A amnésia dissociativa é um fenômeno estudado pela psiquiatria, no qual o indivíduo busca esquecer eventos dolorosos ou traumáticos que geraram situações de estresse extremo ou trauma. Esse fenômeno é tido como uma resposta psicológica, em que a mente tenta proteger o indivíduo ao suprimir lembranças de experiências que são muito dolorosas ou angustiantes ao serem recordadas.
Não existe na neurociência a descrição desse fenômeno de forma coletiva, como um silenciamento de traumas, amnésia cultural ou dissociação social. No entanto, estudiosos como o sociólogo francês Maurice Halbwachs (1877-1945)1 sustentam que a memória é socialmente construída e, portanto, as lembranças podem sofrer distorções ou até mesmo alterações. Ele descreve que hipóteses de amnésia coletiva ocorrem quando um grupo social suprime ou não transmite certos eventos traumáticos como forma de esquecê-los. Halbwachs referia-se, especificamente, ao esquecimento do povo francês em relação à colaboração da França com o regime nazista por décadas.
Nesse mesmo sentido, o psiquiatra Vamik Volkan descreve o fenômeno como uma “memória traumática escolhida”. O termo não significa que o grupo escolheu conscientemente sofrer. Ele refere-se a uma escolha inconsciente, visando fixar uma identidade coletiva, tangenciando certos traumas ou experiências dolorosas para evitar desintegração social. A amnésia seria uma defesa coletiva contra a dor moral. É o mesmo sentido dado por Pierre Nora2 (1931–2025), que estudou os “lugares de memória” e demonstrou como o esquecimento e a lembrança, por meio da criação de monumentos, definição de datas e de rituais comemorativos são essenciais para construir a memória e a coesão social. A reverência à memória é um ato de resistência.
A pandemia da covid-19 foi um evento extremo, de dimensões planetárias, que alterou a rotina e o funcionamento da lógica de vida de toda a humanidade por anos. Impôs isolamento compulsório, suspensão de atividades, caos sanitário, discursos negacionistas e antivacinas, ceifou mais de 6 milhões de vidas em âmbito global e mais de 700 mil no Brasil. A pandemia de 2020, além de ser um evento de dimensões planetárias, foi o primeiro a ser televisionado e acompanhado pelas redes sociais, em que imagens dos dramas pessoais e coletivos eram compartilhadas ao vivo, produzindo cada vez mais medo, angústia e ansiedade.
O SUS salvou milhões de vidas
Apesar do negacionismo, a ciência finalizou estudos e testes de vacinas contra várias cepas da Sars-CoV-2 e, com investimento de bilhões de reais, o Sistema Único de Saúde (SUS) imunizou mais de 90% da população em tempo recorde. Na contramão do discurso governista, foram articuladas e aprovadas medidas sanitárias e econômicas emergenciais e, em poucos meses, a pandemia entrou em sua fase endêmica, com número de casos previsíveis e estáveis ao longo dos últimos anos.

Passado o ápice da crise, a vida foi retomando seu ritmo normal, os comportamentos foram sendo reestabelecidos e, como mecanismo de defesa coletivo, o tema da pandemia saiu das rodas de conversas cotidianas, das telas dos jornais digitais, dos noticiários e das redes sociais. Esse “esquecimento coletivo” por parte dos indivíduos é compreensível, como uma defesa psicológica da experiência traumática da perda de entes queridos, da insegurança financeira, da perda patrimonial, do isolamento compulsório e da sobrecarga emocional por longos meses. Mas, como afirmado acima por Pierre Nora, a lembrança é uma escolha. E, como escolha, precisa ser refletida à luz dos seus efeitos para o futuro.
O direito à memória e à verdade tem como fundamento o princípio da dignidade da pessoa humana e surge como resposta às graves violações de direitos humanos perpetuadas por ditaduras, genocídios e violência extrema. Busca contrapor o silêncio e o esquecimento impostos, garantindo o conhecimento do passado, a dignidade das vítimas e de seus descendentes.
Para Walter Benjamin3, a memória não é passiva, mas uma ferramenta política de resistência e busca o reconhecimento das injustiças no passado, para que não sejam esquecidas nem repetidas. E é um direito transicional, ao enfrentar as violações passadas por meio de medidas de reparações e de reformas políticas e institucionais para que não se repitam.
Nesse contexto, ganha enorme relevância a sanção pelo presidente Lula ao PL 2120, que institui o 12 de março de cada ano como Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19. Articulada pela Associação Vida e Justiça em Apoio e Defesa dos Direitos das Vítimas da Covid-19 e encabeçada pelo deputado federal Pedro Uczai, do PT-SC, a iniciativa foi aprovada pelo Congresso Nacional em abril, após longo processo de mobilização e pressão da sociedade civil organizada.
