Acontece que, na minha vida, o número 5 é uma constante: nasci em maio, cresci na 405, morei na 115 e, antes de assumir, juntamente com Emmanuel Queiroz, a gestão do Teatro Oficina Perdiz em Brasília (DF), em 2025; ocupei, com a minha produtora sociocultural, a sala 5 do Instituto Brasileiro Pró-Educação, Trabalho e Desenvolvimento (ISBET-DF).
Assim, não foi uma grande surpresa constatar que, justamente em 2025, a Lira Produções Socioculturais colou nessa história no ano em que a Oficina Perdiz, nascida em 1965, completa 60 anos de sua abertura. Logo de início, a Oficina Perdiz dançou pela Asa Norte: primeiro na 702, depois na 704/5 e finalmente, em 1969, no local onde ganhou o DF e o Brasil, tendo sido, inclusive, matéria da TV Globo em 2008.
Na sequência, mais três cincos: em 1975, o espaço se tornou casa de artistas da cidade, portanto este ano completa 50 lindos anos de arte, cultura e resistência! Resistência essa que enfrentou o Estado e suas burocracias, reabrindo suas portas em 2015. Com tantos aniversários redondos, não poderia deixar de escrever sobre o furacão cultural que o Teatro Oficina Perdiz representou e representa para várias gerações de artistas e amantes das artes cênicas da capital federal.
Assim, depois de muita pesquisa para entender e corrigir equívocos publicados em vários materiais, considero este texto uma referência para quem quer de fato conhecer a história desse equipamento cultural histórico da capital federal e busco utilizar, para não errar, muito mais citações encontradas em fontes confiáveis (as referências estão todas no final do artigo) do que minhas próprias palavras. Dessa forma, para manter a riqueza de detalhes sem cansar você, leitore, publicaremos essa história em duas partes, sendo o texto de hoje, a primeira.
Início
“José Perdiz, filho do Sr. Higino Perdiz e dona Dosolina Costa Perdiz, é neto de italianos e espanhóis. Nasceu aos 02 de maio de 1932, morou no campo e na cidade até os 20 anos quando se encanta com a doutrina comunista e se engaja na juventude comunista morando e militando clandestinamente pelo partido comunista, em Juiz de Fora e Belo Horizonte/MG, até os 28 anos quando é dispensado do partido e vem para Brasília no início dos anos 60. Em 1965, inaugura a oficina Perdiz. ” – Mangueira Diniz, 2004.
“Como a oficina virou teatro? O que sempre me dirigiu foram as circunstâncias da vida. Nunca planejei. Acontecia. Meu sobrinho Ivan veio trabalhar na oficina e começou a estudar [artes cênicas] na Dulcina. E foi aí que surgiu essa loucura que vocês estão vendo. Um dia, o Ivan chegou e falou ‘Perdiz, tô perto de fazer aniversário, queria fazer uma festinha pra turma da minha sala, mas eu não tenho onde.’ Falei: ‘não tem, uma ova, rapaz! Faz aqui na oficina’. Na festa vieram todos os colegas dele.” – José Perdiz, 2020.
A festa aconteceu em 1975 e, desde então, aos poucos Ivan Marques passou a usar a Oficina Perdiz durante as noites e finais de semana para ensaiar com o grupo da faculdade Dulcina de Moraes. “A partir do 2º quinquênio da década de 1980, meu grande amigo Ivan torna-se elo de ligação do Perdiz com a classe teatral”, relembrou Mangueira Diniz.
Embora toda a história do Teatro Oficina Perdiz me seja muito cara, quando colegas e amigues visitam o local, sempre conto sobre o dia que o espaço deixou de ser “oficina cultural” e ganhou o status de teatro: 10 de fevereiro de 1989, com a abertura das portas para o público que foi assistir o espetáculo Esperando Godot, que continha atuação de Ivan Marques como Estragon, e direção de Mangueira Diniz. Como não poderia ser diferente, a chegada do público trouxe um novo desafio:
“[Diniz], onde o povo vai sentar? Você trata de arrumar dinheiro para eu fazer uma arquibancada de circo’. Aí ele falou ‘Quê que é isso?’ e eu falei ‘que nordestino filho da puta que você é, que não sabe o que é uma arquibancada de circo [risos]’”, relembrou José Perdiz.
