O Carnaval é uma das maiores expressões de alegria coletiva do povo brasileiro. Ele nasce das mãos negras, dos corpos que resistiram à escravidão, dos terreiros, dos batuques, das ruas e das periferias. É herança africana viva, é memória, é ancestralidade em movimento. Para a classe trabalhadora, o Carnaval não é apenas festa: é pertencimento, é identidade, é a celebração da própria existência.
Desde os primeiros entrudos, das rodas de samba, do maracatu, do afoxé, do frevo e dos blocos de rua, o povo preto construiu o Carnaval como espaço de liberdade. Em um país marcado pela exclusão, a festa sempre foi o momento de ocupar a cidade, transformar as ruas em território de expressão cultural e afirmar que o povo negro e trabalhador não só resiste, mas cria beleza, alegria e futuro.
Em Olinda, os bonecos gigantes carregam histórias de artesãos e artesãs que aprendem o ofício ainda na infância, passando saberes de geração em geração. Cada boneco é mais do que alegoria: é símbolo de continuidade cultural. Em Salvador, os blocos afro como Ilê Aiyê, Olodum e Malê Debalê transformaram o Carnaval em uma afirmação política e estética da negritude, resgatando o orgulho de ser negro e conectando a festa às raízes africanas. No Rio de Janeiro, as escolas de samba surgem dos morros e das favelas, organizadas por trabalhadores e trabalhadoras que constroem verdadeiras obras de arte coletivas.
O Carnaval é uma grande aula pública de história afro-brasileira. Ele ensina sobre ancestralidade, coletividade, organização popular e criatividade. Cada fantasia, cada instrumento, cada dança carrega a marca de um povo que sempre transformou dor em potência criativa. É por isso que essa festa é tão importante para a classe trabalhadora: porque nela se reconhece, se fortalece e se celebra.
Além do aspecto cultural, o Carnaval também é espaço de geração de renda e circulação de economia solidária. Ambulantes, cozinheiras, costureiras, músicos, artesãos, catadores e artistas encontram na festa uma oportunidade de sustento, mas também de valorização dos seus saberes. Não é apenas trabalho: é trabalho com afeto, com identidade e com orgulho.
O mais bonito do Carnaval é que ele não é individual. Ele é coletivo. Ele só existe porque existe comunidade. Cada bloco, cada escola de samba, cada orquestra de frevo é uma construção feita a muitas mãos, muitas vozes e muitos sonhos. O povo trabalhador transforma ruas em palcos, becos em passarelas, ladeiras em templos de alegria.
O Carnaval é também resistência política. Em cada batida do tambor existe a memória de quem lutou para sobreviver. Em cada canto existe a afirmação de que a cultura popular é uma forma de poder. O povo preto sempre fez do Carnaval uma ferramenta de afirmação da sua humanidade, da sua dignidade e do seu direito de existir com alegria.
Para a classe trabalhadora, o Carnaval é o momento de respirar, sorrir, se encontrar, fortalecer laços e reafirmar que a vida é mais do que exploração e sofrimento. É a prova de que mesmo diante das desigualdades, o povo cria beleza, cria festa e cria esperança.
O Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD) reconhece o Carnaval como patrimônio vivo da classe trabalhadora brasileira. Uma festa que educa, cura, une e fortalece. Defender o Carnaval é defender o direito à cultura, à alegria e à dignidade.
O Carnaval é a vitória do povo sobre a tristeza. É a ancestralidade preta em movimento. É a classe trabalhadora dizendo ao mundo: nós existimos, nós criamos, nós celebramos.
*Senhorinha Joana Alves é integrante da Executiva nacional do MTD e coordenadora da Associação Cultural Nação Mulambo
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

