“Vocês aí dos prédios, vocês sabem o cheiro que essa cidade tem?”
Trecho do filme “Febre do Rato”, com roteiro de Hilton Lacerda e direção de Cláudio Assis.
Mais uma vez as fortes chuvas passam levando sonhos, causando destruição e fazendo subir o cheiro de morte nas comunidades pobres em Pernambuco. Desta vez, 8 pessoas morreram e mais de 9 mil ficaram desabrigadas. Foram várias cidades atingidas na zona da mata e na região metropolitana do Recife. O estado decretou estado de calamidade e ajudará 27 cidades, tentando remediar o estrago feito na vida de pessoas que da noite para o dia perderam tudo o que tinham.
Isso não é novidade em nosso estado. Em 2022, assistimos ao pior desastre climático do século em Pernambuco, quando morreram mais de 130 pessoas durante as fortes chuvas. Mesmo com toda a repercussão do caso, de lá para cá pouca coisa mudou estruturalmente. Em 4 anos foram quase 150 mortes e dezenas de milhares de famílias desabrigadas, que pioraram de vida, se tornaram ainda mais vulneráveis e recomeçaram o ciclo de busca por moradias nos únicos espaços urbanos disponíveis para quem não tem dinheiro: as encostas e os alagados na periferia.
O fato de nada considerável ter sido feito após a tragédia de 2022 deveria envergonhar a todos nós. Isso representa uma espécie de falência da nossa sociedade, incapaz de se comover e se mobilizar para garantir o mínimo a quem vive na periferia, ou seja, a garantia da própria vida.
Como vemos, trata-se de um problema crônico à espera de soluções estruturais. Um problema que não pode ser colocado na conta da chuva ou da natureza, mas que é fruto de ausência de vontade política. Quando o poder público não age de forma intensa e decidida para resolver graves problemas sociais, não surpreende a repetição dos acontecimentos.
Vamos direto ao ponto: na região metropolitana do Recife e nas zonas da mata as populações são reféns de um processo de urbanização marcado profundamente por graves desigualdades, que empurram os mais pobres para os piores solos das cidades. O interesse privado e das elites locais ocuparam à força os territórios mais valorizados. Pior: modificaram aspectos naturais para encaixar empreendimentos imobiliários, como o aterramento de áreas de rio e mangue. E fazem isso com apoio implícito ou explícito dos governos, que na eleição seguinte serão agraciados com vultuosas doações de campanha por parte dos grupos empresariais.
Na outra ponta, a população pobre, que vive no fundo dos grandes prédios, foi se aglomerando nos morros e alagados. A ocupação desordenada dos locais rejeitados pelas classes médias e ricas construiu um quebra cabeças de concreto, becos e ladeiras de difícil solução.
Para piorar, o Recife e sua região metropolitana, bem como a zona da mata, cresceram no entorno de rios e caudalosas bacias hidrográficas que, cada vez mais espremidas e violentadas, buscam espaço para escoar o volume de água. Durante as fortes chuvas, os rios sobem de nível rapidamente, rompendo as margens, desaguando nas casas erguidas no interior do ecossistema das águas e construídas por famílias cuja condição econômica não lhes permite outra solução habitacional.
Também nessas cidades há muitos morros. No Recife, por exemplo, apesar da fama de “planície”, 67% do território é composto por morros, onde se espremem as populações expulsas do desenvolvimento da cidade, relegadas às margens dos municípios e coabitando em comunidades que, de tão desarticuladas do centro e dos bairros desenvolvidos, acabam criando “minicidades” muito menos assistidas que a “cidade oficial”.
São universos próprios de sociabilidade e convivência com problemas urbanos nas comunidades rejeitadas pelo conjunto dos citadinos. Os altos prédios são erguidos de costas para os morros, ilustrando essa imagem de hostilidade e rejeição.
Quando a chuva chega, ela não cai num espaço vazio de história ou de intenção social e política. Ela cai em cidades construídas contra suas populações mais vulneráveis, contra seus rios, contra a convivência social e ambiental justas e racionais. Não é a chuva que provoca mortes, mas o tipo de cidade onde ela cai que faz isso. Por isso só morrem pobres, a maioria pretos e pardos.
A chuva não reconhece classe, raça ou gênero, mas a cidade sim, pois é feita a partir da luta de classes e das contradições entre elas. Não ter risco de morrer ou de perder tudo por conta das chuvas no Recife não é uma escolha da natureza perante alguns indivíduos, mas uma escolha da política e da sociedade.
Alguns elementos são centrais para a relação entre chuvas e letalidade na periferia. Primeiro, o grave problema da desigualdade. A região metropolitana de Recife está entre as três mais desiguais do país e entre as que mais concentram populações em condição de pobreza. Isso se expressa em muitos elementos, mas especialmente nas condições habitacionais.
Somente o Recife tem um déficit de mais de 70 mil habitações. Na região metropolitana esse número passa dos 100 mil. Mesmo assim, constatamos a gritante ausência de programas habitacionais robustos por parte das prefeituras e dos sucessivos governos estaduais.
