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Janelas negras abertas

Mostras e outras iniciativas têm permitido às nossas imagens respirarem – e chegarem onde precisam chegar

No bairro de Cajazeiras, em Salvador, uma nova sala de cinema foi aberta. Inaugurada em fevereiro, o Cine Lankiana nasceu dentro do Quilombo do Coqueiro Grande como uma semente de futuro. O nome homenageia a Yalorixá Lankiana de Nkosi e o espaço, criado pelo Instituto Audiovisual Mulheres de Odun (iAmo), mais do que um lugar de projeção, o Lankiana é território – simbólico, político e espiritual.

Enquanto isso, em Aracaju, a 8ª edição da Mostra Egbé de Cinema Negro, que acontece até o dia 5 de abril, reafirma a força das redes negras no audiovisual brasileiro. Guiada pelo conceito africano de Sankofa, a mostra propõe revisitar os saberes que nos trouxeram até aqui para fortalecer o presente e imaginar outros futuros. A programação inclui exibições de filmes brasileiros, mostras especiais com obras de Angola e Moçambique, curadas por Yérsia Assis, além de oficinas, mesas temáticas, sessões infantis com a Mostrinha Vunji e uma celebração de encerramento com baile charme. Nesta edição, a Egbé também amplia suas conexões ao receber mostras convidadas, como a Mostra Itinerante de Cinemas Negros Mahomed Bamba, com curadoria de Júlia de Moraes, e o Festival de Cinemas Negros e Indígenas (Infinita), com curadoria de Leon Reis, fortalecendo os vínculos entre experiências curatoriais negras em diferentes territórios do país.

Essas ações, gestadas por coletivos e iniciativas comprometidas com a criação e difusão de narrativas negras, revelam um movimento profundo de reinvenção. Se o cinema negro já demonstrou sua força estética e política nas telas, agora também cria espaços de encontro a partir da experiência coletiva de assistir filmes juntos. Frente às lógicas excludentes do mercado e às grandes plataformas digitais, são as janelas negras que têm permitido às nossas imagens respirarem – e chegarem onde precisam chegar.

Nesse contexto, o Mapa do Cinema Negro tem se mostrado uma ferramenta poderosa. Idealizado e coordenado pelo pesquisador, educador e curador independente Clébson Francisco, e promovido pela produtora cearense Breu CC, o mapa, iniciado em 2018, documenta e conecta cineastas, coletivos, festivais, cineclubes e ações pedagógicas por todo o país. 

A Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan) é parte desse ecossistema e tem contribuído com ações estruturantes para o fortalecimento do audiovisual negro no país. Entre elas, a TodesPlay, plataforma de vídeo sob demanda com curadoria voltada à produção de pessoas negras, indígenas e LGBTQIAPN+, se destaca como espaço de difusão e memória. Além disso, abriga mostras e festivais em formato online, ampliando o acesso às obras e sua permanência no ambiente digital.

Outra ação da Apan é o Festival Internacional do Audiovisual Negro do Brasil (Fianb), realizado anualmente em São Paulo, na Bahia e em formato online. O festival reúne sessões de filmes, um seminário internacional e o Mercado Audiovisual da Apan (Mecaa), espaço dedicado ao intercâmbio entre realizadores, curadores, distribuidores e agentes do setor. O Fianb amplia as possibilidades de circulação e conexão do cinema negro com redes nacionais e internacionais, fortalecendo a cadeia produtiva e simbólica do audiovisual negro.

Esse pensamento é ressoado por Edileuza Penha de Souza e Marcus Vinicius Mesquita, que escrevem na revista Filme Cultura que “encontros, mostras e festivais são configurados como terras férteis e aráveis aguardando as sementes, simbolizadas pelos filmes de cineastas negros e negras”. A imagem é potente — e real. Porque é isso que têm sido as janelas abertas pelo cinema negro: espaços de cultivo e permanência.

Essa visão se soma à análise presente no artigo Espaço-Quilombo: notas sobre mostras e festivais de cinema negro no Nordeste brasileiro, publicado na revista Rebeca por Laila Thaíse Batista de Oliveira, Luciana Oliveira Vieira – que também é diretora-geral e artística da Mostra Egbé – e Naira Évine Soares. As autoras compreendem os festivais como espaços de aquilombamento, inspirados na perspectiva de Beatriz Nascimento, e afirmam que esses eventos não apenas enfrentam a escassez de políticas públicas, mas também inauguram formas próprias de organização, memória e circulação do cinema negro.

O texto também dialoga com o conceito de QuilomboCinema, formulado por Tatiana Carvalho Costa, que compreende o audiovisual negro como um território de resistência, cuidado e permanência — um modo de fazer que atravessa a produção, a crítica, a política e o encontro com o público.

No artigo, as autoras mapeiam nove mostras surgidas entre 2016 e 2022 na região Nordeste, revelando o quanto a criação desses espaços está ligada à construção de autonomia e à urgência de territórios de exibição em que realizadores negros possam existir com liberdade, afeto e potência. 

As janelas negras não são apenas mecanismos de exibição. São espaços de escuta, formação e imaginação radical. Cada mostra, sala de cinema, cineclube, plataforma de exibição, oferece um caminho para a reparação histórica. O cinema negro não está à parte. Está no centro. Está se fazendo agora. E o cinema negro é cinema brasileiro.

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