Entre montanhas sagradas, rios e o silêncio que inspira moradores e turistas, o Vale do Capão, na Chapada Diamantina (BA), se prepara para ser palco de um encontro entre ciência, espiritualidade e ancestralidade. De 20 a 22 de novembro, o Expande Capão reúne pesquisadores, lideranças indígenas e ativistas que vêm tecendo um novo campo de diálogo entre o sagrado e o científico em um momento em que o planeta volta os olhos às medicinas tradicionais indígenas e às possibilidades terapêuticas das plantas mestras.
Neste cenário, o Fórum Mundial da Ayahuasca ganha destaque. O evento internacional, cuja a primeira edição será em 2026, na Espanha, será tema de uma das mesas centrais do Expande, com a presença de Jairo Lima, Glauber Loures de Assis, Daiara Tukano e desta colunista, Caroline Apple. A conversa antecipa reflexões que vêm pautando o movimento global: como aproximar saberes tradicionais e ciência moderna sem reproduzir desigualdades coloniais e como garantir que o avanço das pesquisas e das regulações não signifique o apagamento dos povos que guardam esses conhecimentos há séculos.
Entre os destaques da programação, a médica Adana Omágua Kambeba, do povo Kambeba, abordará o encontro entre saberes tradicionais e medicina científica, a partir de sua experiência como uma das primeiras médicas indígenas a prescrever cannabis no Brasil. Para a médica, espaços como o Expande Capão são essenciais para ampliar o diálogo entre diferentes cosmologias de cura e repensar o papel da ciência na construção de uma saúde verdadeiramente intercultural.
“Considero importante este evento, pois são em espaços como este que o público tem a oportunidade de refletir, de forma ampla, junto com indígenas, cientistas e demais pensadores, sobre o significado da ayahuasca, da jurema, da cannabis e de outras medicinas da natureza. É uma boa oportunidade para desmistificar estereótipos e diluir preconceitos. Vejo esse caminho como um dos meios para promover transformações culturais e o amadurecimento coletivo”, afirma Adana em entrevista à Psicodelia Brasileira.
Do blues ao sagrado
O Expande Capão nasce da mesma energia que há mais de uma década movimenta o Capão in Blues, evento criado pelo produtor cultural Ildázio Jr., diretor executivo da Viramundo Produções. O que começou como um festival musical se transformou, agora, em um espaço de diálogo sobre consciência, espiritualidade e políticas de drogas.

“Meu envolvimento com o ativismo canábico vem de longa data”, conta Ildázio. “Há mais de dez anos participo de feiras, cursos e debates sobre o tema. Sempre acreditei que a cannabis e outras medicinas da natureza podem ajudar a curar, mas também a quebrar preconceitos.” Segundo o produtor cultural, o Expande surgiu de uma vontade de aproximar o público da Chapada das conversas que hoje mobilizam o mundo sobre saúde mental, espiritualidade e ecologia.
A ideia ganhou forma a partir de uma parceria com o uruguaio Marco Algorta, militante histórico da regulação da cannabis e curador do evento. Ele defende que esses encontros precisam acontecer em contextos que respeitem o caráter sagrado das plantas e o território onde elas nascem. “Era preciso tirar os debates psicodélicos dos grandes centros e trazê-los para um set and setting mais coerente com a própria natureza dessas medicinas”, explica.

Entre o território e o corpo
Durante os três dias de programação, o Expande Capão se tornará um território de escuta. Entre as montanhas da Chapada, o diálogo entre ciência e espiritualidade ganhará outra temperatura. As mesas reunirão médicos, pesquisadores, lideranças indígenas, ativistas e terapeutas de diferentes formações, mostrando que a expansão da consciência é também um fenômeno político e cultural.
O neurocientista Dráulio Barros de Araújo, um dos pioneiros nas pesquisas acadêmicas com ayahuasca e DMT no tratamento da depressão, e o psicólogo uruguaio Augusto Vitale, ex-presidente do Instituto de Regulação da Cannabis (IRCCA), levarão visões complementares sobre as possibilidades e os riscos da incorporação das medicinas da natureza aos sistemas de saúde pública.
No Expande Capão, Jairo Lima, indigenista e escritor acreano com mais de 30 anos de atuação no Vale do Juruá, apresentará sua perspectiva como um dos principais organizadores do Fórum Mundial da Ayahuasca. O antropólogo Glauber Loures de Assis, pesquisador e membro da coordenação científica do Fórum, levará para o debate uma análise sobre as tensões entre o avanço da pesquisa psicodélica e o reconhecimento dos direitos dos povos tradicionais. A presença da artista, educadora e liderança indígena Daiara Tukano irá reforçar essa dimensão cultural e espiritual das bioculturas. Reconhecida por sua atuação na defesa do direito à memória e à verdade dos povos indígenas, Daiara levará à mesa reflexões sobre o papel da arte e da espiritualidade como instrumentos de resistência e cura coletiva.
Em minha participação, vou reforçar o papel da comunicação nesse novo ciclo de expansão das medicinas ancestrais. As palavras, assim como as plantas, também têm o poder de combater a colonização dos pensamentos. Destaco que é preciso observar como a narrativa global sobre “psicodélicos” tem sido moldada e como esse discurso pode, se não for cuidado, repetir a mesma lógica de extração e silenciamento que marcou a história das florestas e de seus povos. O desafio é criar novas formas de narrar: histórias que incluam, que contextualizem e que devolvam às plantas o lugar de origem e aos povos o protagonismo que lhes pertence.
Capão: território de escuta e futuro
Ao reunir ciência, arte, espiritualidade e ativismo, o Expande Capão consolida o Vale do Capão como um território de convergência entre saberes. O evento acontece em paralelo ao Capão in Blues, reafirmando a região como um polo de cultura e turismo sustentável, onde o diálogo entre música e consciência ganha uma dimensão simbólica: a de uma sociedade que começa a se perguntar não apenas o que cura, mas quem cura e a que custo.
O encontro deixa evidente que o debate sobre as medicinas da floresta vai muito além da farmacologia. Ele atravessa questões éticas, políticas, espirituais e territoriais. A verdadeira expansão da consciência não é uma experiência individual, mas um movimento coletivo de escuta, memória e reconexão com a Terra.
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