Cerca de 300 camponeses e camponesas sem-terra estiveram em Curitiba para a Jornada Nacional de Lutas em Defesa da Reforma Agrária, nesta quarta e quinta-feira (15 e 16 de abril), no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra-PR) e na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). As atividades ocorreram em diversas regiões do país com o lema Basta de violência contra os povos e a natureza! 30 anos de Carajás. As ações fazem memória ao Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido no Pará, quando 21 militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foram assassinados.
Integrante da direção nacional do MST e morador do assentamento Contestado, na Lapa (PR), Edson Bagnara destacou a importância de manter viva a memória do massacre. Ele enfatiza que a história do Brasil é marcada por violência contra povos indígenas, população negra e trabalhadores do campo. “Essa jornada carrega a dureza da luta, mas também o anúncio da organização popular. Queremos avançar na justiça social que o país precisa”, afirmou.
No Paraná, a mobilização tem como eixos centrais a efetivação de assentamentos, o acesso à moradia, ao crédito para produção e à educação no campo. Com a plateia lotada no auditório do Incra, os trabalhadores e trabalhadoras rurais acampados apresentaram suas reivindicações. Atualmente, mais de 80 comunidades rurais estão em luta pela criação de assentamentos, algumas com mais de 30 anos de existência.

“A nossa principal pauta aqui nesse momento é trazer a importância de avançar no assentamento e na regularização das mais de 5 mil famílias que ainda precisam ser assentadas aqui no estado do Paraná. Então, essas famílias estão em processo de lutas há muitos, muitos anos. São comunidades consolidadas, com estruturas coletivas, produção, vínculos comunitários”, garante Bruna Zimpel, integrante da coordenação Nacional do MST, moradora do acampamento Terra Livre, em Clevelândia.
Já na sede da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), os temas em debate foram o desenvolvimento dos assentamentos, acesso a crédito, moradia e educação. Marli Brambila, da direção do Setor de Produção do MST no Paraná e assentada em Querência do Norte, ressaltou a importância do acesso a políticas públicas.


“Estamos aqui para apresentar a pauta de desenvolvimento dos assentamentos, com foco em crédito, agroecologia, apoio às mulheres assentadas e às novas gerações. Queremos fortalecer a produção de alimentos saudáveis e ampliar nossas cooperativas e agroindústrias”, explicou.
As comunidades da Reforma Agrária no estado têm 25 cooperativas e mais de 100 associações e agroindústrias, atuando de forma articulada por meio da Cooperativa Central da Reforma Agrária (CCA). A produção inclui itens básicos como feijão, arroz, milho e derivados, além de mais de 30 produtos lácteos, café, açúcar mascavo, melado e massas. Avança também o número de famílias com certificação orgânica e agroecológica. “Além da produção da matéria-prima, avançamos na agroindustrialização e na comercialização, inclusive por meio de programas públicos. Queremos seguir a nossa missão de produzir alimento pra toda a população”, destacou Marli.


| Crédito: Foto 1: Leonardo Henrique; Foto 2: Ednubia Ghisi
A jornada também reúne representantes de instituições públicas. Stheffanne Rodrigues, assessora jurídica do Ministério Público e integrante do Centro de Apoio Operacional de Direitos Humanos do Ministério Público do Paraná enfatizou a importância do diálogo entre o poder público e os movimentos sociais.
“É fundamental compreender a realidade dos trabalhadores rurais e a importância do acesso à terra. A participação do MST nesses espaços contribui para a construção de políticas públicas mais eficazes e para a garantia de direitos previstos na Constituição”, afirmou.


