A sugestão de Mayra Corleonne de escrever sobre o Teatro Oficina Perdiz, me caiu como uma luva. Tendo eu, Naiara Lira, juntamente com Emmanuel Queiroz, assumido a gestão do espaço há menos de um ano, recebi o desafio como uma grande responsabilidade que vai ao encontro da pesquisa que já estava realizando, afinal, como cuidar de um espaço sem conhecer sua história?
Na primeira parte deste texto, facilmente encontrada na minha coluna no Brasil de Fato DF, contei a história dos primeiros 40 anos do espaço: nascimento, crescimento, auge e declínio. Hoje retomamos a narrativa a partir do seu renascimento.
Um novo local
Depois de seis anos fechado, em 26 de junho de 2015 o Teatro Oficina Perdiz foi reinaugurado na 710 Norte, onde hoje tenho o prazer e privilégio de fazer parte de um novo capítulo dessa história: se antes o galpão da oficina mecânica se tornava teatro durante as noites e finais de semana, em 2015 o espaço passou a ser um prédio com a oficina funcionando no térreo e o teatro no subsolo para um público de até 40 pessoas.
Em 2018, a filha caçula do mecânico, a designer gráfica e atriz Júlia Perdiz, assumiu a gestão do teatro. Conheci Júlia no mesmo ano em uma disciplina de Artes Cênicas na UnB e visitei pela primeira vez o Teatro Oficina Perdiz. Para entrar no teatro, a gente passava por uma infinidade de parafusos, porcas, peças e partes de motor por todos os lados. Conheci José Perdiz trabalhando na oficina, nos falamos por uns 3 minutos.
Em 2019 me apresentei em um espaço alternativo da capital federal e conheci Eduardo Gorck: um jovem estudante de Artes Cênicas muito interessado e disposto, que estava sendo completamente subutilizado. Lembrei de tê-lo visto na UnB e descobri que ele era voluntário ali. Pensei na Júlia que, com seus 20 e poucos anos, estava cuidando sozinha de todo um legado. Apresentei os dois. Deu match e os dois trabalharam muito tempo juntos pela arte/cultura da cidade.
Entre 2018 e 2023, sob os cuidados de Júlia Perdiz, o teatro apresentou 110 espetáculos. Durante a pandemia, o Teatro Oficina Perdiz ganhou o único edital que já conseguiu: R$20 mil da Lei Aldir Blanc emergencial da cultura e o espaço ganhou pequenas reformas, mas continuou sua presença de forma online. Em 2021, enquanto diretora teatral, fui convidada pela Júlia para participar de uma série de lives intituladas “Quem trabalha atrás das cortinas”.
Já em 2022, na madrugada do dia 20 de fevereiro, o mecânico José Perdiz, fundador do Teatro Oficina Perdiz, se ancestralizou. Aos 89 anos, Perdiz fez sua passagem resultante de problemas cardíacos, agravados por um diagnóstico recente de Covid-19. Assim, a oficina fechou, foi pintada e deu espaço à entrada de um teatro. Um teatro que tem várias oficinas mecânicas como vizinhas.
Em 2024 Júlia decidiu alçar outros voos e Bruno Estrela assumiu a gestão do espaço, conseguindo parcerias para substituir as cadeiras de plástico por cadeiras confortáveis, abrindo edital para grupos da cidade ensaiarem e, finalmente, conseguindo parceria para limpar o teatro após a inundação grave que aconteceu em fevereiro de 2024 em vários comércios da W3 Norte, fruto do desmatamento das árvores que cada vez mais dão espaço a edifícios no setor Noroeste.
Na ocasião, o teatro foi limpo, mas perdeu todo o equipamento de som e muitos equipamentos de luz, tendo assim lutado durante alguns meses para permanecer aberto, no entanto, não resistiu e foi novamente fechado.

Ainda em 2024, o algoritmo, que nunca me mostrava nada do Teatro Oficina Perdiz nas redes sociais, decidiu que eu deveria ver que Júlia tinha aberto um chamamento público para selecionar um novo gestore para o espaço. Liguei para o meu parceiro na Lira Produções Socioculturais e perguntei o que ele achava da ideia:
“Desde 2021 eu enfiei na cabeça que quero um teatro e essa é a chance! A Júlia me conhece, você é profissional do backstage de teatro, dulciniano (discípulo de Dulcina de Moraes) e foi você quem cuidou do Espaço Cultural Mosaico (714/5 Norte) enquanto ele esteve aberto. Vamos ter um filho? Mas assim, eu quero um teatro? Quero, mas eu quero ser pai. A mãe é você. O que você acha?”.
Gestão da Lira Produções Socioculturais
E foi assim que eu, Naiara Lira, e Emmanuel Queiroz assumimos, em 3 de fevereiro de 2025, a gestão do Teatro Oficina Perdiz. O espaço estava bem chateado, o cheiro de mofo só melhorava depois de uns 10 minutos de portas abertas. O Manu se trancou no Perdiz e fez tudo: pintou o chão, soldou ferro, cortou cabo, lavou parede, arrancou palco mofado… Tudo. Eu contribuí lavando o banheiro de vez em quando e tirando as muitas camadas de lodo do chão do quintal, um espaço antigamente reservado para entulho, que nem os frequentadores mais assíduos do Perdiz conheciam.
