Psicodelia Brasileira

Um espaço dedicado à valorização da interface brasileira do universo das bioculturas, dos psicodélicos e dos estados ampliados de consciência. A primeira coluna exclusiva sobre o tema escrita por uma mulher no Brasil.

Caroline Apple é jornalista há quase 20 anos, com passagem por alguns dos principais veículos do país. Sua trajetória é marcada pela cobertura de temas ligados à política e aos Direitos Humanos, com ênfase nos últimos 10 anos na causa indígena e nas disputas culturais, políticas e simbólicas em torno das bioculturas e dos psicodélicos. É uma das primeiras jornalistas no Brasil a se especializar na cobertura da cannabis para fins medicinais.

Especialista em Antropologia pela FESPSP, Caroline pesquisa e escreve sobre espiritualidade, uso ritual da ayahuasca e seus atravessamentos no contexto urbano contemporâneo. Daimista e ayahuasqueira, atua na produção de reflexão crítica sobre espiritualidade, poder, ética e pertencimento no seu perfil no Instagram.

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Fórum Mundial da Ayahuasca 2026 abre chamada de trabalhos e reforça que saber não precisa de diploma

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Proposta é reunir vozes diversas em torno da ayahuasca e de outras bioculturas tradicionais indígenas, sem hierarquizar saberes | Crédito: Divulgação/Caroline Apple/Conferência Indígena da Ayahuasca

A união do conhecimento da ciência acadêmica com o conhecimento da floresta é um caminho possível para respostas mais responsáveis às crises atuais

O Fórum Mundial da Ayahuasca prorrogou até 20 de fevereiro de 2026 a chamada para apresentação de trabalhos de sua primeira edição, que acontece entre 11 e 13 de setembro de 2026, em Girona, na Espanha. O diferencial está na mensagem política que sustenta a abertura para a submissão de trabalhos: não é preciso ter formação acadêmica para participar, diferente de outros eventos, como simpósios e congressos, que valorizam e dão preferência a produções da academia.

A chamada é aberta a propostas em diferentes formatos e acolhe experiências de vida, narrativas orais, práticas comunitárias, arte, música, pesquisa científica e reflexões produzidas dentro e fora da universidade. A proposta é reunir vozes diversas em torno da ayahuasca e de outras bioculturas tradicionais indígenas, sem hierarquizar saberes.

Segundo Raine Piyãko, jovem liderança Ashaninka e codiretor do Fórum, o encontro parte do reconhecimento de que existem conhecimentos que não cabem nos parâmetros acadêmicos tradicionais. “Para nós, a floresta não é só árvore. Ela é nossa escola, nossa universidade”, afirma. Para Piyãko, o conhecimento que nasce da relação direta com a vida, com o território e com a prática cotidiana é contínuo, universal e não se esgota.

Ele destaca que, historicamente, o reconhecimento público do saber esteve condicionado ao diploma. “Muitas vezes, só é reconhecido quem passa por uma faculdade. Mas cada sábio é formado pela natureza”, diz. Segundo Piyãko, lideranças indígenas carregam uma sabedoria que o mundo acadêmico não alcança porque ela nasce da vivência real, dentro da floresta e das comunidades. Por essa razão, defende que a união do conhecimento da ciência acadêmica com o conhecimento da floresta é um caminho possível para respostas mais responsáveis às crises atuais.

Espaço para experiências, não só para artigos

Essa visão se traduz diretamente na estrutura da programação. De acordo com Cristiane Bortoli, colaboradora do Instituto Yorenka Tasorentsi e coordenadora da comissão organizadora do Fórum pelo lado do instituto, os trabalhos selecionados irão compor uma sala dedicada ao compartilhamento de experiências e pesquisas. “Será um espaço de múltiplas vozes, como um mosaico de reflexões”, explica.

Segundo Cristiane, a programação vai reunir narrativas pessoais, resultados de pesquisas, experiências comunitárias e expressões criativas, colocando em diálogo diferentes atores que produzem conhecimento em contextos indígenas e não indígenas. Os temas incluem reconhecimento, valorização e proteção da ayahuasca e de outras bioculturas, além da valorização dos saberes ancestrais.

A comissão curatorial, que inclui lideranças indígenas, avalia as propostas com foco em ética, diversidade e representatividade. A ideia não é padronizar discursos, mas criar um espaço de escuta real entre diferentes formas de pensar e viver.

Chamada internacional e intercultural

Aberta à comunidade global, a chamada convida pesquisadores, lideranças indígenas, artistas, ativistas, profissionais da saúde, comunicadores e demais interessados a submeter propostas em português, espanhol ou inglês. Narrativas orais, experiências de vida e formas criativas de expressão são tão bem-vindas quanto pesquisas científicas.

O Fórum Mundial da Ayahuasca se define como um espaço de debate e articulação entre ciência, arte, política e saberes tradicionais, enfrentando temas como ética, direitos coletivos, saúde mental, governança indígena, regulação e práticas responsáveis. A proposta é qualificar o debate público sobre a ayahuasca sem apagar seu caráter de medicina tradicional indígena.

Realizado pelo Instituto Yorenka Tasorentsi, que representa os interesses das discussões das Conferências Indígenas da Ayahuasca, juntamente com o ICEERS, uma organização sem fins lucrativos dedicada a enfrentar os desafios da globalização das medicinas tradicionais indígenas, o Fórum se consolida como um encontro estratégico para a construção de princípios e alianças internacionais, com protagonismo indígena e diálogo intercultural no centro.

Como parte da equipe de comunicação do Fórum, acompanho de perto esse movimento que amplia o acesso à palavra e reconhece que conhecimento também nasce da experiência, da prática e da relação com a vida.

Mais informações e submissão de propostas aqui.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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