Quilombo do Audiovisual Negro

Esta coluna é um espaço para reflexões e debates sobre as produções e ações de profissionais do audiovisual negro. Aqui vamos conversar sobre mercado, políticas públicas, ações afirmativas e estratégias para a ampliação da presença e permanência de pessoas negras no audiovisual e nos imaginários.

Ceará Filmes: o compromisso do Estado com o cinema brasileiro e a urgência de uma política pública inclusiva

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Legenda: Audiência Pública sobre a Ceará Filmes na Assembleia Legislativa | Crédito: Flávia Almeida

Nós, cineastas negros, seguimos mobilizados, porque entendemos que essa é uma luta coletiva

O que faz uma empresa pública de audiovisual?

Mais do que um espaço de fomento, ela representa um compromisso do Estado com o cinema nacional. Suas funções são amplas: apoiar o desenvolvimento de projetos, garantir a distribuição e comercialização de produções, captar investimentos, participar de fundos e investir em iniciativas estratégicas para o fortalecimento do setor. Uma empresa pública de audiovisual é, portanto, um instrumento essencial de política cultural, que atua na base e no topo da cadeia produtiva, equilibrando o jogo de forças em um mercado ainda profundamente desigual.

Infelizmente, pela ausência de dados consistentes sobre o setor audiovisual no Brasil, não há como mensurar exatamente quantas pessoas no Ceará seriam beneficiadas com a criação de uma empresa desse porte. Mas, nas conversas cotidianas com realizadores e realizadoras, uma percepção é unânime: o audiovisual cearense precisa de estrutura, continuidade e circulação para existir de forma plena.

E é justamente nessa direção que a Ceará Filmes começa a se tornar realidade. A empresa pública de audiovisual do Estado acaba de dar mais um passo com o anúncio da produtora Isabela Veras à frente das próximas etapas de implementação. A indicação, feita pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult-CE), tem o objetivo de conferir celeridade às ações. Até dezembro, a Secretaria deve apresentar o projeto de lei na Assembleia Legislativa do Ceará, e a expectativa é que, durante o MIC BR, evento que acontece em Fortaleza no mesmo mês, o governador Elmano de Freitas (PT-CE) anuncie novos avanços ao lado da ministra da Cultura, Margareth Menezes.

Para nós, cineastas negros, essa conquista é particularmente simbólica. Uma empresa pública de audiovisual não apenas democratiza o acesso a recursos, mas cria meios concretos para que as nossas obras circulem, cheguem ao público e ganhem sustentabilidade. Hoje, a maioria das produções negras brasileiras não encontra espaços de exibição, nem dentro, nem fora das plataformas tradicionais. A criação da Ceará Filmes representa a possibilidade de inverter essa lógica de transformar potência em política pública e garantir que o cinema negro não dependa apenas de editais isolados, mas de uma estrutura contínua de desenvolvimento, difusão e distribuição.

No último 3 de setembro, a Assembleia Legislativa do Ceará sediou uma audiência pública para apresentar à sociedade civil e ao setor audiovisual o escopo da nova empresa. A sessão, articulada em parceria com o deputado Guilherme Sampaio (PT-CE), reuniu representantes dos governos estadual e municipal, das secretarias de Cultura, Turismo e Orçamento, além de membros do Ministério da Cultura (MinC). A mesa ampla e plural evidenciou a força da coletividade que vem construindo esse projeto, uma construção inspirada em experiências como a Spcine, mas adaptada às especificidades do território cearense.

O audiovisual cearense tem se mobilizado intensamente para que a Ceará Filmes saia do papel. Agora, o desafio é ampliar o diálogo com a Assembleia, especialmente com os parlamentares que ainda não compreendem o impacto econômico e social da cultura. A previsão é que, em 2026, comece a implantação da empresa e, em 2027, ela já esteja em operação, mobilizando recursos e potencializando o setor em todo o Estado.

Está previsto um aporte inicial de R$ 30 milhões da Secretaria da Cultura para a fase de implantação. A partir daí, a Ceará Filmes, estruturada como sociedade de economia mista, deve atuar de forma híbrida, combinando funções públicas e privadas e garantindo sua própria sustentabilidade financeira. A proposta é que ela não substitua as políticas de fomento já existentes, mas as complemente, fortalecendo a base e promovendo o desenvolvimento do audiovisual de maneira sistêmica.

A criação da Ceará Filmes é mais do que um avanço institucional. É um marco de soberania cultural. É o reconhecimento de que o cinema, sobretudo o cinema feito nas bordas, nos interiores e nas periferias, precisa de políticas de Estado para existir em sua plenitude.a

Nós, cineastas negros, seguimos mobilizados, porque entendemos que essa é uma luta coletiva. Acreditamos que a Ceará Filmes deve nascer com o compromisso de refletir a diversidade do povo cearense, abrindo espaço para novas vozes, novas narrativas e novos olhares. Que essa empresa pública seja um instrumento de reparação histórica e de futuro, um futuro em que o audiovisual brasileiro seja de fato acessível e enraizado em todas as suas nuances.

*Darwin Marinho, Naya Oliveira e Virna Paz fazem parte do Quilombo do Audiovisual Negro

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Nathallia Fonseca

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