Observatório das Metrópoles nas Eleições da Paraíba

Há mais de 25 anos o INCT Observatório das Metrópoles vem trabalhando sobre os desafios metropolitanos colocados ao desenvolvimento nacional através da sua rede de pesquisa, organizada em 18 núcleos regionais. Esta coluna se relaciona com os esforços atuais da nossa rede de reflexão e incidência sobre as Eleições 2024, visando contribuir para um futuro urbano mais justo e sustentável das cidades que compõem as aglomerações urbanas de João Pessoa e Campina Grande.

De carona com a tecnologia: os impactos dos aplicativos de mobilidade no cotidiano

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“Embora se reconheça o avanço tecnológico que os aplicativos representam na mobilidade urbana, existem aspectos tanto positivos quanto negativos nessa relação.” | Crédito: Foto: Bruno Barbosa.

É importante ampliar a discussão sobre as condições de acesso à alternativa de transporte por App

Por Bruno Barbosa* e Demóstenes Moraes**

A superpopularização dos aplicativos de mobilidade nos espaços urbanos vem sendo responsável por produzir mudanças significativas na forma que os cidadãos se deslocam na cidade. O fácil e rápido acesso a um veículo particular torna possível que viagens, que outrora seriam demoradas e onerosas, se tornem relativamente rápidas e cômodas. 

Outro fator que garante a ampla difusão do serviço, é a redução do tempo de deslocamento e o acesso a informações em tempo real sobre rotas e horários. 

Os aplicativos relativos a esses serviços de transporte contam com outras facilidades como o pagamento eletrônico e veículos de tipos diferentes e alguns adaptados, promovendo a acessibilidade e facilitando a locomoção considerando as diferentes demandas. Entre elas, é importante destacar as das mulheres que buscam motoristas do sexo feminino.

Além das vantagens mencionadas, é possível, para quem tem acesso aos aplicativos, realizar uma comparação dos preços entre os diversos prestadores desses serviços. 

Os preços podem ser acessíveis e os serviços podem oferecer alguma qualidade a parte expressiva da população, com variações em função de eventos e condições específicas de tráfego. Porém, o que normalmente não é tão falado é o impacto pouco visível que esse tipo de tecnologia e de serviço pode ter: inicialmente, é importante destacar a desigualdade de acesso em vários âmbitos relacionados aos aplicativos.
 
Assim, dificuldades na conexão com a internet para solicitação do serviço assim como de acesso a um smartphone podem representar obstáculos para pessoas que não possuem esses aparelhos ou não são digitalmente incluídas, especialmente os segmentos da população com rendimentos mais baixos e a população idosa. 

Outra exclusão a evidenciar refere-se a territórios nas cidades que são evitados pelos motoristas desses serviços por aplicativos, como os bairros, favelas e assentamentos populares, ocupados predominantemente por população de baixa renda.

Outra exclusão a evidenciar refere-se a territórios nas cidades que são evitados pelos motoristas desses serviços por aplicativos, como os bairros, favelas e assentamentos populares, ocupados predominantemente por população de baixa renda. Estes territórios podem ser evitados pelos motoristas devido à percepção de insegurança e à estigmatização dessas áreas como perigosas ou problemáticas, agravando a exclusão dos moradores dessas regiões. Em Campina Grande (PB), bairros como Conceição, Nova Brasília (Glória), Pedregal, Jeremias Araxá, Quarenta, Jardim Continental, Mutirão e Serrotão são frequentemente alvos dessa classificação por parte dos motoristas, onde o serviço, tanto embarque quanto desembarque é mais cauteloso, ocasionando mais dificuldades dos usuários para solicitação do serviço.

Outra questão refere-se às condições dos prestadores de serviços, que são precárias quanto a condições de trabalho, mesmo com algum avanço recente na organização da categoria no Brasil. A falta de proteção ligada à informalidade da profissão e à ausência de direitos e proteções legais deixam os motoristas expostos e vulneráveis. 