Em 16 de março de 2025, o Manu já considerava que o espaço podia ser visto e a gente já tinha gastado o fundo de reserva da Lira, então convidamos algumas poucas pessoas da classe artística da cidade e realizamos um “ritual de abertura”, com esperança de levantar uma grana e vender algumas pautas. Foi um evento lindo e lotado, teve gente cantando e tocando violão no palco, teve capoeira no quintal, teve chopp na entrada, teve marmita do Macarrão na Rua (206N), aliás, um parceiro da música da cidade, vale ressaltar.
Entre as 15h e as 22h recebemos mais de 100 pessoas ocupando todos os espaços, inclusive a rua em frente ao Perdiz. O dinheiro que entrou foi muito pouco, mas a Clínica Ortopédica de Taguatinga, patrocinadora do meu programa de rádio Pretinhosidade (Rádio Cultura FM Brasília 100,9), fez uma doação substancial que pagou as contas dos primeiros meses.
A abertura do IV Fest Lira em 9 de junho de 2025 foi o primeiro evento aberto ao público realizado pela Lira no Teatro Oficina Perdiz. Nesse dia inauguramos a Galeria Oficina Perdiz, no local onde funcionava a oficina mecânica, e que hoje abriga a exposição da artista plástica Carmen Santiago, a diva curadora da nossa galeria, que também fez uma palestra na ocasião. Tivemos casa cheia. Durante três meses, o IV Fest Lira, patrocinado pela Lei Paulo Gustavo – DF, pagou R$ 800 para 40 alunos participarem das oficinas, palestras, shows e rodas de conversa sobre o mercado cultural. Foram mais de 10 apresentações artísticas dentro do teatro e também em palco montado no estacionamento ao lado. O IV Fest Lira gerou em torno de 100 empregos.
Hoje, no último trimestre do ano, o palco da sala Mangueira Diniz do Teatro Oficina Perdiz, já recebeu palestras, oficinas, ensaios de grupos de teatro, de música, ensaios fotográficos, espetáculos de teatro, dança, teatro de lambe-lambe, shows e até karaokê.
Na arquibancada, na galeria e nas atividades realizadas no quintal, recebemos artistas locais, trabalhadores da cultura, curadores de um importante festival de dança, a comunidade do DF, a APAE e as residentes da 4ª e da 5ª Residência Artística Ruth de Souza para trabalhadoras domésticas. A Mostra Ruth de Souza seleciona, por meio de chamamento público, artistas cênicos do DF e entorno para se apresentam para as residentes e para a comunidade no último dia de atividades. As trabalhadoras selecionadas receberam uma bolsa de R$1 mil para ter uma oportunidade real de participar do projeto. As edições 4 e 5 da Residência Ruth de Souza foram patrocinadas pelo Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Cultura do DF.
Por fim, minha alegria hoje é dizer que o Teatro Oficina Perdiz vive e que em 2025 – ao completar 50 anos de história, luta e resistência – tem passado por um segundo renascimento do qual eu, Emmanuel Queiroz, Carmen Santiago e tantas outras pessoas queridas, fazem parte. Uma porção dessa alegria vem da crença de que honramos a memória de José Perdiz, e seu teatro comunista, especialmente nas ocasiões em que sorteamos pautas gratuitas e promovemos projetos socioculturais.
Se você, leitore, tem interesse em levar seu projeto para a gente, você pode agendar sua pauta com Emmanuel Queiroz por meio do WhatsApp (61) 98148-5793. Se não, segue o @festlira e o @teatrooficinaperdiz no Instagram que, em 2026, a meta é colocar o Perdiz de volta nos trilhos com uma programação cultural consistente.
Linha do tempo
02/01/1965 – Oficina Perdiz na 702 Norte. Mais tarde se mudou para a 704/5 Norte.
1969 – Oficina Perdiz se mudou para a 708/9 Norte.
1975 – Aniversário do Ivan e início de ensaios, reuniões e festas na Oficina Perdiz.
10/02/1989 – Estreia do espetáculo Esperando Godot e marco do início da oficina/espaço cultural enquanto Teatro Oficina Perdiz.
11/09/2002 – Ameaça de demolição com abraço simbólico da classe artística no teatro
2009 – O Teatro Oficina Perdiz encerrou suas atividades na 708/9 Norte
26/06/2015 – Inauguração do Teatro na 710 Norte.
2018 a 2023 – Gestão de Júlia Perdiz
2024 – Gestão de Bruno Estrela
03/02/2025 – Início da gestão da Lira Produções Socioculturais
09/06/2025 – Inauguração da Galeria Perdiz com exposição de Carmen Santiago
* Naiara Lira é atriz, cantora e produtora cultural na capital.
** Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato DF.
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