É muito comum que os saberes populares e ancestrais em sua essência sejam vistos como algo “sem dono”. E realmente não se trata de dono no conceito de propriedade privada da filosofia liberal. Se trata de ética, reconhecimento e respeito a todas as gerações que identificaram e compartilharam algo benéfico para toda a humanidade.
O mapa ancestro de muitos desses saberes se perdeu na história por inúmeros motivos. Um deles perpassa pela criação de narrativas coloniais que tiram o protagonismo dos povos originários, mas que, diante das possibilidades e um pouco de senso crítico e letramento, é possível desconfiar. É o caso da arnica-brasileira e suas variedades, que possuem propriedades anti-inflamatórias, analgésicas e cicatrizantes e que crescem de forma abundante em todas as regiões do Brasil e em outros países hermanos como Uruguai, Argentina e Paraguai. Porém, sua “descoberta” é atribuída por pesquisadores aos imigrantes italianos no século XVIII, em Minas Gerais.
Imagina pensar que os povos originários que já estavam nessas terras há milhares de anos antes da invasão portuguesa, que viveram e sobreviveram graças às tecnologias da natureza, nunca usaram essa planta como medicamento e que só souberam das suas propriedades medicinais após europeus a “descobrirem” no Brasil. No mínimo curioso.
Muitas plantas e suas variedades podem ser encontradas em diversos biomas pelo mundo, mas a forma como a relação entre elas e os humanos se estabelece em uma determinada região é única. É uma sabedoria adquirida por meio de muita ciência, que em seu conceito mais amplo é experimentação, observação, conclusões e repetições. Essa ciência é praticada muito antes da chegada da ciência moderna, que restringiu o conceito a ponto de reduzir e invisibilizar outros processos de construção do saber, mesmo que, muitas vezes, eles sejam o ponto de partida para as pesquisas atuais, como é o caso da ayahuasca e outras medicinas indígenas, como a secreção da kambô (perereca amazônica), os cogumelos mágicos, o peiote, o wachuma e etc.
Diferente da arnica-brasileira e tantas outras plantas nativas que fazem parte da farmacopéia indígena, mas que tiveram suas ‘descobertas’ apagadas ou não reivindicadas por inúmeros motivos, esses botânicos poderosos que caíram nas graças da ciência moderna e da branquitude ainda têm pulsante e vivos seus guardiões, que estão reivindicando protagonismo, respeito e ética na hora do uso dos seus saberes.
A Convenção nº 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), da ONU (Organização das Nações Unidas), de 1989, promulgada no Brasil em 2004, garante aos povos indígenas o direito de serem consultados sobre decisões que os afetem por meio da Consulta Livre Prévia Informada. A apropriação da ayahuasca, principalmente, pela ciência e pela indústria farmacêutica, sem essa consulta e respeito à resposta, é vista como uma violação desse direito, além de mais um estímulo ao processo de genocídio simbólico e material desses povos. Muitas pesquisas e desenvolvimento de medicamentos são realizados sem essa consulta prévia e nenhum tipo de contrapartida ou parceria verdadeira e inclusiva.
E mesmo com a criação de mecanismos internacionais para garantir esses direitos, as violações, amparadas pelas novas faces do colonialismo, só crescem no campo prático.
Substâncias essas que têm pedidos de patente no mundo todo e seu uso indiscriminado com direito a curso de aplicação de kambô no exterior muito bem remunerado, realizado por estrangeiros que passaram alguns dias em retiros e já se consideram especialistas no assunto. Pois nem se passassem cem anos em uma aldeia seria aceitável uma atitude como essa na atual conjuntura. Talvez, se passassem mais tempo ao lado dos povos indígenas e prestassem atenção ao que eles dizem além de só o que interessa, com certeza teriam outra postura.
Essa violação e a responsabilidade por seus danos se estendem a aventureiros que não curam nem frieira, mas armam seus circos xamânicos com playlists no Spotify que não passam no máximo de centros de extração energética que só fazem as pessoas enxugarem gelo e com grande probabilidade de adoeceram em esferas as quais elas nem imaginam numa recorrente dinâmica de cobertor curto: quando cobre a cabeça, descobre o pé. A aparente cura chega de um lado e a doença do outro. Como disse um indígena sobre esse tema durante a Conferência Indígena da Ayahuasca neste ano: “a doença e a morte chegam devagar”.

Isso quando não colocam os rituais nativos num lugar de selvagem e arriscado. E assim vão criando ambientes pasteurizados os quais, no auge da arrogância, acreditam estar sob total controle. Vide a quantidade de cursos de dirigente e fiscal oferecidos por aí. Imagina ostentar na parede de casa ou do centro xamânico um diploma de formação desse? Esse certificado é o verdadeiro ouro de tolo.
Então, antes de falar que ayahuasca não tem dono, que ayahuasca é do planeta e afins, pensa no quão colonial e violento é esse pensamento e no que ele é capaz de fomentar. É cada manobra que fazem para retirar esse saber dos povos indígenas. Tem gente por aí dizendo que os templários usavam ayahuasca e por isso devem ser honrados. Querem honrar os templários, mas não honram o irmão indígena ao lado, que está sendo esmagado pelos garimpeiros e grileiros, ameaçado pelas facções criminosas, banidos de seus territórios na base do tiro.
Esse papo de usar a cura como justificativa para tudo, até para violações dos direitos humanos de um grupo em estado de vulnerabilidade é coisa de gente sem noção. Cura de quem? Quero ver alguém batendo na porta de uma farmacêutica gritando que os medicamentos que produzem e que podem ser decisivos na vida de alguém são “do planeta”. Tem um medicamento chamado Zolgensma que custa R$ 7,6 milhões. Cadê a mobilização dos paladinos da cura do planeta a qualquer custo?
E antes que alguém diga: ” Ahh, mas os indígenas…” eu falo: a relação dos indígenas com seus saberes deve ser observada, sim, mas saibamos nosso lugar nessa história, que, com certeza, não é o de protagonista e nem o de acusador. O processo de autocrítica já ocorre em vários espaços. Deixemos de ser intervencionistas. O debate sobre o uso ético dessas medicinas deve ser liderado pelos próprios indígenas, enquanto a sociedade não-indígena precisa refletir sobre a maneira como lida com essas práticas, evitando o neocolonialismo e a exploração desses conhecimentos.
* Caroline Apple é jornalista há quase 20 anos com passagem por alguns dos principais veículos do Brasil, abordando, principalmente, temas relacionados aos Direitos Humanos, como a causa indígena. É uma das primeiras jornalistas no país a se especializar na cobertura de cannabis para fins medicinais. Daimista, ayahuasqueira e psiconauta, Carol é influenciadora digital sobre temas relacionados à espiritualidade e ao autoconhecimento com ênfase no uso da ayahuasca em contexto urbano.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.