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Restauração ecológica e inclusão social: a força das sementes nativas no Cerrado

"É fundamental valorizar e incorporar os conhecimentos já desenvolvidos pelas comunidades locais, combinando saberes tradicionais com práticas convencionais".

A urgência da restauração ecológica nunca foi tão evidente. No Brasil, onde o Cerrado já perdeu quase metade de sua vegetação original, iniciativas que aliam ciência, conhecimentos tradicionais e inclusão social são essenciais para reverter esse cenário. No entanto, restaurar um bioma vai muito além de semear árvores, arbustos e capins. Trata-se de reconstruir ecossistemas, fortalecer economias locais e garantir um futuro sustentável para as comunidades que dependem desses territórios.

É nesse contexto que a Rede de Sementes do Cerrado (RSC) dá mais um passo importante ao iniciar a execução do projeto “Sementes do Cerrado: caminhos para o fortalecimento da cadeia da restauração ecológica inclusiva nos corredores da biodiversidade”. Selecionado no Edital Corredores da Biodiversidade da Iniciativa Floresta Viva, o projeto tem como objetivo restaurar 200 hectares em áreas estratégicas do Cerrado, abrangendo os corredores da Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride-DF), Paranaíba-Abaeté, Sertão Veredas-Peruaçu, Serra do Espinhaço e Veadeiros-Pouso Alto-Kalunga.

A iniciativa contará com o protagonismo de quatro grupos de coletores de sementes e restauradores comunitários, que terão um papel fundamental no fornecimento de sementes nativas e na restauração ecológica de seus territórios: a Associação Cerrado de Pé (GO); os Coletores Geraizeiros (MG); a Associação dos Produtores Agroecológicos do Alto São Bartolomeu (Aprospera-DF); e a Cooperativa dos Agricultores Familiares e Agroextrativistas do Vale do Peruaçu (Cooperuaçu-MG). O projeto “Sementes do Cerrado” reafirma um compromisso essencial: a restauração ecológica precisa ser inclusiva.

Mas o que significa, na prática, uma restauração ecológica inclusiva?

Significa reconhecer e valorizar o conhecimento tradicional das comunidades que há séculos convivem com o Cerrado. Coletores de sementes, agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais não devem ser vistos apenas como beneficiários desse processo, mas como protagonistas da restauração. Eles desempenham um papel essencial na conservação do meio ambiente.

O território Kalunga, por exemplo, mantém 83% da vegetação nativa do Cerrado em sua área, de acordo com dados do MapBiomas. Esse dado comprova como os saberes e as práticas ancestrais dessas comunidades são fundamentais para a proteção dos biomas e para a construção de um futuro sustentável.

Embora a semeadura direta seja a estratégia central para restaurar as áreas degradadas que o projeto se propôs a recuperar, aliando eficiência e viabilidade econômica, essa abordagem não exclui outras técnicas complementares, como o plantio de mudas, o transplante de touceiras e a criação de quintais produtivos dentro dos chamados Sistemas Agrocerratenses.

Além disso, é fundamental valorizar e incorporar os conhecimentos já desenvolvidos pelas comunidades locais, combinando saberes tradicionais com práticas convencionais.

É com essa visão que o projeto Sementes do Cerrado surge para fortalecer a cadeia da restauração do bioma, promovendo uma recuperação ambiental eficaz, abrangente e socialmente justa.

Restauração com inclusão

A iniciativa dá continuidade às ações da Rede de Sementes do Cerrado (RSC) nos territórios, pois entendemos que a restauração, sem a geração de renda e o fortalecimento da economia local, não promove a inclusão e nem contribui para a redução das desigualdades sociais.

Por isso, um dos pilares deste novo projeto é garantir que essa cadeia produtiva seja economicamente viável. Isso envolve diagnósticos participativos, apoio técnico a produtores rurais, capacitação de coletores e parcerias com instituições públicas e privadas. O mercado de sementes nativas vem crescendo no Brasil, e assegurar que ele beneficie as comunidades locais é um passo fundamental para consolidar a restauração ecológica como um caminho viável e duradouro.

Não podemos ignorar também a importância da pesquisa e da inovação. O projeto prevê estudos sobre a fisiologia das sementes e estimativas de carbono, elementos cruciais para medir o impacto real da restauração. Afinal, não basta apenas recuperar áreas degradadas; é necessário compreender como elas evoluem ao longo do tempo e qual o seu real potencial para capturar carbono e regular o clima.

Uma lição que o Cerrado nos ensina, é que a resiliência vem da diversidade. E o mesmo vale para os modelos de restauração. Precisamos avançar em políticas públicas que ampliem projetos que consolidam as redes de sementes nativas como atores estratégicos na recuperação dos biomas brasileiros. O programa Floresta Viva, ao apoiar iniciativas como essa, abre um caminho importante.

A restauração do Cerrado não pode ser apenas um compromisso ambiental. Precisa ser um compromisso social e econômico. É possível – e urgente – transformar a restauração ecológica em um motor de desenvolvimento rural sustentável, onde as comunidades prosperem junto com a biodiversidade. Afinal, proteger o Cerrado é proteger nosso futuro.

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*Maria Antônia Perdigão é jornalista, mestre em Comunicação Social e consultora em comunicação socioambiental. Atualmente, atua como coordenadora de comunicação da Rede de Sementes do Cerrado (RSC).

**Natanna Horstmann é engenheira florestal, mestre em Ciências Florestais e atua em como coordenadora de produção de sementes nativas de base comunitária na Rede de Sementes do Cerrado (RSC).

***Este é um artigo de opinião. A visão das autoras não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

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