Observatório das Metrópoles nas Eleições da Paraíba

Há mais de 25 anos o INCT Observatório das Metrópoles vem trabalhando sobre os desafios metropolitanos colocados ao desenvolvimento nacional através da sua rede de pesquisa, organizada em 18 núcleos regionais. Esta coluna se relaciona com os esforços atuais da nossa rede de reflexão e incidência sobre as Eleições 2024, visando contribuir para um futuro urbano mais justo e sustentável das cidades que compõem as aglomerações urbanas de João Pessoa e Campina Grande.

Governança Urbana: é preciso estar atento e forte

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“Falar de Governança Urbana […] é fazer uma espécie de chamamento para que diferentes atores (institucionais e não institucionais).” | Crédito: Reprodução.

Para as próximas eleições, a população precisará estar atenta e forte para resistir aos perigos

Por Glenda Dantas Ferreira*

Décadas atrás, a música Divino Maravilhoso, interpretada por Gal Costa, chamava a atenção para a necessidade de a população estar atenta e forte frente aos perigos de viver em um regime repressivo e ditatorial, mas acima de tudo para a importância de resistir. Por mais que existam adversidades, há uma beleza intrínseca no ato de lutar pela justiça e pela liberdade. A expressão “divino maravilhoso” nos aponta para a necessidade de reconhecer a relevância de cada contexto histórico específico, mesmo em face das suas dificuldades.

Tomando de empréstimo tal análise da música para se refletir acerca das nossas cidades, primeiro é possível dizer que é preciso estar atento e forte. Segundo, nem tudo é divino, e nem tudo é maravilhoso, logo a sociedade precisa “reconhecer” o seu “divino maravilhoso” como ponto de partida para a conscientização e para a ação.
 
Com relação às cidades, pode-se dizer que elas continuam passando por transformações de diversas ordens (econômicas, sociais, culturais, políticas, institucionais), as quais, em sua grande maioria, têm afetado negativamente a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas, e comprometido o desenvolvimento dos seus territórios. 

Assim, e considerando que aproximadamente 55% da população mundial vive em cidades, sendo esse percentual cerca de 85% no Brasil, nos parece evidente que um conjunto de desafios, mas também de oportunidades, estão postos para os gestores locais, em particular quando se considera a questão da Governança Urbana no quadro que está posto para as políticas urbanas em face da Nova Agenda Urbana (ONU-Habitat) e dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS-ONU).

A UN-Habitat define governança urbana como o processo por meio do qual tanto os governos nacionais quanto os subnacionais, assim como as partes interessadas, decidem, de forma coletiva, como planejar, financiar e gerenciar áreas urbanas (NAU, UN-Habitat, 2020).

Falar de Governança Urbana – atualmente, e ainda mais considerando o horizonte futuro que se avizinha – é fazer uma espécie de chamamento para que diferentes atores (institucionais e não institucionais) possam se unir em função de interesses, propósitos e objetivos comuns a partir da ativação de recursos, competências, capacidades e habilidades diversas com vistas a intervir na complexidade da sociedade, de uma forma geral; e nas políticas urbanas e metropolitanas, de maneira particular.

Nessa perspectiva, toma-se como referência a seguinte definição da UN-HABITAT acerca dos princípios e da governança urbana: tomada de decisão transparente; participação e inclusão; subsidiariedade e proporcionalidade; cooperação e eficiência e digitalização e gestão do conhecimento. A governança urbana tem as seguintes ações ilustrativas:  governança multinível; governança metropolitana; engajamento das partes interessadas e capacidade fiscal e de recursos humanos (NAU, UN-Habitat, 2020).

Nesse contexto, tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis (ODS 11) nos parece ser algo que requer uma Governança Urbana atenta e forte. De um lado, atenta, por exemplo, às diferentes problemáticas sociais, ambientais, políticas, econômicas e físico-territoriais que afetam sobremaneira as nossas cidades e populações. De outro, precisa-se que a Governança Urbana seja forte não apenas para dar contar dessas problemáticas, como também para estruturar modelos de planejamento e gestão urbana que suportem, efetivamente, políticas de Estado, e não de governo. Políticas capazes de serem operacionalizadas em diferentes escalas de ação (intraurbana, urbana e metropolitana, por exemplo) e que estejam orientadas a partir da tríade planejamento – desenvolvimento – território. Enfim, políticas que concorram efetivamente para o alcance da justiça social nas cidades.

A Governança Urbana precisa estar alicerçada em capacidades governativas que consigam orientar os diferentes territórios a partir da mobilização de um conjunto de ativos, instrumentos (econômico-financeiros, por exemplo) e recursos políticos-institucionais, com vistas à promoção do desenvolvimento urbano e metropolitano. Em particular, se considera a existência de problemas, funções e serviços de interesse comum aos municípios na escala metropolitana.

