Por Emanuel Meirelles*
Como um Rio
Ser capaz, como um rio que leva sozinho
a canoa que se cansa de servir de caminho para a esperança.
E de lavar do límpido a mágoa da mancha, como um rio que leva e lava.
(…)
Thiago de Mello
A luta dos povos da Amazônia e, em especial, dos povos indígenas em defesa do rio Tapajós, que se ampliou pela defesa dos rios Madeira e Tocantins e reverberou pelo Brasil e mundo afora, teve uma conquista histórica: a revogação do Decreto 12.600/2025.
De fato, o referido decreto incluía esses três importantes rios da Amazônia no Programa Nacional de Desestatização (PND) para a criação de um corredor fluvial gigantesco (hidrovias) para a expansão de produtos do agronegócio e da mineração, reproduzindo a mesma lógica de expansão do capital e acúmulo de riquezas de poucos, passando, literalmente, por cima de comunidades e povos originários, sem Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI), instrumento democrático fundamental, garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário.
A construção de hidrovias nos rios da Amazônia, já tão impactados por grandes projetos de infraestrutura como as hidrelétricas, que barram os rios e destroem os ecossistemas aquáticos e a mobilidade natural dos peixes, também tem o potencial de revolver o mercúrio depositados no fundo dos rios e ampliar a contaminação das populações tradicionais e originárias. Além de impedir que esses povos possam pescar, se deslocar e plantar nas várzeas dos rios, práticas ancestrais que contribuem para a sobrevivência e subsistência de milhares de pessoas. Em síntese, privatizar os rios da Amazônia significa destruição e morte.
Por isso, tem sido tão importante toda a mobilização, articulação e pressão dos povos, que deve continuar, pela defesa e promoção dos rios e populações, que conhecem, respeitam e valorizam os rios, não como objeto de lucro e acumulação, mas na dimensão dos direitos da natureza que os rios têm e pela relação espiritual e ancestral que as comunidades têm com eles.
Que essa experiência de combatividade e conquista da luta dos povos da Amazônia no enfrentamento do grande capital, sempre predador, nos anime e mobilize a continuarmos em permanente mobilização, atenção e em confluência, assim como nas palavras potentes de Nego Bispo, que nos ensina: “Um rio não deixa de ser um rio quando ele conflui com outro rio. Ele continua em sua essência. Essa é a grandeza da confluência”.
*Emanuel Meirelles é militante MTD em Rondônia

