Por Vanessa Gonçalves
O ventilador de teto da secretaria da escola, na Baixada Fluminense, girava com um barulho metálico, apenas empurrando o ar quente de um meio-dia pesado. Dona Maria sentia o suor colar a blusa nas costas. No colo, ela apertava a mochila azul com o desenho do Menino Maluquinho. A avó, que ainda lembrava dos tempos de Ziraldo, dizia que o neto era “a cópia cuspida”: inteligente, elétrico, com o olho maior que o mundo.
Mas ali, naquele corredor estreito de paredes descascadas, a “maluquice” de Pedro não era vista com o mesmo encantamento que a avó o via. Dentro da mochila, entre um caderno de desenho amassado e um resto de merenda, estava o relatório solicitado pela escola. Ela precisou lutar por meses para consegui-lo. É assim, como acontece com tantas outras crianças, que o caminho de Pedro começa a ser reescrito pelos termos técnicos, laudos e carimbos, em uma busca constante por enquadrar e por nomear o que, até então, era apenas o jeito dele de ser.
Essa cena, comum em tantas escolas, marca o início de uma trajetória atravessada pela medicalização da vida. Tal fenômeno ocorre quando questões comuns do dia a dia, que antes eram entendidas como parte da experiência humana, da cultura ou da sociedade, passam a ser tratadas exclusivamente como problemas médicos. Vivemos em um tempo em que dilemas profundos, com raízes em desigualdades sociais e políticas, acabam reduzidos a simples explicações cerebrais.
Em vez de acolher o contexto das crianças, a lógica atual prefere focar na correção rápida de comportamentos. Nesse percurso, o diagnóstico, longe de ampliar possibilidades para o cuidado, torna-se um instrumento de exclusão, especialmente, quando a vida da criança passa a se resumir a exaustivas horas de terapia, afastada de vivências essenciais como brincar, a invenção e o devaneio pilares de uma infância vivida fora do ambiente clínico.
Por uma outra concepção de cuidado
É justamente no contraponto ao isolamento clínico que se fundamenta a lógica dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi), que são serviços especializados no acolhimento e cuidado em Saúde Mental, integrados ao Sistema Único de Saúde (SUS), abertos à comunidade. A proposta desses locais nasce como resposta a um modelo antigo de atenção à saúde mental, marcado por práticas violentas e excludentes.
Diante disso, a Política de Saúde Mental, coordenada pelo Ministério da Saúde, reúne estratégias e diretrizes para organizar a assistência às pessoas em sofrimento psíquico, incluindo quadros graves e persistentes. É nesse contexto, também atravessado pela crescente medicalização e pela fragmentação de experiências antes vividas como parte da vida comum, que os CAPS e os CAPSi apontam para outra direção possível. Longe de serem apenas uma alternativa ao modelo centrado no diagnóstico e no isolamento em consultórios especializados, tais serviços se tornam uma resposta necessária para garantir que o cuidado não signifique o fim da infância.
Ao levar o cuidado para onde a vida de fato acontece, como a escola, a casa, a rua, CAPS e CAPSi desafiam a ideia de que a infância deve ser limitada a rótulos de diagnósticos e tratamentos isolados. Em vez de tentar adequar a criança a padrões de comportamentos, esses serviços apostam no que é essencial, o vínculo e o direito de pertencer. Assim, o cuidado deixa de ser um protocolo técnico em uma sala fechada para se tornar uma experiência de convivência e um direito fundamental à vida em comunidade.
O que ainda não foi superado
Embora os CAPS e CAPSi sejam algumas das maiores conquistas da Reforma Psiquiátrica Brasileira, o preconceito em torno da saúde mental ainda resiste. Nas redes sociais, piadas e a desinformação, muitas vezes transformadas em tendência, banalizam o sofrimento psíquico e acabam afastando quem precisa de ajuda dos serviços de cuidado.
Os centros de saúde mental são resultados de anos de luta e resistência em defesa do cuidado em liberdade, da valorização da subjetividade e do respeito à integralidade e à singularidade de cada pessoa. Para além de um serviço em saúde, eles representam uma aposta coletiva frente à outras formas de cuidar, que não aprisionam, não reduzem, tampouco silenciam o sujeito.
Portanto, reafirmar a importância desse espaço é também defender a infância, o território e o direito de existir em sociedade. O cuidado em saúde mental não é tarefa individual, mas, sim um compromisso compartilhado que se constrói no dia a diae, principalmente, na forma como escolhemos acolher as diferenças.
Vanessa Gonçalves é mestre e doutoranda em Saúde Coletiva (IMS/UERJ)
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Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

