Psicodelia Brasileira

Um espaço dedicado à valorização da interface brasileira do universo das bioculturas, dos psicodélicos e dos estados ampliados de consciência. A primeira coluna exclusiva sobre o tema escrita por uma mulher no Brasil.

Caroline Apple é jornalista há quase 20 anos, com passagem por alguns dos principais veículos do país. Sua trajetória é marcada pela cobertura de temas ligados à política e aos Direitos Humanos, com ênfase nos últimos 10 anos na causa indígena e nas disputas culturais, políticas e simbólicas em torno das bioculturas e dos psicodélicos. É uma das primeiras jornalistas no Brasil a se especializar na cobertura da cannabis para fins medicinais.

Especialista em Antropologia pela FESPSP, Caroline pesquisa e escreve sobre espiritualidade, uso ritual da ayahuasca e seus atravessamentos no contexto urbano contemporâneo. Daimista e ayahuasqueira, atua na produção de reflexão crítica sobre espiritualidade, poder, ética e pertencimento no seu perfil no Instagram.

Instagram: caroline_apple

Hijas del Sur: Mulheres querem reescrever a ‘Renascença Psicodélica’ a partir do Sul Global

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Entre as vozes da rede, há um consenso: a “renascença psicodélica” corre o risco de repetir a colonialidade que diz querer curar.

Há uma cena que se repete com frequência nos congressos internacionais sobre psicodélicos: auditórios cheios, telas reluzentes, homens brancos de meia-idade empolgados com dados, gráficos e protocolos clínicos. A psicodelia contemporânea, rebatizada de “renascença psicodélica”, costuma se apresentar como o novo fronte da ciência ocidental voltada para o estudo da mente. Mas algo está se deslocando no Sul.

O deslocamento tem nome, rosto e sotaque: Hijas del Sur é um projeto que surge como uma rede interdisciplinar de mulheres latino-americanas que decidiram reivindicar um espaço próprio dentro desse campo ainda dominado por vozes masculinas e narrativas do Norte Global. Mais do que um grupo de pesquisa ou uma plataforma de diálogo, o Hijas del Sur se propõe a ser um gesto político, uma tentativa de reorientar o olhar da psicodelia contemporânea a partir das do olhar das mulheres e de forma decolonial e comunitária do Sul Global.

“Reconhecemos, honramos e respeitamos as ciências originárias e ancestrais e buscamos tomá-las como norte na promoção de diálogos horizontalizados com as ciências ocidentais”, diz Keronlay Machado, terapeuta ocupacional, psicanalista e doutoranda em Saúde Mental no Programa de Estudos e Assistência ao Uso Indevido de Drogas, da UFRJ, e membra efetiva da Associação Psicodélica do Brasil (APB). 

“A Hijas del Sur nasce como uma rede de mulheres e para mulheres, tecida com o propósito de elevar essas vozes femininas que se relacionam com as bioculturas e os psicodélicos nos mais diversos contextos”, afirma a terapeuta.

Machado fala em bioculturas, termo que vem ganhando força no Brasil a partir dos organizadores do Fórum Mundial da Ayahuasca, como alternativa a “psicodélico”, “enteógeno” ou “alucinógeno”. A palavra carrega a intenção de reconectar plantas e fungos expansores de consciência aos contextos culturais e espirituais que os sustentam há séculos, fugindo das traduções coloniais que separam natureza e cultura, corpo e espírito e ciência e tradição.

O Sul como Norte

O texto de fundação da rede já começa com um diagnóstico contundente: “Enquanto países como o Brasil vêm despontando como um dos epicentros da renascença psicodélica, vemos ainda mais latente a importância de afirmar o Sul como nosso Norte.”

A frase sintetiza uma nova forma de pensar. Em vez de importar paradigmas de pesquisa, protocolos terapêuticos e discursos biomédicos gestados nos laboratórios de grandes universidades ou nos fundos de investimento das bolsas de valores mundo afora, a Hijas del Sur propõe olhar para o Sul Global a partir das mulheres do território como fonte de orientação, isto é, trazendo perspectivas pouco adotadas em pesquisas e no fazer político do campo.

