Raúl Antonio Capote

Mestre em Relações Internacionais e História Contemporânea, escritor e jornalista do Granma Internacional. Também é professor de História de Cuba da Universidade de Ciências Pedagógicas de Havana, foi durante anos o agente Daniel dos serviços de inteligência cubana. O jornalista é autor de vários artigos e dos livros “El caballero ilustrado” (novela), “Juego de Iluminaciones” (contos), “El adversario” (novela) e “Enemigo” (testemunho), também publicado no Brasil com o título “Inimigo: A guerra da CIA contra a juventude cubana”.

Davos, o Grande Ditador e os pinguins da Groenlândia

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nova ordem mundial
Trump e o início de uma nova ordem mundial | Crédito: Moro

O segundo mandato de Trump mostra um padrão: prioridade ao poder Executivo, lealdade pessoal acima das instituições e rejeição a todas as normas internacionais

No Fórum Econômico Mundial de Davos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou, sem rodeios, diante de todo o mundo, que era um ditador, nada mais nada menos do que do bom senso. Confissão das partes…

“Chamam-me ditador. Tudo bem. Às vezes é preciso um ditador. Eu sou um ditador do bom senso”, disse ele.

Não se tratava de uma de suas habituais piadas de mau gosto. Durante décadas, os EUA se apresentaram à humanidade como garantes da democracia liberal, mas a frase do presidente em Davos significou uma ruptura no discurso, o fim da simulação.

Em seu discurso no Fórum Econômico Mundial, com tom de valentão, Trump não deixou nenhum país sem ameaçar nem nenhuma fraqueza sem explorar, percorreu todos os resquícios de suas habituais diatribes, em uma exibição de gestos típica de um mau ator de filmes mudos.

Ao se referir à Groenlândia como “um pedaço de gelo”, ele pareceu confundi-la com a Islândia, uma nação insular nórdica. Como podemos nos surpreender com pessoas que acreditam que há pinguins na Groenlândia?

Usando um estilo próximo ao de Darth Vader, de Guerra nas Galáxias, ele se comprometeu a não usar a força para tomar a Groenlândia, o que gerou certo alívio; mas o tom zombeteiro de sua intervenção, quando se referiu à preocupação dos líderes europeus com a saúde da OTAN, deixou-os com um mal-estar mal disfarçado.

Em Davos, Trump reiterou afirmações falsas verificadas por vários jornais ocidentais, entre eles o Deutsche Welle. Ele disse, por exemplo, que a China “não tem parques eólicos”, quando, na verdade, o gigante asiático gera 40% da energia eólica mundial, com 521 gigawatts em 2024. Parece que o “mestre do mundo” pretende quebrar seu próprio recorde de mentiras estabelecido durante seu primeiro mandato.

Essas declarações refletem uma política externa baseada em mitos, ressentimento e desprezo pelo resto da humanidade. Nem a Suíça foi poupada: “Eles só são bons graças a nós”, disse Trump.

Trezentos e sessenta e cinco dias com Trump

Após seu retorno à Casa Branca, a presidência de Donald J. Trump se consolidou como um governo marcado por políticas migratórias extremas e racistas, expansão do déficit fiscal, crescimento econômico desigual e uma direção unilateralista na política externa, confirmada por seu controverso discurso no Fórum Econômico Mundial em Davos.

Como o famoso personagem de O Grande Ditador, interpretado por Charles Chaplin, Trump brinca com o globo terrestre como se fosse de sua propriedade, sequestra presidentes, bombardeia nações, ameaça, sanciona e coloca a humanidade à beira do apocalipse nuclear, enquanto se atribui o papel de pacificador.

Com dezenas de frentes abertas, ele diz que quer se apoderar do Canal do Panamá, converter o Canadá no 51º estado, se apoderar da Groenlândia, destruir Cuba, bombardear o Irã, enquanto age como grande pacificador na Europa, tentando salvar seus aliados da derrota na Ucrânia.

Seu governo reativou e ampliou as políticas migratórias de “tolerância zero” de seu primeiro mandato. De acordo com relatórios da Human Rights Watch, da ACLU e de agências da ONU, mais de 1.200 crianças foram separadas de suas famílias em 2025.

O Serviço de Imigração e Controle Alfandegário (ICE), agora dirigido por figuras próximas a Trump, como Tom Homan e Kash Patel, realizou batidas sem restrições em escolas, igrejas e hospitais, após a revogação das chamadas “zonas sensíveis”.

Denúncias de negligência médica, superlotação e mortes evitáveis em centros de detenção resultaram em três ações coletivas federais. A ONU alertou que essas práticas podem constituir “crimes contra a humanidade”.

Uma pesquisa, realizada entre 16 e 20 de janeiro, avaliou a percepção pública sobre 17 temas-chave da agenda de Trump. O ponto que gera maior descontentamento é o custo de vida. Setenta por cento dos entrevistados desaprovam a gestão presidencial.

Em seguida, em ordem de rejeição, vêm a polêmica em torno dos documentos do caso Jeffrey Epstein, o custo da saúde e as declarações sobre uma possível anexação da Groenlândia.

Por outro lado, 93% dos simpatizantes do movimento maga aprovam a gestão, enquanto esse número cai para 63% entre os republicanos não alinhados com a maga. Entre os eleitores independentes, a aprovação cai para 18% e, entre os democratas, chega a apenas 6%.

Por outro lado, o PIB cresceu 3,1% em 2025, impulsionado pelos gastos militares (+22%) e pela expansão da indústria de combustíveis fósseis; enquanto o desemprego se mantém em 3,4%, os salários reais estão estagnados e a participação no mercado de trabalho não se recupera.

Sem dúvida, o custo para frear a queda é alto: a dívida federal ultrapassou US$ 39,2 trilhões (128% do PIB), com um déficit orçamentário recorde. O serviço da dívida já consome 1,3 trilhão por ano, mais do que os gastos com defesa. Quando assumiu, em 20 de janeiro de 2025, a dívida era de 36 376 200 000 000 dólares.

Os cortes fiscais aprovados em março de 2025 beneficiaram os 1% mais ricos, enquanto a inflação se manteve em 4,7%, alimentada por tarifas massivas e escassez de mão de obra em setores-chave.

O presidente “pacifista”, até agora em seu atual mandato, bombardeou o Irã, agrediu a Venezuela e sequestrou seu presidente, além de apoiar com armas e assessores os assassinos da entidade sionista de Israel.

Dentro do seu próprio país, milhares de migrantes sofrem violações dos seus direitos humanos mais básicos. Torturas, desaparecimentos e mortes são relatados por agências. Só em Minneapolis, envolvida em protestos contra a política migratória da Casa Branca, duas pessoas foram recentemente assassinadas pela ICE.

Durante o ano, milhares se manifestaram em diferentes cidades dos Estados Unidos contra as políticas autoritárias e anti-imigrantes de Donald Trump.

O segundo mandato do magnata mostra um padrão claro: prioridade ao poder Executivo, lealdade pessoal acima das instituições e rejeição a todas as normas internacionais; paz por meio da força bruta, coerção e caos global, com crescentes tensões sociais. Assim sendo, a sustentabilidade do modelo imperialista americano está em questão.

* Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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