Rafael Villas Bôas

Professor da Educação do Campo e do programa de pós-graduação em Artes Cênicas da Universidade de Brasília (UnB).

Calango Careta: cortejo cênico-musical se constrói como tradição em movimento 

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Bloco Calango Careta em Brasília
Bloco Calango Careta em Brasília | Crédito: Rafael Villas Bôas

De longe e de perto se vê o Calango passar, por conta das alegorias de animais do Cerrado, das pernas de pau e dos estandartes

O carnaval de Brasília vem mudando consideravelmente há pouco mais de uma década. Uma pluralidade de blocos surgiu e tomou as ruas das cidades do Distrito Federal. Recuperam histórias, se posicionam politicamente, ocupam as ruas com fantasias, com orquestração de sopros e percussão, e vão criando oportunidades para a população do DF e turistas sentirem o território da capital do país com mais irreverência do que deferência. 

Esse fenômeno se contrasta com dois aspectos: o do cercamento de edifícios públicos, que se acentuou depois da tentativa de golpe da extrema direita, de 8 de janeiro de 2023; a insistência do governo do DF de gastar dinheiro com a política do “pão e circo” com megashows na Esplanada do Ministério ao invés de descentralizar recursos para o fortalecimento das iniciativas populares.  

Um dos blocos marcantes deste novo ciclo do carnaval candango é o Calango Careta, que sai às ruas em dois dias do carnaval, sem avisar com antecedência o local a partir do qual o bloco se concentra, e a cada ano engrossa as fileiras de seu cortejo performático com mais foliões.

A alegoria do gigantesco Calango é o carro chefe do grupo, junto com a performance coreográfica de mulheres e homens em pernas de pau, e no solo, com estandartes, e a orquestra com grande naipe de instrumentos de sopro e percussivos.

Sem palco a elevar os artistas e distanciá-los do público, sem som mecânico a projetar a voz dos artistas acima do coro, o bloco Calango Careta se move pelas ruas ao rés do chão, estabelecendo uma relação horizontal e lúdica com os brincantes, que volta e meia colaboram com a sustentação e movimentação do Calango, cantando junto no coro, ou fazendo o cordão humano em movimento, necessário para garantir o espaço e segurança para as e os artistas com perna de pau, e para as coreografias.  

De longe e de perto se vê o Calango passar, por conta das alegorias de animais do Cerrado, por conta das pernas de pau e dos estandartes. O bloco se destaca pela beleza e escala da cena coletiva em movimento: pelas cores e formas das fantasias, alegorias e maquiagens, pelos ritmos, canções e coreografias.

Faixa contra o assédio faz parte do bloco Calango Careta
Faixa contra o assédio faz parte do bloco Calango Careta | Crédito: Rafael Villas Bôas

Há diversos elementos da tradição popular incorporados com eficácia pelo bloco, a partir de um trabalho de encontros e ensaios constantes, de pensamento permanente sobre o significado e impacto que o bloco tem e da maneira como ele pode se ampliar.

Isso fica evidente no filme “Calango Careta: 10 anos de eterno carnaval. O Bloco que virou movimento, a brincadeira que virou tradição” que foi exibido no Cine Brasília no dia 20 de janeiro de 2026, com grande afluência de carnavalescos, ainda no clima da folia, e de integrantes do grupo, que devidamente caracterizados, tocaram dentro do cinema e na área externa, no que chamaram de um “pocket show” do bloco. 

Pelo filme ficamos sabendo que o bloco é uma composição de coletivos, como a Trupe Quero Quero, que se incumbe de estabelecer grande interação com o público colaborando para que o cortejo se movimente de forma performática pelas ruas, a orquestra popular Capivareta, etc.

Pelos depoimentos dos integrantes se percebe a convergência dos diversos sentidos que atribuem ao bloco: a ideia de que se trata de uma ação ativista – haja a vista a tomada de posição feminista com a faixa “A cada 1 segundo 1 mulher é vítima de assédio” – , a ocupação festiva do espaço público como um gesto de existência e resistência, o desejo folião de deixar a cidade mais feliz, menos careta…  

Brincar o carnaval acompanhando o cortejo do Calango Careta me lembrou o grupo de teatro acrobático e musical Esquadrão da Vida, coletivo que integrei como ator entre 1998 e 2000, criado e dirigido por Ary Para Raios, que fazia apresentações pela cidade, em teatros, mas, sobretudo, em espaços abertos e, por vezes, apenas se deslocava pelas praças, ruas, calçadas, com nossos figurinos e maquiagens coloridas, fazendo formações acrobáticas coletivas, cantando e dançando.

Há algo da estética e da forma do Esquadrão no Calango Careta, uma espécie de alegria anunciante de um desejo utópico de que somos capazes, juntos, de construir imagens fantásticas, momentos alegres, de viver em conjunto celebrando, festejando e anunciando que o futuro pode ser melhor do que o presente. 

*Rafael Villas Bôas é jornalista, professor da UnB e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UnB.

**Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a linha editorial do Brasil do Fato DF.

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Editado por: Clivia Mesquita

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