A Cidade é Nossa

O Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD) é uma organização popular nacional que constrói a luta nas periferias das cidades grandes e médias do Brasil, promovendo a auto-organização da classe trabalhadora a partir de seus territórios de moradia: bairros, favelas e ocupações. O movimento atua na educação popular e construção da luta por direitos, com destaque para: direito à moradia, combate a todo tipo de violência contra as mulheres e ao racismo, direito ao trabalho, soberania alimentar, cultura e saúde. O MTD escreve mensalmente para o Brasil de Fato, na coluna “A Cidade é Nossa”.

Nossos rios não são mercadorias!

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Ponta Grande no Rio Arapiuns, afluente do Rio Tapajós, no trajeto da Comunidade de Mentai para Anã • José Cruz/Agência Brasil
Ponta Grande no Rio Arapiuns, afluente do Rio Tapajós, no trajeto da Comunidade de Mentai para Anã | Crédito: José Cruz/Agência Brasil

Um rio não deixa de ser um rio quando ele conflui com outro rio. Ele continua em sua essência. Essa é a grandeza da confluência

Por Emanuel Meirelles*

Como um Rio

Ser capaz, como um rio que leva sozinho

a canoa que se cansa de servir de caminho para a esperança.

E de lavar do límpido a mágoa da mancha, como um rio que leva e lava.

(…)

Thiago de Mello

A luta dos povos da Amazônia e, em especial, dos povos indígenas em defesa do rio Tapajós, que se ampliou pela defesa dos rios Madeira e Tocantins e reverberou pelo Brasil e mundo afora, teve uma conquista histórica: a revogação do Decreto 12.600/2025.

De fato, o referido decreto incluía esses três importantes rios da Amazônia no Programa Nacional de Desestatização (PND) para a criação de um corredor fluvial gigantesco (hidrovias) para a expansão de produtos do agronegócio e da mineração, reproduzindo a mesma lógica de expansão do capital e acúmulo de riquezas de poucos, passando, literalmente, por cima de comunidades e povos originários, sem Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI), instrumento democrático fundamental, garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário.

A construção de hidrovias nos rios da Amazônia, já tão impactados por grandes projetos de infraestrutura como as hidrelétricas, que barram os rios e destroem os ecossistemas aquáticos e a mobilidade natural dos peixes, também tem o potencial de revolver o mercúrio depositados no fundo dos rios e ampliar a contaminação das populações tradicionais e originárias. Além de impedir que esses povos possam pescar, se deslocar e plantar nas várzeas dos rios, práticas ancestrais que contribuem para a sobrevivência e subsistência de milhares de pessoas. Em síntese, privatizar os rios da Amazônia significa destruição e morte.

Por isso, tem sido tão importante toda a mobilização, articulação e pressão dos povos, que deve continuar, pela defesa e promoção dos rios e populações, que conhecem, respeitam e valorizam os rios, não como objeto de lucro e acumulação, mas na dimensão dos direitos da natureza que os rios têm e pela relação espiritual e ancestral que as comunidades têm com eles.

Que essa experiência de combatividade e conquista da luta dos povos da Amazônia no enfrentamento do grande capital, sempre predador, nos anime e mobilize a continuarmos em permanente mobilização, atenção e em confluência, assim como nas palavras potentes de Nego Bispo, que nos ensina: “Um rio não deixa de ser um rio quando ele conflui com outro rio. Ele continua em sua essência. Essa é a grandeza da confluência”.

*Emanuel Meirelles é militante MTD em Rondônia

Editado por: Maria Teresa Cruz

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