No Recife, cresce o número de desapropriações, algumas delas ligadas à viabilidade de empreendimentos privados, outras para obras públicas, como pontes e viadutos. O baixo valor das indenizações e do auxílio moradia leva parte das famílias desalojadas a buscarem habitações em lugares vulneráveis. Para alguns estudiosos, o número de habitacionais do Minha Casa, Minha Vida nos últimos quatro anos, no Recife, não cobre sequer o número de desapropriações realizadas na cidade. Estamos enxugando gelo.
Outro problema social grave é o saneamento. Pernambuco está entre os piores estados no acesso a esse bem fundamental. Cidades como Jaboatão estão entre as piores do Brasil na cobertura de saneamento. A falta de investimentos na companhia pública, a Compesa, dificulta até mesmo a manutenção de tubulações e outros equipamentos que acabam, em áreas de morros e alagados, contribuindo com vazamentos e o aumento do volume de água.
Basta chover mais forte que metade da população das grandes cidades da região metropolitana ficam sujeitas a todo tipo de contaminação e doenças. A recente privatização da Compesa não traz boas notícias quanto à resolução desse problema.
Uma grave questão é também o tratamento dos rios. As bacias hidrográficas que cortam a região metropolitana precisam urgentemente de uma ação integrada e vigorosa de requalificação. Em 2021, por exemplo, a prefeitura do Recife, por meio do decreto nº 34.543, retirou mais de R$ 5 milhões da “Requalificação dos Cursos de Água”, transferindo-os para o orçamento da comunicação. Em Olinda, a gestão passada chegou a recusar emendas que aumentavam os investimentos em áreas de encosta. Falta ao poder público encarar a questão com a gravidade que ela representa.
Além disso, os sucessivos governos estaduais também não enfrentam o problema de frente. É preciso um plano articulado e permanente de prevenção aos desastres socioambientais em Pernambuco, que unifique os protocolos em caso de risco de fortes chuvas, sobretudo na RMR e na zona da mata.
Passou da hora de o estado tratar este como um assunto central e articular, junto aos municípios, políticas robustas de prevenção. É necessário um programa estadual que trate o problema com a seriedade e urgência devidas, articulando políticas de moradia, defesa civil, saneamento, saúde, requalificação dos rios, parar com os despejos que deixam famílias sem lar, reajustar os auxílios-moradia e um regularção rigorosa do tecido urbano no trato com a especulação imobiliária.
Faz-se urgente um plano estadual de reassentamento de famílias que estão em áreas já catalogadas como “de risco de desabamento ou inundação”. Só no Recife há mais de 50 comunidades nessa condição, vulneráveis a desastres e à espera de uma solução por parte do poder público. É hora de estado e prefeituras agirem de forma robusta e integrada, em nome da vida e dos sonhos de milhares de pernambucanos que não aguentam mais passar pelo mesmo pesadelo todos os anos.
E, por último, nada impede os atores atuais de resgatarem boas experiências nessa área, programas que já deram certo no passado e poderiam voltar. O maior exemplo é o programa “Guarda Chuva”, criado em 2001, durante a gestão João Paulo (PT) no Recife.
O “Guarda Chuva” investia pesadamente na prevenção, na retirada de famílias de áreas de risco, integrava a Defesa Civil a várias políticas e promovia uma ação permanente nas áreas mais vulneráveis, articulando políticas de habitação, saúde — inclusive mental —, saneamento, urbanização e outras, fazendo do tema uma prioridade para o poder público. Além disso, prezava pela participação e escuta verdadeira das comunidades, que eram integradas às ações e também construíam essas políticas. Por que não recuperar esse programa tornando-o uma política de estado em Pernambuco?
Passou da hora de o poder público estadual e as prefeituras darem à questão a devida importância. Mas não só eles. Esse chamado vale para toda a sociedade. As classes médias e altas do Recife e região parecem não se importar com esse assunto. Fosse a chuva um caso de vida ou morte nas áreas privilegiadas das cidades a mobilização e cobrança seria intensa. Mas o que ocorre por trás dos prédios parece não mobilizar a todos.
É preciso afirmar mais uma vez que a vida de quem mora nos morros e alagados interessa ao conjunto da nossa sociedade. E é papel de todos cobrar soluções urgentes e permanentes para garantir vida digna a quem vive na periferia.
E cabe também um chamado à esquerda pernambucana, que parece adormecida nos últimos anos, refém da lógica eleitoral e sob o guarda chuva daqueles que por anos comandaram o estado e ainda comandam o Recife. Estamos reduzidos a alguns pequenos grupos que buscam fazer um debate crítico e aberto com a sociedade sobre a necessidade de outra agenda, que seja verdadeiramente democrática, participativa, que priorize os mais pobres, atenta às novas urgências climáticas e liberta das oligarquias familiares que tomam conta do nosso estado.
Uma autocrítica e mudança de rota dos setores progressistas é urgente, como é urgente voltar a sentir o cheiro da injustiça que exala dos mangues de uma das regiões mais brutalmente desiguais do país.
No inverno de 2027 nós não podemos estar aqui lamentando mais mortes, desaparecimentos e desalojamentos de famílias da classe trabalhadora, vítimas da cruel desigualdade do nosso estado e do descaso do poder público. Mobilizemos a sociedade, pressionemos os poderes constituídos. Afinal, a vida de quem mora nos morros e alagados importa.