Não é apenas uma questão de geopolítica do conhecimento, mas de cura e justiça. Como lembra a carta, é no Sul que se encontram povos e culturas cujos usos tradicionais de plantas e fungos resistem há milênios, atravessando colonizações, proibições e genocídios. A chamada “renascença psicodélica” ocidental, com seu marketing de bem-estar e performance, só é possível porque há uma base de saberes, corpos e territórios que historicamente foram explorados e silenciados, sobretudo os corpos femininos racializados. 

Mulheres guardiãs

Para Machado, que atua há 16 anos na saúde mental pública orientada pela redução de danos, as mulheres têm sido guardiãs invisíveis desses saberes e práticas, tanto nas medicinas tradicionais quanto nas novas terapias urbanas com substâncias psicoativas.

“A Hijas del Sur é uma iniciativa da sociedade civil, sem fins lucrativos e de caráter educativo. Surge para tecer pontes e reunir mulheres que atuam com bioculturas e outras substâncias em múltiplos contextos, desde as medicinas tradicionais até as terapias integrativas urbanas”, explica a terapeuta, que destaca a participação da psicoterapeuta e educadora psicodélica Tábata Gerk, que, apesar de ter seguido por outros caminhos, é parte importante na criação do projeto, segundo o grupo.

Em tempos de mercado psicodélico em expansão, com startups patenteando moléculas e laboratórios disputando patentes, a proposta da rede é um contraponto ético e político. Enquanto o Norte corporativo transforma a experiência visionária em produto, uma resistência feminista e comunitária vinda da América Latina tenta relembrar que cura não é mercadoria, e sim relação.

Quem também ajuda a desenhar essa virada é Paulina Valamiel, doutora em sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mulher lésbica, ayahuasqueira e pesquisadora das dinâmicas de gênero na globalização da ayahuasca. Atualmente, ela desenvolve um projeto como pesquisadora colaboradora da Universidade Federal do ABC (UFABC) sobre mulheres e o uso cultural de plantas e fungos psicoativos desde o Sul Global. Valamiel observa que as mulheres não apenas participam, mas moldam a expansão contemporânea do que ela chama “plantas mestras”, influenciando estética, linguagem e práticas de cuidado.

“Constatamos como as mulheres modelam esse processo, inclusive de maneira estética, configurando o que chamo de ‘política feminizada’ da expansão ayahuasqueira”, explica a pesquisadora. “Por um lado, há uma busca por ambientes mais feminizados, ligados à espiritualidade e ao cuidado. Por outro, há um mercado que romantiza a ayahuasca como mãe, curandeira e unicamente benevolente. É uma contradição que revela um dos modos como o capitalismo se capilariza dentro do universo ayahuasqueiro também a partir de noções ocidentais sobre o feminino.”

Essa contradição, segundo Valamiel, está no centro da proposta da Hijas del Sur: pensar o feminino não como essência, mas como campo aberto de disputa política. A rede nasce, portanto, como um espaço de pensamento decolonial e de ação coletiva, um lugar onde o feminino é multiplicidade, processo e não se reduz às perspectivas binárias sobre agência e submissão  

“Ao observar que as mulheres continuam ausentes dos espaços de poder e de decisão, vem sendo possível constatar que a feminização da renascença psicodélica não necessariamente tem implicado em políticas de reparação que colocam o gênero como um de seus aspectos centrais. Isto é, se reconhecemos a colonização como fundadora dos marcadores sociais da diferença, entendemos que as relações são consubstanciais: não há como falar em decolonização e resistência no campo psicodélico sem falarmos das mulheres (e suas dissidências) do Sul Global” diz a socióloga. 

Comunicação digital e ativismo científico 

Paulina vem da academia e das medicinas tradicionais indígenas via filiação ao Santo Daime e participação em outras cerimônias e rituais, já Valéria Araújo agrega ao projeto o olhar do campo da comunicação digital no xamanismo e do ativismo científico no campo do álcool e outras drogas. 