Ela também destacou que a mobilização reforça a memória das vítimas de conflitos agrários e contribui para evitar novas violações. “Preservar essa memória é essencial para construir um futuro com mais justiça social e respeito aos direitos humanos”, disse.
Participaram das mesas de diálogo e negociação o superintendente do Incra no Paraná, Nilton Bezerra Guedes, e da ouvidora agrária do Incra, Josiane Grossklaus; o chefe da divisão no Incra, Cyro Corrêa, os deputados estaduais Luciana Rafagnin e Professor Lemos (PT); a superintendente do Ministério do Desenvolvimento Agrária e Agricultura Familiar no Paraná (MDA), Leila Kleik; o superintendente da Conab, Valmor Bordin, e Roland Rudyna, da Superintendência de Diálogo e Interação Social do governo estadual.


| Crédito: Murilo Bernardon
A atividade segue nesta quinta-feira (16), com avaliação e planejamento das próximas ações do movimento no estado. A alimentação para os dois dias de atividades foi garantida pelas mãos de um coletivo de militantes do MST de todo o estado, com cozinhas organizadas pelas próprias regiões e alimentos vindos de cada comunidade participante.
Relatos da violência no campo
Algumas famílias do Paraná estão há 10, 20, e até 30 anos vivendo em acampamentos, isto é, áreas em que o Incra ainda não formalizou a criação do assentamento. A maioria destas comunidades está consolidada, com moradias de madeira ou alvenaria, produção diversa de alimentos, estruturas coletivas como escolas, igrejas e centros comunitários. Mas a condição de acampamento também dificulta o acesso a algumas políticas públicas, traz insegurança jurídica e, em alguns casos, ameaças de despejo e episódios de violência direta por parte do agronegócio.
É o caso da comunidade Benedito Gomes, localizada em uma área pública do Incra no município de Perobal (PR), próximo a Umuarama. No final do mês de março, as famílias acampadas foram vítimas de uma intoxicação por agrotóxicos após uma pulverização realizada por um fazendeiro que ocupa ilegalmente a área. O caso se assemelha a outros ocorridos em territórios indígenas, de povos tradicionais e da reforma agrária em outros estados brasileiros, em que o agrotóxico é utilizado como arma química pelo latifúndio. O veneno atingiu as moradias das cerca de 430 famílias acampadas no local.
Testemunhas afirmam que a deriva do agrotóxico foi imediata, acompanhada de forte odor que se espalhou pelo local. Cerca de 20 pessoas apresentaram sintomas como irritação na garganta, tosse e dores de cabeça. Também há relatos de possível impacto sobre uma lavoura coletiva de feijão mantida pelas famílias.
Camila Verbes é uma das pessoas acampadas que se intoxicou e precisou de atendimento médico, em especial por estar gestante. “A gente estava no curso de formação no sábado à tarde, estava ventando também para o lado do acampamento. Ele [o fazendeiro] dirigiu naquela direção um pouco para frente da plantação do acampamento e ele jorrou bastante veneno com o pulverizador. Logo de imediato, várias pessoas já começaram a sentir dor de cabeça, um forte cheiro, sentir arranhar a garganta também. Eu tive dor de cabeça durante a noite e durante a madrugada eu comecei com o episódio de vômito e, no amanhecer, eu procurei o atendimento”.
A situação tem se agravado também pela falta de acesso à água de qualidade, que tem dificultado a permanência das famílias na comunidade, em especial a frequência das crianças na escola.
A área da chamada Fazenda Tiburi é exemplo da apropriação individual de terras públicas em benefício do agronegócio. O imóvel público, com 115 alqueires, é alvo de disputa fundiária há cerca de duas décadas. Em decisão judicial recente, foi reconhecida a irregularidade da ocupação por fazendeiros, com determinação de desocupação e destinação da área para fins de Reforma Agrária. Apesar disso, segundo a denúncia, o atual ocupante estaria descumprindo as determinações legais, incluindo a proibição de novos plantios.
Principais reivindicações
A pauta apresentada pelo MST-PR na Jornada de Negociação de 2026 teve como objetivo pressionar por avanços na reforma agrária. Entre os principais pontos estão: assentamento de 100 mil famílias no Brasil, sendo 5 mil no Paraná; investimentos em infraestrutura, como energia, água e estradas; ampliação de programas de habitação rural; regularização fundiária de famílias acampadas; facilitação do acesso ao crédito e renegociação de dívidas; fortalecimento de programas de compra de alimentos e assistência técnica; ampliação de políticas educacionais no campo, como o Programa Nacional de Educação para a Reforma Agrária (Pronera). O Movimento também cobra maior destinação de recursos públicos para enfrentar a fome e garantir a soberania alimentar no país.
*Ednubia Ghisi, do Setor de Comunicação e Cultura do MST-PR
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


