O crescimento da presença chinesa no mundo da tecnologia seguiu algumas regras bastante específicas e possíveis apenas em uma forma socialista de governo. Os planejamentos chineses deram um foco especial à tecnologia e propiciaram a criação de gigantes como a Huawei, Xiaomi, Alibaba, Tencent, Deepseek e outras tantas empresas, que organizam o seu desenvolvimento em conjunto com um planejamento estatal organizado, na tomada de decisões sobre onde e como investir esforços para o desenvolvimento tecnológico com foco em soberania.
É um modelo bastante diferente do desenvolvimento ocidental que, por mais que tenha mãos de governos, sempre manteve um verniz de liberdade mercadológica para desenvolver sempre aquilo que eleva os lucros dos acionistas das grandes empresas de tecnologia.
Não podemos ser ingênuos a ponto de acreditar, por exemplo, que a hegemonia tecnológica dos EUA no Ocidente se deu simplesmente pela mão invisível do mercado. Essa hegemonia teve muitas mãos do governo estadunidense, ainda assim é possível ver que havia a liberdade do lucro acima de tudo.
Porém, a realidade vem mostrando as limitações desse modelo ocidental, principalmente frente ao crescimento do modelo de produção de conhecimento e de tecnologia do leste asiático, que vem impondo aos poucos seus produtos no ocidente após dominarem mercados e realidades do Sul Global.
Essa percepção levou à criação do PCAST (Conselho de Assessores do Presidente para Ciência e Tecnologia, na sigla em inglês), nos EUA. O presidente Donald Trump criou um conselho reunindo os CEOs das 13 maiores big techs para decidirem os rumos do desenvolvimento tecnológico e enfrentarem o crescimento chinês do ocidente. A criação desses conselhos vem junto com outras medidas, como uma pressão para proibir os produtos orientais em território estadunidense. Essa pressão já se mostrou ao mundo durante toda a novela sobre o TikTok e agora vem se mostrando novamente nos projetos que visam impedir a presença de itens produzidos fora do ocidente na infraestrutura de internet dos EUA, como em roteadores e antenas, por exemplo.
A criação do PCAST demonstra uma preocupação, mas, ao mesmo tempo, uma necessidade de reorganização para readequar o desenvolvimento tecnológico ocidental em algo similar, mas, ao mesmo tempo, muito diferente do modelo chinês. Enquanto na China, o Estado, representando o povo, é quem dirige de verdade o desenvolvimento das empresas, nos EUA o convite é apenas para que as empresas deixem a vergonha de lado e integrem o Estado para elas, sim, dirigirem esse desenvolvimento com maior organização.
Interessantemente, isso vem em conjunto com algumas mudanças no desejo de crescimento capitalista das big techs, focadas em crescimentos absurdamente fora da realidade e que, se concluídos, podem levar a um colapso socioeconômico no Ocidente. Para as big techs, esse desejo se traduz em metas assustadoras e benefícios ainda mais assustadores para seus dirigentes.
A Tesla, por exemplo, definiu que, caso seu crescimento seja acima de 300% nos próximos cinco anos, Elon Musk vai levar para casa uma bonificação de 1 trilhão de dólares. Já a Meta acaba de lançar seu plano de bonificações definindo que se, em cinco anos, a empresa crescer em, pelo menos 700%, seus principais executivos se tornarão bilionários.
Em tempos de crise climática, essa ambição de crescimento das big techs parece apenas algo bizarro e irrealista, mas aprendemos nos últimos anos a nunca duvidar das ambições do capitalismo imperialista, enquanto nos perguntamos quais as chances do nosso ecossistema de vida no planeta Terra resistir a essas ambições.
Em meio a essas questões, é perceptível que o imperialismo estadunidense vem tentando imitar o melhor da China, porém o misturando com o pior do modelo capitalista que nos trouxe à crise social, econômica e climática que enfrentamos atualmente.


