Mouzar Benedito

Escritor, geógrafo e contador de causos.

Paixões: os gostos variam

Passou um ano inteiro naquele amor contemplativo, sem a moça nem saber dessa paixão

Ele não tinha coragem, achava que era areia demais pro seu caminhãozinho

Acho interessante como algumas pessoas, mesmo muito namoradeiras, arrumam sempre namorada ou namorado com o mesmo padrão.

Um colega de trabalho de quase dois metros de altura só namorava baixinhas magrinhas; um outro só namorava descendentes de japoneses, e até parecia fazer parte da colônia japonesa. Comia só comida japonesa e só ia a cinemas que passavam de filmes de samurais.

Uma amiga loira só namorava negros. Uma moça que frequentava uma vizinha, não tinha um padrão físico para os namorados, mas tinha outro: só se interessava por homens casados ou noivos.

Algumas pessoas achavam que isso era uma coisa não muito correta. Eu fiquei foi interessado. Uma época fingi que estava noivo, ela começou a se interessar por mim também, mas acabou descobrindo que era mentira e me deu o fora.

Quando entrei na faculdade, um dos colegas que se tornaram meus amigos era o Milton. Um cara bem baixinho, com menos de um metro e meio de altura, mas não podia ver uma mulher alta que ficava babando. Se fosse alta e gorda, se apaixonava de vez.

Uma das nossas colegas era russa. Alta e forte, logo se tornou uma das paixões do Milton. Eu falava pra ele se declarar a ela, mas ele não tinha coragem, achava que era areia demais pro seu caminhãozinho, conforme dizia.

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E ficava só contemplando aquela mulher que achava uma maravilha.

Passou um ano inteiro naquele amor contemplativo, sem a moça nem saber dessa paixão. Até que na chegada dos calouros do ano seguinte ele viu uma caloura que o fez esquecer da colega russa.

Era uma nissei, quer dizer, filha de japoneses, também alta e forte. Era raro ver japoneses ou descendentes daquele tamanho, mas ela era.

Eu via o Milton com aquela cara de menino olhando um doce na vitrina e ficava até com pena dele. A moça era mesmo bonita e simpática, mas pra ele era mais que isso: era a maravilha das maravilhas.

Um dia surgiu um assunto que não me lembro, que interessava a todos nós, e nos reunimos na biblioteca da faculdade para ler sobre ele e discutir. Além de mim e do Milton, tinha mais quatro pessoas, entre elas a sua nova musa, a japonesa alta e forte.

O Milton ficou ao meu lado, olhando apaixonadamente para ela. Até que se levantou e foi falar baixinho no meu ouvido:

– Ah, se eu fosse do seu tamanho!

*Mouzar Benedito é escritor, geógrafo e contador de causos. Leia outros textos

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Daniel Lamir

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