Rafael da Guia

Cientista de Dados especialista em modelos de Inteligência Artificial, com mais de 18 anos de experiência. Atualmente é Consultor de Tecnologia no jornal Brasil de Fato, com passagens pela Gol Linhas Aéreas e Minsait. Graduado em Desenvolvimento e Marketing (U. Illinois), com especializações em Ciência de Dados (John Hopkins e FIAP). É militante do Movimento Brasil Popular.

Um conto de duas inteligências artificiais

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Bandeiras Estados Unidos e China mescladas
Bandeiras dos Estados Unidos e da China | Crédito: Wikimedia Commons

Os países ocidentais criam um produto que não existe, usando dinheiro que também não existe

Quando falamos sobre o conflito silencioso entre China e Estados Unidos, podemos pensar em dicotomias variadas sobre o desenvolvimento econômico, o desenvolvimento social ou formas diferentes de se integrar ao mundo. Também podemos observar diferenças gritantes no que tange ao desenvolvimento tecnológico, em especial no campo das inteligências artificiais.

No mundo ocidental, ao falarmos de inteligências artificiais, logo somos levados a pensar de maneira unipolar, baseando-nos no que as big techs têm feito nessa área do desenvolvimento tecnológico humano.
Não é nada muito diferente do que elas fizeram com tantas outras áreas.

No livro “O Capital”, de 1867, entre tantos outros temas, Karl Marx desenvolveu o conceito de fetiche da mercadoria. Esse conceito compreende que, no capitalismo, a mercadoria parece ter vida própria e um valor intrínseco, ignorando o trabalho humano ou o seu valor de uso. E a mercadoria gera alienação sobre o fruto do trabalho humano.

As inteligências artificiais no Ocidente carregam essa concepção. Simplesmente não conseguimos observá-las como fruto do trabalho humano, mas como fruto das big techs, que não estão interessadas no valor de uso desse tipo de ferramenta, mas sim em criar hype e um sentimento de que todos devem utilizá-las e de que todo o dinheiro existente no mundo deve ser investido nelas.

Não por menos, isso vem gerando um sentimento, na parcela da população com maior consciência de classe, de repulsa às inteligências artificiais. Seu uso vem se perdendo em produtos fúteis e inúteis que se tornam a vitrine dessa área de tecnologia, eclipsando usos valorosos e úteis em áreas como comunicação, ciências médicas-biológicas, astrofísica, entre tantas outras.

Essa é a diferença posta em relação ao que vem sendo desenvolvido em países orientais, como China e Vietnã, e, em alguns momentos, sendo transportado para o Ocidente de maneira quase invisível.

Ao questionar alguns companheiros sobre inteligência artificial, a percepção quase que total é que os EUA estão na dianteira tecnológica e que a China ainda engatinha. Não é verdade. Em todos os critérios de avaliação de modelos de inteligência artificial, a China vem apresentando uma larga vantagem em relação aos países ocidentais.

A percepção geral é criada por esse fetichismo da mercadoria. O que o Ocidente, em especial os Estados Unidos, tem feito é explorar produtos inúteis e muitas vezes disfuncionais, além de anunciar a revolução das inteligências artificiais sem compreendê-las e sem compreender seus impactos sociais, atraindo, com isso, muito dinheiro especulativo. Isso tudo utilizando a IA de formas para as quais ela não foi desenvolvida, diferentemente do que os países orientais vêm fazendo, com a incorporação delas como forma de melhorar a vida da população.

Basicamente, os países ocidentais criam um produto que não existe, usando dinheiro que também não existe. É a receita para uma bolha econômica, e sabemos quem pagará quando essa bolha estourar.

Mas não se engane. Inteligências artificiais são algumas das tecnologias mais revolucionárias já criadas pelo trabalho humano. Alguns dizem que chegam ao nível da descoberta do controle sobre o fogo, mas eu sou “um pouco menas” e coloco-as no nível do desenvolvimento da internet.

Mesmo se essa bolha ocidental estourar, ainda é uma tecnologia eficiente que vem causando mudanças drásticas nas vidas das pessoas, que vêm adotando-a como ferramenta para resolver problemas concretos e não apenas como solucionismo tecnológico ou mercadoria fetichizada.

O fato é que, mais uma vez, nos encontramos em um mundo dividido por duas visões drasticamente diferentes sobre o que é o trabalho humano e, na área de inteligências artificiais, assim como em muitas outras áreas, a diferença quanto a isso é importante.

Além dos nossos medos, nada nos impede de, em vez da pura rejeição total, observar esses dois modelos de desenvolvimento tecnológico e utilizar aquele que faz mais sentido e que coloca a humanidade, e não o lucro, no centro.

Quem sabe esse possa ser, inclusive, um início para que possamos olhar para outras variáveis dessas dicotomias e decidir melhor qual queremos para nós.

Editado por: Thaís Ferraz

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