Ora, não temos tempo – menos ainda os governos municipais – de “temer a morte”, e menos ainda de ignorar o fator metropolitano como algo concreto, expressão de processos socioespaciais, econômicos e políticos, e não apenas como um mero formalismo institucional, que afeta negativamente a qualidade de vida nas cidades e o seu processo de desenvolvimento.

Diante desse quadro, parece ser ponto pacífico que há a necessidade de aprimorar e de fortalecer a legislação urbana, como meio para promover inflexões no tratamento da questão urbana, em que pese a urgente necessidade de lidar com o retrocesso ocorrido no período recente na formulação e na implementação das políticas habitacional e urbana. Tal retrocesso resulta diretamente da lógica eminentemente econômica, rentista e privatista que, além de resultar no desalinho entre essas políticas, concorre para o não cumprimento de princípios e de diretrizes que estão claramente postos no Estatuto da Cidade e na Política Nacional de Habitação de Interesse Social.

Para as próximas eleições, a população precisará estar atenta e forte para resistir aos perigos inerentes a gestões que no discurso – às vezes sutil, outras nem tanto – e na prática defendem (e praticam) ações que tendem a levar ao aumento das desigualdades socioespaciais, à degradação do meio ambiente, à exclusão social, à não efetivação de direitos sociais básicos e à desconstrução de canais e espaços de participação social.

As eleições municipais que se avizinham são, portanto, uma importante oportunidade para as futuras gestões buscarem desenvolver estratégias de ação que favoreçam a participação social, a gestão (inter) urbana alicerçada em práticas de cooperação horizontal e vertical, bem como o planejamento e gestão em uma perspectiva multiescalar e intersetorial. 

Na prática, os governos municipais precisam lançar mão – de maneira atenta e forte, e não apenas de forma meramente “protocolar” – de instrumentos como o Estatuto das Cidades, em que pese a sua enorme relevância no que tange às orientações acerca da promoção de um modelo de desenvolvimento mais democrático e sustentável.  Além disso, os governos locais devem instituir e/ou robustecer mecanismos direcionados ao fortalecimento dos canais e dos espaços de participação social, com vistas ao aperfeiçoamento da governança urbana. 

Fortalecer a governança urbana passa, necessariamente, pela compreensão das dinâmicas socioespaciais, econômicas, culturais e político-institucionais que ocorrem nas diferentes espacialidades, sobretudo, nas escalas urbana e metropolitana, assim como pela adoção de estratégias de ação que possam lidar com tais dinâmicas. Uma vez mais, torna-se necessário atentar para instrumentos como o Estatuto da Metrópole, a fim de tomá-lo – não de maneira isolada, mas relacionado com outros instrumentos – como uma importante referência no sentido de se alcançar progressos em relação à estruturação de uma política urbana capaz de dialogar com o federalismo brasileiro. 

Nesse sentido, o desafio de promover a cooperação interfederativa ainda se faz fortemente presente, o que torna ainda mais complexo o alinhamento entre a política urbana e suas interfaces com as políticas regionais. Mesmo assim, e uma vez mais considerando as eleições municipais que se aproximam, entende-se que os futuros (as) gestores (as) eleitos (as)/reeleitos (as) podem fazer uso de instrumentos como o Plano Plurianual Participativo para prever programas, ações e recursos no sentido de fortalecer a governança urbana. Isso passa por incorporar, no processo de planejamento governamental, diagnósticos e estratégias de ação que consideram as diferentes escalas.

Além disso, é fundamental a estruturação de políticas, programas e projetos direcionados ao enfrentamento de problemas exclusivamente locais, mas também daqueles supralocais, em particular os problemas de interesse comum. Aqui é essencial que as futuras gestões criem e/ou aperfeiçoem os meios de potencializar a cooperação interfederativa, essencial para a realização de um planejamento/gestão coletiva das políticas públicas.

Enfim, o “divino maravilhoso” parece nos dar fortes indícios de que ter uma adequada governança urbana passa, indispensavelmente, pela conscientização e ação por parte da sociedade. E, como já dito, as eleições municipais que se avizinham poderão vir a configurar um momento histórico ímpar no sentido de transformação das cidades e de sua governança com vistas à efetiva melhoria da qualidade de vida da população e ao desenvolvimento dos diferentes territórios. 

*Glenda Dantas Ferreira é professora do Departamento de Gestão Pública (DGP/UFPB) e do Programa de Pós-graduação em Gestão Pública e Cooperação Internacional – PGPCI/UFPB e pesquisadora do Observatório das Metrópoles – Núcleo Paraíba.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato PB.

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Editado por: Carolina Ferreira

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