Medellín, capital do Departamento de Antióquia, na Colômbia, tem uma história recente que conjuga elementos de tragédia e recuperação. A cidade inteira sofreu, nas últimas décadas do século passado, uma onda de violência inaudita, envolvendo facções de narcotraficantes, forças policiais (muitas vezes exercendo repressão indiscriminada), milícias paramilitares e grupos guerrilheiros diversos. A vida econômica e cultural de Medellín se viu severamente afetada, com muitas zonas urbanas bloqueadas para livre circulação, e os bairros populares foram os que mais sofreram. Nem é preciso dizer que a atividade turística desapareceu por completo. Decadência e anomia tomaram conta do tecido social. Pobreza e violência imperavam. Aliás, qualquer semelhança com o Rio de Janeiro atual não é mera coincidência, embora em Medellín o processo tenha sido mais intenso e concentrado.
Uma das áreas mais afetadas da cidade foi a Comuna 13, em uma das íngremes encostas do extremo oeste da área urbana (Medellín fica em um vale cercada por altas montanhas), muito em função de sua posição geográfica, com acesso privilegiado a rotas de ligação rodoviária estratégicas para abastecimento, transporte e fuga. A história de vidas perdidas, massacres e famílias destroçadas é recorrente na região.
Contudo, após uma ação de repressão descomunal (a chamada “Operação Orion”), em 2002, a comunidade começou um doloroso, difícil, mas determinado processo de recuperação. Deve-se notar que, por mais paradigmático que tenha sido, essa luta por recompor laços e cicatrizar feridas trilhando passos completamente distintos dos até então percorridos, não foi exclusiva da Comuna 13. Pelo contrário, representou um gigantesco esforço capitaneado por áreas populares numa concertação de esforços que contou com decisivo apoio de agentes públicos, privados e comunitários locais e regionais. O governo nacional também contribuiu, em menor grau.

Comuna 13, Medellín: vista geral – Viator
O que se observa logo na chegada à Comuna 13 é uma comunidade plena de vida, energia e autoconfiança, orgulhosa de exibir sua resiliência e a força de sua cultura, na qual o hip hop cumpre um papel afirmativo de fomento do poder dos jovens. Essa pulsação cultural se expressa em dezenas de ateliês, murais coloridos, exibições de dança (breakdance), restaurantes típicos, artesanato em tecidos e telas de pintura, entre outros. São atividades executadas exclusivamente pelos habitantes locais, que também exercem a função de guias turísticos. Para aqueles viajantes acostumados ao fenômeno cada vez mais avassalador do turismo de massa em que tradições, cenários, centros históricos e monumentos são convertidos em parques temáticos comodificados, objetos do consumo alienante e instagramável, é reconfortante constatar que a viagem de lazer pode ser objeto de intercâmbio autêntico e prazeroso, pedagógico, em que uma cultura de paz e resiliência se impõe e provoca encantamento entre visitantes e a população receptiva. Nada de glamurização, mas reconhecimento do passado como uma etapa vivida e vencida na trajetória de lutas de um povo.
Importante ressaltar ainda que esse modelo de turismo não se presta à gentrificação – tão comum em tantas cidades do mundo -, pois o manejo dos recursos, a posse da terra e a execução das atividades está sob controle da comunidade e suas organizações de base.

Espaço de música e dança na Comuna 13, Medellín. Crédito da foto: Ricardo Gaspar
O protagonismo popular é onipresente. Conversei com locais sobre a possibilidade de um conhecimento recíproco direto entre comunidades brasileiras e de Medellín (da qual a Comuna 13 é a mais expressiva, mas, repito, longe de ser a única), provocando excitação entre os presentes em só imaginar a riqueza da troca entre a música e a poesia que brotam das manifestações artísticas brasileiras com a de nossos irmãos colombianos. Aqui nos sentimos acolhidos, em casa.
Aliás, o Brasil deveria implantar um programa de turismo social de base comunitária nesses moldes. O fomento ao associativismo, à autogestão e ao empreendedorismo se insere nos melhores princípios da Economia Solidária.
O acesso à Comuna 13 – e a outras comunidades urbanas de Medellín – é muito fácil, e se dá pela rede de metrô, conectada, em muitos casos (mas não na Comuna 13), com sistemas de teleféricos que saem das mesmas estações do metrô e utilizados com a mesma passagem, como no caso do nosso bilhete único.
São cerca de 20’ de metrô da Plaza Botero, no centro, até a estação de metrô San Javier, a mais próxima do destino, de onde partem micro-ônibus a cada 10’ para a base da montanha. Dali saem as caminhadas guiadas – no modelo dos “free walking tours” – e os principais acessos, propiciados por um sistema de escadas rolantes (construído pela cooperação com engenheiros franceses e também com chineses de Hong Kong, que opera algo parecido na Ilha Victoria) que nos levam às diversas praças, quadras e vielas onde se multiplicam as manifestações culturais. Os restaurantes são um capítulo à parte, com sus comidas típicas, nos quais predomina mais que a cozinha paisa (antioquenha, muito parecida com a nossa cozinha mineira), a culinária norteña da costa do Pacífico, baseada em frutos do mar e historicamente associada à população negra de origem africana que se instalou naquela região e migrou em grande número para Medellín décadas atrás.
Em suma, a Comuna 13 de Medellín propicia uma experiência viva, politicamente expressiva e inclusiva de algo raro no mundo massificado de hoje, isto é, um turismo de real benefício para as populações envolvidas. gerando renda e oportunidades de trabalho que reforçam poderosas mensagens de resistência, paz e protagonismo popular.
*Ricardo Carlos Gaspar é Professor do Departamento de Economia da FEA – PUC-SP e Pesquisador do Observatório das Metrópoles-Núcleo SP. Esteve em Medellín em agosto de 2025.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
