Há algumas semanas, a rede social TikTok anunciou que irá começar a testar planos por assinatura na Europa. O foco desse plano é garantir que os usuários possam utilizar o aplicativo do produto da ByteDance para assistir seus vídeos sem serem incomodados por publicidade.
Não há nada novo.
O Youtube oferece o seu Youtube Premium também com esse foco, retirando a publicidade automática no meio dos seus vídeos, além de garantir melhor qualidade de imagem no conteúdo consumido na plataforma do Google.
Já os streamings, como Netflix e Disney, vão em outra direção e chegam ao mesmo lugar. Esse tipo de serviço surgiu com a proposta de disponibilizar conteúdo audiovisual sem anúncios, porém, com o aumento de preços, se tornou uma tendência para essas plataformas lançar um plano mais barato e cheio de anúncios entre um episódio e outro da sua série favorita.
Não é de hoje que debatemos que não existe internet grátis no mundo ocidental, mas isso vem se colocando cada vez mais em evidência. Se você não paga com dinheiro, pagará com seus dados e sua atenção (e sua paciência) quando um comercial surgir no meio do último episódio de sua novela turca favorita.
Essa nova realidade de anúncios em plataformas e de planos que não exibem anúncios em troca de grana tende a se tornar uma nova forma de diferenciação de classes.
Não é uma novidade o cenário em que você está em uma festa com amigos e, no meio da sua música favorita, o Spotify para e anuncia algum produto para todos os presentes. Essa realidade vai se tornar cada vez mais uma diferenciação entre ricos e pobres.
Para compreender essa problemática, é necessário compreender os estudos psicossociais que o marketing e a publicidade utilizam para vender cada vez mais seus produtos. O objetivo sempre é gerar uma instabilidade emocional para impulsionar a compra de algo que é publicizado e, por isso, anúncios no meio de conteúdos emocionais, como músicas, cinema, séries ou o cotidiano de um influencer que você gosta, têm tanta importância.
O mercado publicitário gerou ao longo dos anos diversos problemas sociais ao redor do mundo, como a explosão de casos de bulimia e anorexia ou o vício em jogos de azar, potencializados por suas práticas.
O campo da psicologia estuda há anos o que gera o comportamento impulsivo em nossa espécie e a publicidade utiliza isso profundamente. Nos campos de estudo dessa área, é importante salientar como uma mente saudável e descansada tem uma maior propensão a resistir a impulsos, abordando racionalmente uma compra ou uma aposta, por exemplo. Isso exige um cérebro descansado e desestressado, algo relativamente impossível para a classe trabalhadora vivendo no capitalismo predatório e em uma realidade cada vez mais desesperançosa.
Se você está exausto, a melhor forma de conter seus impulsos e evitar compras fora da realidade ou vícios é evitar ser exposto ao conteúdo que gera esses impulsos. O capital financeiro sabe disso e, por isso mesmo, transforma isso em uma mercadoria.
Se você tem dinheiro, pode consumir o seu audiovisual de preferência de maneira mais saudável, evitando a exposição ao conteúdo que visa apenas tirar mais do seu dinheiro. Se você não tem, sorte sua e esperamos que o sistema público do seu país consiga lidar com isso (ou podemos transformar o tratamento em mercadoria também).
Novamente, não é nada novo, mas com o avanço das big techs rumo a essa lógica, há uma diferenciação de classes clara nos problemas psicossociais causados pelo mercado publicitário.
Não por menos, as classes mais empobrecidas do nosso país são as mais prejudicadas pelo mercado formal de apostas, tendo essa exposição, além de diversos outros problemas em se viver num país de capitalismo periférico, como catalisadores desses problemas.