Araújo se denomina “guardiã das medicinas da floresta” e de “círculos do sagrado feminino”, além de jornalista, mestranda em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora das relações entre mulheres ativistas e cannabis medicinal. A jornalista afirma entender a rede como um espaço para conectar mulheres latino americanas de campos distintos, que trabalham com mulheres e também sejam pesquisadoras e ativistas.

 “O Hijas, para mim, é essa oportunidade de usar a comunicação digital para ajudar a promover conexões entre essas mulheres e seus saberes e outras mulheres da América Latina e Caribe”, afirma Araújo.

Sua experiência no xamanismo colabora para um ponto crucial dentro da  comunicação digital da rede: que a produção de conteúdos seja direcionada para levar informações relevantes sobre o campo das substâncias psicoativas para todas as pessoas e não apenas para as “elites acadêmicas e econômicas”. 

Entre as vozes da rede, há um consenso: a “renascença psicodélica” corre o risco de repetir a colonialidade que diz querer curar. De um lado, a biomedicina promete cura para depressão, dependência e estresse pós-traumático com o mesmo vocabulário salvacionista que, séculos atrás, acompanhou as missões cristãs.


De outro, populações indígenas seguem criminalizadas e marginalizadas por práticas ancestrais e mulheres seguem sendo abusadas de diversas formas enquanto multinacionais patenteiam princípios ativos extraídos de plantas de seus territórios. 

Uma rede para reformular assimetrias 

A iniciativa não é apenas um projeto acadêmico. É uma rede que se propõe a ser viva e criar afetos e alianças, que se constrói no encontro entre mulheres do Brasil com mulheres de outros países da América Latina. Entre suas primeiras ações estão seminários internacionais para o primeiro semestre de 2026, ciclos de aprendizagem, lives, grupos de estudo e parcerias com universidades e organizações da América Latina e do Norte Global.

O foco, segundo Valamiel, é fomentar um debate acessível, crítico e plural sobre o papel das mulheres e suas relações com as bioculturas e outras substâncias no contexto psicodélico latino-americano, abarcando também, latinas imigrantes em outros países do globo. 

A rede também pretende criar espaços de formação acessíveis, que aproximem estudantes, terapeutas, cientistas, comunicadoras e lideranças espirituais. “Não estamos inventando a roda”, diz Paulina. “Chegamos com humildade, tentando apenas dar contorno a pontas que já existem, aquelas que as mulheres, em suas vivências incorporadas, sempre souberam tecer.” 

Convite à escuta

A jornada começa com uma live, o primeiro evento público da Hijas del Sur. Nela, mulheres de diferentes origens discutirão as dimensões culturais, políticas, econômicas e espirituais da renascença psicodélica na experiência de mulheres latinas.

Estarão presentes: Àvelin Kambiwá, indígena do povo Kambiwá, a educadora peruana especialista em educação indígena Cynthia Carrillo, a cientista social Mariana Feregueti e a analista junguiana e integrante do conselho diretor da APB Daniela Monteiro. Mais informações sobre as participantes você encontra nas redes sociais do movimento. 

Live de Lançamento – Hijas del Sur: Rede Interdisciplinar de Saúde das Mulheres, Cultura e Psicodélicos na América Latina
Data: 30/10  às 19h30
Transmissão pelo canal da rede Hijas del Sur no Youtube
Acesse o link pelo Instagram

* Caroline Apple é jornalista há quase 20 anos com passagem por alguns dos principais veículos do Brasil, abordando, principalmente, temas relacionados aos Direitos Humanos, como a causa indígena. É uma das primeiras jornalistas no país a se especializar na cobertura de cannabis para fins medicinais. Daimista, ayahuasqueira e psiconauta, Carol é influenciadora digital sobre temas relacionados à espiritualidade e ao autoconhecimento com ênfase no uso da ayahuasca em contexto urbano.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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