A insegurança financeira, a desvalorização da profissão e os desafios ligados à saúde por uma carga horária de trabalho extensa são apenas alguns dos desafios enfrentados por esses trabalhadores. Questões que se tornam ainda mais significativas quando relacionados a questões de gênero, visto que a participação das mulheres motoristas em aplicativos cresce no nosso país. 

Tal precariedade nas condições de trabalho é contrastada pela alta lucratividade das empresas de aplicativos que gerenciem os serviços e, obviamente, essas condições inadequadas afetam a qualidade dos serviços prestados.

Vale registrar, ainda, que proprietários de empresas concessionárias de transporte coletivos têm reclamado da concorrência e da diminuição da demanda. Em Campina Grande e outras cidades, a redução da frota no período pandêmico resultou numa diminuição de passageiros, o que impactou diretamente a receita das empresas de transporte coletivo e abriu espaço para a concorrência com aplicativos de transporte.  

Se os serviços de transporte coletivo não têm atendido de forma suficiente e adequada todos os territórios dos aglomerados urbanos e metrópoles, em especial os populares e periféricos, com essa concorrência, é possível que a tendência à concentração em regiões e setores mais rentáveis se acentue.

Outros pontos preocupantes são o aumento no número de veículos particulares deslocando-se ao mesmo tempo em determinados setores das cidades, gerando congestionamentos, retenções dos fluxos dos transportes coletivos e poluição. É importante considerar que não há formas para integrar tais serviços por aplicativo com estes transportes.

Embora se reconheça o avanço tecnológico que os aplicativos representam na mobilidade urbana, existem aspectos tanto positivos quanto negativos nessa relação, sendo estes últimos capazes de agravar ainda mais as condições de acesso à vida urbana que pessoas em situação de pobreza e vulnerabilidade já se encontram. 

As dificuldades de acesso ao serviço de transporte por aplicativo, a exclusão de parte da população e a precariedade das condições dos prestadores desses serviços não permitem perceber essa alternativa, apesar de ter ampliado significativamente a opção de deslocamentos nas cidades para uma parcela da população. Esses aspectos não são apenas uma alternativa de deslocamento, são também um direito básico de se deslocar e se apropriar da cidade, sendo parte do direto à cidade.

No contexto das eleições municipais, é importante ampliar a discussão sobre as condições de acesso à alternativa de transporte por aplicativo que, de maneira ampla, está relacionada às desigualdades e discriminações socioterritoriais, ao acesso aos meios técnico-informacionais e digitais e às condições de trabalho dos prestadores desse tipo de serviço. 

Iniciativas públicas como a do município de Araraquara (SP), com uma plataforma digital municipal para esses tipos de serviço, com melhores condições para os trabalhadores, devem ser debatidas. Mas é necessária uma perspectiva abrangente e integrada tendo em vista os diversos e relevantes aspectos relacionados ao serviço: a ampliação de acesso público à internet; a inclusão digital; a regulação da atuação das empresas e prestadores de serviços de transporte por aplicativo; os impactos negativos no trânsito e na mobilidade das cidades da ampliação de circulação de veículos motorizados individuais; a segregação de territórios populares periféricos entre outros temas.

O contexto das eleições municipais é uma oportunidade para realizar o debate e discutir as alternativas em Campina Grande, cidade referência no Nordeste pelas inovações tecnológicas, que poderão ser pensadas e propostas de forma integrada a partir de várias experiências em curso para compor uma nova agenda pública municipal. O intuito seria o de buscar equilibrar a ampliação do acesso digital ao serviço por aplicativo com a eficiência, alcance e sustentabilidade na mobilidade urbana, sem abrir mão dos imprescindíveis investimentos no transporte público coletivo de qualidade e nas infraestruturas adequadas para os modos de transporte ativo. 

**Bruno Barbosa é arquiteto e urbanista pela Universidade Federal de Campina Grande e pesquisador do Observatório das Metrópoles – Núcleo Paraíba.

**Demóstenes Moraes é professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFCG; pesquisador do INCT Observatório das Metrópoles; integrante da Coordenação do FNRU e dos Conselhos do BrCidades e do Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico.

***Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato PB.

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Editado por: Carolina Ferreira

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