a parcelas significativas da sociedade brasileira que são vítimas de sua dinâmica e funcionamento. Mais que isso, que essa base social tenha sido capturada por uma narrativa antidemocrática, individualista, excludente, misógina e sexista.

Essa captura, em parte, decorre da capacidade que a extrema direita tem de agir a partir de sua enorme capacidade econômica e da manipulação dos algoritmos. Mas precisamos reconhecer que outra parcela de responsabilidade é resultado do rebaixamento do horizonte utópico do campo democrático e popular, que desistiu de criticar o capitalismo e de se colocar como uma alternativa real para sua superação. Nos tempos atuais, mesmo a China comunista sendo reconhecida como exemplo de sucesso global a partir de uma lógica de economia de estado, as esquerdas mundiais não conseguem retomar a ofensiva na disputa ideológica, denunciar os limites do capitalismo e apresentar um outro modelo de sociedade.

Neste sentido, o projeto político aprovado pelo 8º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores, realizado neste último final de semana de abril, ao defender reformas estruturais e propor saídas para a crise do capitalismo, é um marco na retomada do debate por mudanças. Temas como a reforma agrária — essencial para a democratização da terra e a soberania alimentar —, a reforma política e eleitoral para acabar com as capitanias hereditárias eleitorais e o controle do grande capital sobre a democracia, o aprofundamento da reforma tributária visando taxar a riqueza e as grandes fortunas, a reforma no sistema público de comunicações através da democratização e do controle social sobre a mídia corporativa e as big techs, e uma reforma administrativa que vise à recuperação e ao fortalecimento do Estado brasileiro, recolocam o PT na linha de frente do debate da transformação social.

É uma retomada a ser comemorada. Isso porque é o trabalho, e não o capital, quem move o mundo. Karl Marx nos lembra que a satisfação das necessidades é a base para toda atividade humana e o trabalho é o único meio fundamental para a reprodução da vida e a superação do que ele chama de “reino da necessidade” em direção ao “reino da liberdade”. Para Marx, só teremos uma sociedade verdadeiramente livre quando todos tivermos atendido plenamente nossas necessidades básicas e estivermos num elevado nível de igualdade. E isso somente é possível numa sociedade pós-capitalista.

Encerro desejando que o processo eleitoral 2026 possa ser um momento de apresentação para o debate junto à sociedade brasileira, não apenas de propostas e compromissos políticos, mas de valores e princípios éticos. Isso porque de nada adianta fazer política para ganhar eleições se, ao governar, reproduzimos o sistema que explora a classe trabalhadora, sugando seu tempo, sua vida e seus sonhos sem dar nada em troca. Um outro mundo é possível, urgente e necessário. Aqui e agora. Que sejamos capazes de defendê-lo, para poder criar as bases sociais necessárias para poder construí-lo.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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