A Cidade é Nossa

O Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD) é uma organização popular nacional que constrói a luta nas periferias das cidades grandes e médias do Brasil, promovendo a auto-organização da classe trabalhadora a partir de seus territórios de moradia: bairros, favelas e ocupações. O movimento atua na educação popular e construção da luta por direitos, com destaque para: direito à moradia, combate a todo tipo de violência contra as mulheres e ao racismo, direito ao trabalho, soberania alimentar, cultura e saúde. O MTD escreve mensalmente para o Brasil de Fato, na coluna “A Cidade é Nossa”.

Um anúncio de justiça: mulheres negras em marcha por reparação histórica

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Na preparação para a Marcha das Mulheres Negras de 2025, movimento debate o significado da reparação
Na preparação para a Marcha das Mulheres Negras de 2025, movimento debate o significado da reparação | Crédito: Regina Jerônimo

Foi nas casas modernas dos grandes centros que se preservou a herança escravocrata, perpetuando o germe ideológico da submissão negra no Brasil.

*por Regina Jerônimo

Ser mulher negra no Brasil é um teste diário de coragem. É com coragem que gritamos que está na hora de colocar na ponta do lápis o trabalho social que as mulheres negras historicamente exerceram no país, criando gerações e mais gerações de filhos, seus e de seus empregadores; educando nas escolas; chefiando os lares mais ameaçados do país. As mulheres negras historicamente botam para dormir as crianças dos patrões, na esperança de que, em suas próprias casas, os seus filhos tenham o que jantar.

A periferia, tão marginalizada, só podia ser fruto da exploração de um trabalho tão invisível. Foi nas casas modernas dos grandes centros que se preservou a herança escravocrata, perpetuando o germe ideológico da submissão negra no Brasil. Como já disse a poetisa Preta Rara: “a senzala moderna é o quarto da empregada”. Certamente, muitas outras que vieram antes, que se negaram às correntes ou a elas foram submetidas, já constataram: no Brasil, o trabalho doméstico, quando terceirizado a alguém de fora da família, tem cor e CEP.

Nos barracos, a horas ou não do centro, as mulheres negras criam seus filhos, que sobreviverão ou não, já que famílias chefiadas por elas estão entre as mais vulneráveis à informalidade e à pobreza extrema. 

São também as mais ameaçadas pela Polícia Militar (PM), que tem, segundo o JusBrasil, um dos maiores índices de letalidade contra negros de baixa renda no mundo. O genocídio da população negra no Brasil existe e tem proporções historicamente alarmantes. Assim como as mães palestinas, as mulheres negras no Brasil sabem bem a violência de ter que lutar pelos direitos das suas crianças. Gerar e criar gerações precisa ser reconhecido como trabalho social. 

Assusta pensar que o peso do cuidado e da responsabilidade de chefiar a maioria dos lares deste país, que recai principalmente sobre os ombros das mulheres, tenha reconhecimento social, pois significa reconhecer anos de trabalho não pago dessa massa que construiu o país. Não é por acaso que, quando as empregadas domésticas no Brasil ascenderam aos mesmos direitos trabalhistas do restante da classe, toda essa outra massa de trabalhadores também teve seus direitos atacados.

Aprendemos com Lélia Gonzalez que, ao nos movimentarmos, devemos trazer conscientemente conosco “as marcas da exploração econômica e da subordinação racial e sexual” que a sociedade tenta impor aos sujeitos negros até hoje.

Na preparação para a Marcha das Mulheres Negras de 2025, que teve como lema “Por Reparação e Bem Viver”, debatemos e elaboramos entre nós e com companheiras de outros movimentos o que significaria reparação e bem viver. E, nesse contexto de uma sociedade fundada na exploração cruel e selvagem dos nossos corpos, até os dias de hoje, afirmamos: reparação nas cidades significa reconhecer e assumir a dívida histórica que o Brasil tem com essas mulheres. Significa que é preciso reconhecer e assegurar os direitos tanto de moradia e vínculos comunitários, quanto o direito a trabalho digno, que garanta seus direitos ao acesso à saúde, cultura, educação e transporte, mas, acima de tudo, o direito de viver e ter uma perspectiva de futuro para si e para os seus. Realidade que, para muitas, parece mais distante que a ideia do homem de viver fora do planeta Terra.

A nossa luta é para manter vivas e pulsando as alternativas de aquilombamento que nos garantem nos fortalecermos e construirmos cada vez mais redes de mulheres negras conscientes de que é preciso, como diz o manifesto econômico da marcha, “reconhecer o cuidado como trabalho essencial e estruturante; reconhecer que as mulheres, cidades, campos, rios e florestas são seres de direitos e precisam ser preservados como legado para as nossas próximas gerações”. Que as práticas comunitárias e solidárias e o direito a viver com dignidade são inegociáveis. Que a vida deve vir acima do lucro.

Neste último 25 de novembro, estivemos na rua, mais de 300 mil mulheres negras, insurgentes e insubordinadas. Nosso grito foi para lembrar que a organização das mulheres da base social nunca foi uma ameaça, mas um anúncio de justiça. 

Há dez anos, as mulheres negras já anunciavam que a conta iria chegar. São inegáveis os avanços e os efeitos de práticas populares e feministas na organização e conscientização da sociedade, de que somente a partir de outra lógica de vida que não a do capitalismo selvagem pode nos garantir vida digna, e de que essa virada de chave precisa acontecer dessa camada mais marginalizada para que irradie com magnitude ou não virá. 

Não à toa, as nossas mobilizações e movimentações incomodam e assustam tanto aqueles que sempre estiveram nas classes dominantes e a extrema direita, que cada vez mais violentamente se desespera para manter o status quo, a família que eles dizem tradicional do país.

Por isso nós gritamos, pois como disse Bia Ferreira: “a altura da minha voz é do tamanho da sua dívida”. E a conta virá.

Seguimos ecoando esses gritos pela vida das mulheres e meninas, daquelas que não aceitaram a escravidão, nem para si nem para ninguém. Resistimos pelas vidas nos porões dos navios, resistimos quando a única coisa que tínhamos era a certeza e a fé na justiça. Nunca deixamos de lutar pelo retorno da nossa liberdade, e seguiremos em marcha, rezando, fazendo, cantando e anunciando a justiça, até que todas sejamos livres.

*Regina Jerônimo é comunicadora, educadora popular e integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras por Direitos (MTD).

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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