Hoje em dia tem quem defende que homem não pode falar de coisas femininas, branco não pode falar da luta dos negros… Bom, velho pode falar de problemas e ranhetices de velhos, não? Então eu falo.
Vou contar dois causos.
Um deles é sobre o Mauro, professor de inglês da rede estadual de ensino, em São Paulo. Há uns cinquenta anos, professor tinha um salário razoável e às vésperas de se aposentar o Mauro tinha dinheiro pra comprar um fusca zero quilômetro. Comprou e começou a tomar aulas numa autoescola.
Numa tarde de domingo, recebeu a visita de um velho amigo com uns setenta e poucos anos, meio maluco.
Quando o amigo soube que o Mauro ia tirar carteira de motorista, começou a falar das qualidades necessárias para ser um bom motorista.
— Reflexo. Tem que ser bom de reflexo… — era o que mais insistia.
Propôs um teste para ver como andavam os reflexos do Mauro, e ele topou. O teste era coisa de maluco mesmo.
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Ele deveria dirigir o fusca em direção ao velho amigo, que ficaria no meio da rua, de modo que, se o fusca não parasse, passaria por cima dele. Quando o amigo levantasse a mão e gritasse “já”, o Mauro meteria o pé no freio e pararia pertinho dele.
Fizeram isso…
E alguns minutos depois, estava a família toda nervosa, chamando um vizinho que sabia dirigir para levar ao Hospital das Clínicas o amigo do Mauro, com as duas pernas fraturadas.
O outro causo tem alguma semelhança com esse. É do seu Jó, um velho do interior de Minas que veio a São Paulo a passeio, com a família, inclusive netos.
Um dia, o seu Jó saiu pra passear com um neto, ainda menino, e mal saíram da casa em que estavam hospedados, o menino andava despreocupadamente para atravessar a rua e foi puxado pelo avô, que falou bravo:
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— Cê pensa que tá lá na nossa terra? Aqui em São Paulo não é assim não! Pra atravessar a rua a gente tem que olhar bem pros dois lados, se não é atropelado.
Diante do neto assustado, falou já em tom mais educativo:
— Aqui tem muito carro, é perigoso. A gente tem que olhar pra direita, olhar pra esquerda, e aí sim pode atravessar.
Olhou, olhou… Deu um passo na rua e… dali a pouco deu entrada no Hospital das Clínicas um idoso atropelado, com fratura exposta na perna direita.
*Mouzar Benedito é escritor, geógrafo e contador de causos. Leia outros textos.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

