Reforma Urbana e Direito à Cidade nas Metrópoles

Há mais de 30 anos o INCT Observatório das Metrópoles vem trabalhando sobre os desafios metropolitanos colocados ao desenvolvimento nacional através da sua rede de pesquisa, organizada em 21 núcleos regionais. Esta coluna se relaciona com os esforços da nossa rede de reflexão e incidência sobre a construção de um projeto de desenvolvimento urbano que transforme as nossas metrópoles em ativos fundamentais para o desenvolvimento da nação, superando o atual modelo econômico excludente, segregador e dilapidador da natureza, expresso no seu atual padrão de acumulação rentista-neoextrativista.

Reforma Urbana e Direito à Cidade: um olhar sobre a Região Metropolitana de Aracaju

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Aracaju, capital de Sergipe | Crédito: Marcelle Cristinne/Prefeitura de Aracaju

Livro busca contribuir com nova agenda da reforma urbana na luta pelo direito à cidade na capital

Por Sarah Lúcia Alves França*

O Observatório das Metrópoles, um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), constitui uma rede nacional de pesquisa que investiga o tema das metrópoles e regiões metropolitanas há mais de 20 anos. Atento aos desafios da defesa do direito à cidade em tempos de metrópoles alvo do capitalismo financeirizado, que tem como objetivo transformá-las em cidades mercadoria, a rede fomentou o projeto nacional intitulado Reforma Urbana e o Direito à Cidade, para publicação de uma coletânea de 17 livros, oriundo do esforço coletivo de mais de 400 pesquisadores nacionais. Estes, que integram os núcleos regionais e estudam regiões metropolitanas do país, se uniram com o intuito de contribuir na percepção dos impactos das transformações urbanas, sociais, econômicas e ambientais, colocando-os a serviço dos atores sociais e governamentais envolvidos com as políticas públicas. A iniciativa recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

Assim, os livros reúnem experiências e estudos de pesquisadores a fim de fomentar uma reflexão científica coletiva sobre desafios e propostas concretas de políticas públicas e metropolitanas, visando à reconstrução de um novo movimento nacional de Reforma Urbana e Direito à Cidade nas metrópoles brasileiras. A construção de uma narrativa com legitimidade e poder acadêmico e político tem como objetivo contribuir no impulsionamento das dinâmicas de enfrentamento dos efeitos das crises social e econômica.

A Região Metropolitana de Aracaju (RMA), composta pelos quatro municípios Aracaju, São Cristóvão, Nossa Senhora do Socorro e Barra dos Coqueiros, definida pela Lei Complementar no. 25 de 1995, é tema de um dos 17 livros da coletânea. A obra, que apresenta um balanço crítico sobre diagnóstico, caminhos e desafios na metrópole, foi elaborada pelo recém-criado Núcleo Aracaju, coordenado pela profa. dra. Sarah França, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Sergipe. É um espaço de interlocução de estudos sobre a questão urbana e metropolitana, unindo um arcabouço de pesquisas a fim de contribuir com a sociedade e a gestão pública, na condução de políticas públicas.

Resultado de um trabalho de 20 pesquisadores autores, o livro Reforma Urbana e Direito à Cidade – Aracaju conta com 9 capítulos e 4 boxes, com informações e proposições no cenário de crise urbana e social, apontando caminhos a serem percorridos na luta pela efetivação do direito à cidade. Com isso, tem o intuito de enfatizar a relevância de democratização do debate referente ao direito à cidade, como um direito coletivo e que representa as oportunidades e "experiências urbanas" que devem ser oferecidas para a reprodução da vida em sociedade no meio urbano.

Apesar de estabelecido na Constituição Federal de 1988 e regulamentado no Estatuto da Cidade, esse direito está cada vez mais distante de sua real efetividade, ante os processos históricos e a movimentação de urbanização capitalista da terra como mercadoria, que tem transformado a configuração metropolitana e fortalecido desigualdades socioespaciais nas metrópoles. Por sua vez, o Estado, que deveria assegurar o acesso à cidade a todos e garantir a "ordem urbana", tem oferecido bases para a reprodução imobiliária e a financeirização urbana, em detrimento das coalizões ultraliberais, expressando no território a organização social da metrópole através de processos como segregação, diferenciação, periferização, dispersão e outros. 

Essas questões, apesar de latentes da RMA, têm estado ausentes nos últimos anos no debate na esfera estadual sobre a política urbana metropolitana, apesar de há quase 30 anos ter sido institucionalizada, e algumas experiências sedimentarem a existência de integração entre esses municípios, como o sistema de transporte metropolitano. Diante disso, é fundamental a participação e contribuição do Núcleo Aracaju nesse debate, fomentando o olhar urgente para essa escala, fundamentando a gestão e a sociedade com estudos técnicos, para a conquista da efetivação de políticas integradas, com foco no acesso democrático à cidade a todos cidadãos, reduzindo as desigualdades sociais e espaciais marcadas nesses municípios.

Com isso, o livro se propõe a explorar as diversas crises que a RMA tem enfrentado nos aspectos sociais, econômicos, urbanísticos, políticos, institucionais, oriundos da escala metropolitana, somadas à sanitária da pandemia da covid-19, na tentativa de contribuir com uma visão técnico-narrativa sobre uma nova agenda da reforma urbana na luta pelo direito à cidade na metrópole aracajuana, onde vivem 42% dos 2.338.017 sergipanos (estimativa do IBGE para 2021). Além disso, a RMA destaca-se economicamente por concentrar cerca de 60% das empresas de Sergipe e 64,44% do pessoal assalariado (IBGE, 2019). Contraditoriamente, é também nesses quatro municípios que estão 49 mil domicílios precários dos 53 mil totais no estado, sendo, portanto, urgente a efetivação de políticas de erradicação da pobreza e extrema pobreza e de melhorias habitacionais e urbanização de ocupações precárias.

Diante deste panorama, o livro traz temáticas sobre a reestruturação da metrópole nos âmbitos sociais e econômicos, produção habitacional de mercado e de interesse social, mobilidade urbana, planos diretores e governança metropolitana, impactos da covid-19, atuação dos movimentos sociais urbanos, direito à cidade e, por fim, um apanhado de proposições para o enfrentamento dos desafios na gestão da metrópole sergipana, como a constituição de um espaço institucional participativo de planejamento e gestão metropolitana.

Em formato digital (e-book), todos os livros da coletânea estão disponíveis gratuitamente para download em: reformaurbanadireitoacidade.net/livros

*Coordenadora do Núcleo Aracaju, docente do Departamento de Arquitetura e Urbanismo (DAU) da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e líder do grupo de pesquisa (CNPq) Centro de Estudos de Planejamento e Práticas Urbanas e Regionais (CEPUR).

** As opiniões expressas nesse texto não representam necessariamente a posição do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Nicolau Soares

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