É uma das reflexões mais importantes no Brasil de hoje. A pandemia de covid-19 deixou marcas profundas: mais de 700 mil vidas perdidas, milhões de pessoas com sequelas permanentes, milhões de órfãos, viúvas e viúvos, famílias inteiras despedaçadas, profissionais de saúde exaustos e um sistema de saúde levado ao colapso.
Negacionismo, deboche e negligência
Neste caos, a sociedade brasileira ainda enfrentou discursos negacionistas, de deboche com as vítimas, de desprezo com a vida e com a dor das famílias, liderados pelo ex-presidente Bolsonaro, seus ministros e governadores alinhados. Tudo transmitido ao vivo e a cores. Não há dúvidas de que a demora na tomada de decisão e a desorientação promovida por um discurso anticiência que punha em dúvida as orientações e medidas preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) impactaram diretamente o número de vítimas fatais e de vítimas não fatais com sequelas permanentes. Em meio à dor e à desinformação, o país aprendeu da pior forma possível o preço da negligência, do negacionismo e da falta de coordenação entre os governos. Por isso, a instituição do Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19 não é apenas um gesto simbólico – é uma necessidade ética, política e social.
Luto coletivo e reparação
A partir de agora, a data oferece um espaço legítimo para o luto coletivo. Durante o auge da crise, muitos brasileiros não tiveram a chance de se despedir de seus entes queridos. Enterros aconteciam às pressas, sem velórios, sem abraços. O isolamento físico imposto pela doença gerou um isolamento emocional que ainda hoje precisa ser processado. Um dia nacional dedicado à memória das vítimas é reconhecer que essa dor não deve ser varrida para debaixo do tapete da história. É permitir que famílias e comunidades se reúnam para chorar, lembrar e celebrar a vida que se foi.
Também serve como um alerta permanente para a sociedade brasileira. A pandemia escancarou fragilidades estruturais do SUS, como o subfinanciamento crônico, a falta de leitos de UTI em regiões remotas e a desigualdade no acesso à vacinação das camadas mais excluídas da sociedade – mulheres de periferia, negras e negros, populações ribeirinhas, comunidade LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência, população em situação de rua. Lembrar dessas falhas é cobrar que elas não se repitam. É defender o investimento em ciência, em vigilância epidemiológica, em estoques estratégicos de insumos e em uma comunicação pública transparente baseada em evidências. A memória não é saudosismo — é um instrumento de prevenção.
É uma data para homenagear e reverenciar as servidoras e servidores públicos que estiveram na linha de frente. Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, agentes comunitários de saúde, profissionais de limpeza hospitalar, coveiros, motoristas de ambulância e tantos outros arriscaram suas vidas diariamente, muitas vezes sem equipamentos de proteção adequados e sem reconhecimento salarial. Muitos adoeceram e morreram cumprindo fielmente sua missão.
O 12 de março será a data de combate ao “esquecimento seletivo”. Quando a crise imediata passou, houve uma forte pressão social e midiática para “virar a página” e esquecer os problemas e seus responsáveis. Mas ignorar os dramas vividos na pandemia é desrespeitar o direito à memória e à verdade. É naturalizar a tragédia. Abonar práticas desumanas e antiéticas praticadas por autoridades constituídas que tinham o dever de proteger e preservar a vida. O Dia Nacional faz sentido justamente para impedir que o sofrimento se torne estatística. Força um olhar com honestidade para o passado, como base para a construção de um futuro em que a vida seja prioridade absoluta.
Lembrar é um ato de resistência
Esperamos que, a partir de agora, a sociedade brasileira pare para olhar para si mesma. Reconheça a importância das políticas que promovem e defendem a vida e denuncie as políticas da morte, da exclusão e do descaso. Que escolas promovam rodas de conversa, hospitais realizem minutos de silêncio, estados e municípios inaugurem memoriais e as redes sociais sejam tomadas por histórias, reconhecimentos e propostas de mudanças. É preciso dizer, em alto e bom som: não vamos esquecer; não vamos perdoar e não vamos deixar que se repita. O 12 de março, Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19, é um grito em defesa da vida e da justiça.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
1 HALBWACHS, Maurice, A memória Coletiva, Clube de Editores, Joinville/SC, 2024.
2 NORA, Pierre, Entre memória e história, a problemática dos lugares, Revista PUC-SP, 1993.
3 BENJAMIN, Walter, O conceito da história, Alameda Editorial, 2020, São Paulo/SP.

