Pedro Alcântara

Professor, cientista político e vice-presidente estadual do PT em Pernambuco.

Guerra eleitoral: 2026 repetirá a baixaria de 2020 em Pernambuco?

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A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSDB), e o prefeito do Recife, João Campos (PSB), devem se enfrentar nas urnas em 2026
A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSDB), e o prefeito do Recife, João Campos (PSB), devem se enfrentar nas urnas em 2026 | Crédito: Hesídio Góes/Secom Governo de Pernambuco

A seguir assim, esta eleição se tornará uma batalha violenta de dossiês, detetives, xingamentos, baixaria e agressividade

As eleições de 2026 em Pernambuco prometem ser uma verdadeira guerra. A julgar pela temperatura do início do ano na disputa entre o grupo da governadora Raquel Lyra (PSD) e o do prefeito João Campos (PSB), o que aguarda o eleitor pernambucano é uma batalha campal aberta. Ambos os grupos estão numa escalada de hostilidades de parte a parte desde o segundo semestre do ano passado, intensificada com os escândalos do início deste ano.

O prefeito João Campos está sob pressão. Os dias de “político intocável” terminaram e ele enfrenta uma onda de críticas impulsionadas pelo mesmo espaço que o fez emergir como liderança promissora: a internet. Parece uma espécie de feitiço voltando-se contra o feiticeiro. O fortalecimento da oposição na Câmara tem papel central nisso, mas também uma rede de blogs e páginas críticas à sua gestão tem atuado de forma eficiente para usar as fragilidades de seu governo contra ele.

O ponto máximo desse processo ocorreu no apagar das luzes de 2025. O surgimento do escândalo do concurso público colocou o prefeito no centro de uma história sobre o suposto favorecimento do filho do juiz responsável por julgar investigações envolvendo possíveis desvios na prefeitura. Tudo isso em detrimento de um candidato legitimamente aprovado, portador de deficiência física, que foi limado para dar lugar ao filho de família abastada.

A oposição aproveitou bem o episódio e conseguiu ligar as pontas da teia de acontecimentos que parecem apontar, no mínimo, para coincidências estranhas, e, cá para nós, mal explicadas pelo prefeito. Tal episódio impactou a imagem e a credibilidade de um político até então acostumado apenas a elogios e confetes.

A campanha sobre o escândalo foi intensa, alcançou a mídia nacional e redundou num pedido de impeachment. Seguiu-se a ela uma série de denúncias que continuam a aparecer semana após semana, sobre contratos e ações apontadas como suspeitas por políticos e blogs da oposição.

O PSB respondeu na mesma moeda. Igualmente munido de uma oposição barulhenta, na Alepe, e de uma rede de apoiadores na internet e blogs simpáticos ao prefeito, o PSB tem intensificado denúncias contra a governadora Raquel Lyra. Duas ganharam destaque. A primeira foi sobre irregularidades envolvendo a empresa de ônibus ligada à família da governadora. O caso gerou polêmica e também redundou num pedido de impeachment. Mas não foi o escândalo principal.

Semanas depois, a governadora foi acusada de perseguir adversários políticos através da estrutura da Polícia Civil, um órgão de Estado. O caso veio à tona através de denúncia numa reportagem da TV Record e o caso também segue mal explicado. Interessado em se consolidar no público progressista/lulista, o prefeito e seus apoiadores logo lançaram mão do discurso “democracia x ditadura” e acusaram espionagem por parte do governo.

De fato, o que ocorreu foi grave e não pode ser normalizado. Mesmo que a polícia tenha prerrogativa de investigação, não é aconselhável operar com rastreadores e com a intensidade revelada contra qualquer cidadão. No fogo cruzado que tomou conta da disputa, a governadora viu cair no seu colo uma acusação com potencial explosivo tão grande quanto a da suposta fraude no concurso, dirigida contra seu adversário.

Nessas idas e vindas de acusações, escândalos, espionagens, pedidos de impeachment e guerra declarada entre os grupos em Pernambuco, preocupa muito que métodos clandestinos tomem conta da disputa eleitoral. Suposta espionagem da polícia de um lado, invasão de um e-mail de ex-secretário de Raquel Lyra de outro. A seguir assim, esta eleição se tornará uma batalha violenta de dossiês, detetives, xingamentos, baixaria e agressividade.

É preciso que ambos os grupos botem o pé no freio. Caso contrário, entrarão numa disputa autodestrutiva, que pode deixar o vencedor e o perdedor nas urnas com feridas expostas tão feias que no final a derrota política será de ambos.

Ao que tudo indica, 2026 deve repetir e superar a eleição de 2020 no Recife, uma das mais violentas da história da redemocratização no nosso estado. João Campos também foi o protagonista daquela batalha e, embora ele pregue sempre a “paz” e a “cordialidade” em seus discursos, a repetição desse padrão começará a ser usado para desmentir sua alegada propensão ao pacifismo.

Em 2020, o PSB disputou o 2º turno contra o PT na capital e o que se viu foi um show de horrores. Numa das campanhas antipetistas mais violentas da história do país, grupos contrários à candidatura petista espalharam panfletos apócrifos pela cidade disseminando fake news rasteiras sobre as crenças religiosas da candidata do PT. Mas não parou por aí.

A candidatura de João Campos passou a acusar Marília Arraes, então no PT, de supostos crimes não comprovados, com direito a um áudio vazado de um assessor/espião de outro deputado que comentou o caso. Na propaganda eleitoral do PSB, o partido do presidente Lula era retratado como corrupto e suas lideranças nacionais eram acusadas de quererem “tomar o Recife”. As lideranças petistas que, nas palavras do prefeito à época, em debate na Rádio Jornal, “o Brasil conhece bem e repulsa”. O clima criado por essa candidatura fez do 2º turno na capital uma verdadeira guerra e exemplo de baixaria e má conduta diante de todo o país.

Desta vez, porém, a coisa promete ser pior, pois diferente do palanque petista de 2020, a atual adversária do PSB está exercendo o cargo de governadora, possui muito mais estrutura e um exército de apoiadores que estão com uma lupa grande apontada para a prefeitura e dispostos a irem ao campo de batalha com paridade de forças – ou até mais fortes. Agora o páreo será duro e o critério de justiça promete ser “olho por olho, dente por dente”.

Quem perde com isso é o povo de Pernambuco, refém de uma violência política de parte a parte que vem ignorando até aqui o debate sobre os problemas reais da nossa gente. Num estado com pobreza elevada, alto nível de desigualdade, problema crônico no abastecimento de água, no transporte público, na infraestrutura, na geração de renda, na violência, na saúde e na educação, o debate tomado por acusações e espionagens significa uma derrota para todos nós.

É preciso restabelecer a qualidade do debate democrático em Pernambuco este ano. Nosso estado esteve na vanguarda na luta pela redemocratização e não pode aceitar esse nível de disputa. A Justiça Eleitoral e o conjunto da sociedade precisam trabalhar para evitar uma escalada irracional na temperatura da disputa, para o bem de nossa democracia.

A disputa que nós queremos não é de dossiês e acusações, mas de guerra contra a fome, a pobreza e as desigualdades que os sucessivos governos que passaram por Pernambuco nos últimos anos não resolveram.

O eleitor de Pernambuco merece respeito e exige que seja a melhoria de sua vida, e não a cobiça pelo poder, o objetivo central da eleição para o Governo do Estado este ano.

Editado por: Vinicíus Sobreira

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