Acontece que o tempo passou e Mangueira Diniz não conseguiu apoio para comprar o material necessário para construir a tal arquibancada. Perdiz conseguiu o dinheiro com um cliente da construção civil, comprou as tábuas e deixou no canto da oficina, ele relembra:
“Nisso, tava faltando mais de um mês para o dia da estreia. E o tempo foi passando, foi passando. Quando deu o dia da estreia… o Ivan […] disse: ‘Perdiz, eu tô ficando louco! Hoje é o dia da estreia, as tábuas continuam ali’. Falei: ‘Ivan, não esquenta, não. Vai dar certo’. Quando deu 15h, falei pra ele: ‘Ivan, não atende o telefone de quem quer que seja, não tô na oficina, não quero conversa, não quero que ninguém converse comigo, eu vou fazer a arquibancada’. Chamei um filho meu e um outro rapaz que trabalhava comigo e, mandamos brasa. Vai daqui, vai dali, coloca as vigas, coloca os apoios das tábuas, solda daqui, solda dali, vai de cá e vai de lá. Fui terminar 20h20’ [risos]”.

“Quando terminou a peça, o Diniz falou: ‘Perdiz, enquanto lá no teatro tradicional eu não tive público, aqui, hoje, teve 80 pessoas, 80 pagantes!’. A peça ficou três meses em cartaz. Saiu reportagem de todo jeito, rapaz do céu! Como que acontece uma coisa dessas? Uma oficina miserável dessa, uma peça que fica três meses em cartaz com casa cheia! Aí começou. Era performance de dança, era lançamento de revista, era exposição de belas artes… Velho, foi uma loucura! E eu continuava trabalhando, vivendo da minha profissão”.
“Aconteceu o inesperado. O espaço por ser novo e radicalmente diferente, a busca para conhecê-lo era incessante tanto por parte da mídia quanto por parte do público. Naquele dia, a Globo me procurou às 19h, duas horas antes de estrear, e a arquibancada não estava pronta: faltava subir a estrutura e para mais demora, a repórter Andréa Chagas me pediu que parasse, por um bom tempo, enquanto aguardava chegar outro cabo de câmera para substituir um que queimou e então poder filmar os mecânicos levantando e instalando as vigas de ferro de sustentação da arquibancada. Ela filmou estas imagens e cenas do espetáculo fundidas ao movimento das máquinas, fez uma bela reportagem com a manchete: ‘um clássico do teatro moderno numa oficina mecânica'”.
O Correio Braziliense, na época, procurou Perdiz e fez uma grande matéria com manchete de capa e o Perdiz postado, sujo de graxa numa foto e na matéria a frase: “Primeiro ato, oficina. Segundo ato, teatro.” Ainda um subtítulo: “José Perdiz abrindo sua oficina à arte e à cultura, ele presta um serviço à cidade e dá uma lição ao Estado”.
Sucesso x poder público
Entre os anos de 1991 e 1992, o teatro chegou a receber 7,5 mil pessoas, a maioria para assistir ao espetáculo Bella Ciao, dirigido por Mangueira Diniz e Francisco Rocha. “Veio o Mangueira Diniz de novo: ‘Perdiz, a peça que o Chico Expedito ia fazer, Bella Ciao, eu vou dirigir ela’. Isso era em 1991. Foi gente pra danar na peça, rapaz do céu, que loucura, puta que pariu! Teve sábado que teve que fazer duas sessões. Era gente, rapaz, e aquilo era notícia na mídia. Foi um sucesso! Foram 110 apresentações. Teve dia que eles apresentaram a peça às 2h da madrugada!”, lembra José Perdiz.
No meio do público desconhecido, artistas famosos como Stênio Garcia, e muitos outros, prestigiaram o espaço. No entanto, os anos 1990 não foram fáceis:
“Depois dos três primeiros anos de inaugurada como casa de espetáculos, a pressão política para ela sair de seu local foi e é grande. Apesar de Perdiz ter direitos adquiridos sobre o local, a justiça alega uma irregularidade no galpão de madeira por ocupar uma rua, terra pública. Há muitas ameaças de derrubada da Oficina por parte do governo e grande opressão por parte da especulação imobiliária oferecendo propostas irrisórias e indecentes para o local virar canteiro de obra e posteriormente se tornar estacionamento-depósito de carros quebrados para consertos futuros”.
