Os supermercados se tornaram hegemônicos no abastecimento alimentar. Do ponto de vista histórico, os supermercados, e, ainda mais, os atacarejos, são fenômenos relativamente recentes no arranjo do abastecimento alimentar e refletem uma dinâmica da vida urbana marcada pela compressão do espaço e do tempo, onde as formas de satisfação das necessidades devem ser escaladas, concentradas e reproduzidas de maneira a satisfazer primeiramente as necessidades do capital.
O setor supermercadista foi um dos que mais lucraram com a pandemia, mesmo com a queda da renda e da capacidade de endividamento da população.
Isso se deu por um conjunto de fatores, entre eles: o aumento da estocagem de alimentos pelas famílias; o aumento do número de refeições realizadas nos domicílios com o fechamento da maior parte dos bares e restaurantes; o fechamento temporário de feiras-livres e outras formas de abastecimento informal; o enfraquecimento dos arranjos locais como as mercearias; a busca por preços mais baixos devido ao aumento do preço dos alimentos – principalmente em atacarejos, onde são ofertados alimentos processados e ultraprocessados em preços mais baixos devido a sua capacidade de negociação-; e o aumento de seus canais de comercialização através do e-commerce.
Nesse sentido, os supermercados ganham novas dimensões na capacidade de ditar aquilo que comemos e queremos comer, enfraquecendo outras alternativas de abastecimento e contribuindo para o avanço da fome. Por meio do aumento abusivo e do controle do preço dos alimentos – e de doenças crônicas não-transmissíveis associadas à alimentação, um exemplo gritante: o aumento da oferta de ultraprocessados.
Contra resposta
Diante desse cenário, torna-se imperativo o fortalecimento de canais de abastecimento que fujam dessa lógica e que promovam uma outra relação entre a comida e os comensais, como é o caso das feiras-livres.
As feiras-livres são uma das mais importantes e antigas formas de abastecimento alimentar urbano, capaz de proporcionar não somente ingredientes e alimentos prontos para o consumo, mas também é um espaço de sociabilidade e troca.
Diferente dos supermercados, as feiras conseguem ter alimentos mais frescos e preços muito mais competitivos em relação a frutas, legumes e verduras, através do encurtamento de atravessadores e de uma relação mais próxima com quem produz.
Outro elemento importante das feiras é que elas provisionam uma maior variabilidade de alimentos in natura e minimamente processados.
Nos supermercados a variabilidade se dá no sentido dos alimentos ultraprocessados, onde é possível encontrar uma quantidade imensa de mercadorias que somente mudam alguma característica e opções bastante restritas de frutas, legumes, verduras, cereais, farinhas e condimentos.
As feiras também dão espaço para ingredientes e receitas tradicionais. Ervas e raízes medicinais, ingredientes locais e regionais convivem com as mais diversas preparações típicas de feira-livre.
Um confronto a lógica supermercadista
No Distrito Federal, a Feira do Bicalho, localizada em Taguatinga, uma das maiores e mais antigas do quadradinho, é exemplo disso. Nessa feira, é possível comprar todos os alimentos necessários para o consumo familiar, promovendo um espaço que humaniza as relações entre a comida e os comensais, construindo um lugar de pertencimento e partilha, girando em torno de uma alimentação mais socialmente referenciada.
A cultura e as raízes nordestinas que marcam a construção do espaço urbano do Distrito Federal são fortemente expressadas na oferta dos alimentos e preparações, tanto na Feira do Bicalho como em outras feiras-livres ou feiras permanentes, referências estas incapazes de serem realizadas no setor supermercadista.
Como pudemos observar, mesmo com o imperativo dos supermercados, as feiras-livres tem resistido a seu poderio, tendo a faculdade de qualificar a alimentação brasileira, fugindo da lógica da homogeneização dos hábitos alimentares.
Nesse sentido, falar hoje em uma mudança qualitativa dos sistemas alimentares, passa por compreendermos a necessidade de confrontar a lógica supermercadista do abastecimento alimentar, onde as feiras-livres têm um papel fundamental para a construção de uma nova relação com o alimento. .
* Olivio José da Silva Filho é gastrônomo, doutorando em Política Social pela Universidade de Brasília, militante do Levante Popular da Juventude e da Consulta Popular.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato – DF.