“A história da derrubada nunca passava de ameaças, porém ano passado, dia 11/09/2002 […] quando pensávamos que não, logo de manhã cedo, fomos surpreendidos com tratores e basculantes trazidos pelos funcionários da Administração de Brasília, com uma ordem para derrubar a Oficina Perdiz. Nos articulamos rapidamente, convocamos a imprensa e os amigos afinados com ela, mas mesmo assim não adiantou, os tratores começaram derrubando pelos fundos, nos concentramos dentro dela com muita raiva mas logo, logo conseguimos impedir maiores estragos da administração do Plano Piloto. A administração justificava que estava cumprindo ordem do Ministério Público”, lembra Mangueira Diniz.
O Teatro Oficina Perdiz não foi o primeiro e não será o último a brigar com o poder público e sofrer ameaças de demolição. Só em 2025 acompanhamos a capital paulista, estarrecidos com a demolição do Teatro Vento Forte (fevereiro) e o aviso de despejo do Teatro de Contêiner (maio). A matéria do Brasil de Fato de junho ainda cita embates do Grupo XIX de teatro e da Escola de Samba Vai, Vai. Em 2009 o Teatro Oficina Perdiz encerrou suas atividades, de acordo com matéria do Correio Braziliense de 5 de outubro de 2011:
“A última apresentação por lá foi há dois anos, quando o Teatro do Concreto levou ao espaço a peça O diário do maldito. Agora, não há mais como fazer teatro no local por conta da marquise do prédio vizinho que diminuiu o pé-direito, inviabilizando a caixa cênica. Antes, quem chegava lá era acolhido com ou sem dinheiro, sempre tinha um lanche na madrugada. Gastos com energia elétrica e água, então, eu nunca levei em conta, admite [Perdiz]. […] A coisa está ficando feia para o meu lado; avalia [Perdiz]. Os clientes já não surgem como antigamente, atraídos por oficinas informatizadas. O telefone está bloqueado por falta de pagamento e só recebe chamadas. Até a energia elétrica pode ser cortada a qualquer momento”.

Olhando daqui de 2025 para essa matéria publicada em 2011, eu sei que 2015 vai chegar e o Teatro Oficina Perdiz vai sim reabrir as portas na 710 Norte! Mas essa é uma história para outro momento. Você me encontra na parte dois do texto 50 anos do Teatro Oficina Perdiz? Então, nos vemos no futuro!
Linha do tempo
02/01/1965 – Oficina Perdiz na 702 Norte. Mais tarde se mudou para a 704/5 Norte.
1969 – Oficina Perdiz se mudou para a 708/9 Norte.
1975 – Aniversário do Ivan e início de ensaios, reuniões e festas no espaço.
10/02/1989 – Estreia de Esperando Godot e marco do início da oficina/espaço cultural enquanto Teatro Oficina Perdiz.
11/09/2002 – Ameaça de demolição com abraço simbólico da classe artística no teatro
2009 – O Teatro Oficina Perdiz encerrou suas atividades na 708/9 Norte
2015 – O teatro reabre em novo endereço na 710 Norte
Fontes
Artigo Contrastes e diferenças de ser ou não ser teatro de Mangueira Diniz, parte do livro Histórias do Teatro Brasiliense, organizado por Fernando Pinheiro Villar e Eliezer Faleiros de Carvalho, publicado pelo Instituto de Artes da Universidade de Brasília (UnB), 2004.
Documentário Oficina Perdiz de Marcelo Díaz (2006) – Disponível neste link.
Reportagem As peças de uma oficina no quadro Me Leva Brasil com Maurício Kubrusly no Fantástico, da TV Globo (2008) – Disponível neste link.
Documentário Zé[s] de Piu Gomes (2010).
EntrevistaPerdiz. Revista Traços nº 36 de Janeiro de 2020.
Reportagem do Brasil de Fato Teatros e espaços culturais estão na mira das demolições pelo poder público em São Paulo – Disponível neste link.
* Naiara Lira é atriz, cantora e produtora cultural na capital.
** Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato DF.
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