Reforma Urbana e Direito à Cidade nas Metrópoles

Há mais de 30 anos o INCT Observatório das Metrópoles vem trabalhando sobre os desafios metropolitanos colocados ao desenvolvimento nacional através da sua rede de pesquisa, organizada em 21 núcleos regionais. Esta coluna se relaciona com os esforços da nossa rede de reflexão e incidência sobre a construção de um projeto de desenvolvimento urbano que transforme as nossas metrópoles em ativos fundamentais para o desenvolvimento da nação, superando o atual modelo econômico excludente, segregador e dilapidador da natureza, expresso no seu atual padrão de acumulação rentista-neoextrativista.

A Reforma Urbana no cenário de apagão estatal: o que fazer?

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Em agosto, será realizado o “Fórum Local Reforma Urbana e Direito à Cidade nas Metrópoles: Reflexões a Partir de Porto Alegre (RS)”, um espaço para pensarmos juntos sobre a Porto Alegre que se quer | Crédito: Reprodução

Diagnóstico do GT de Cidades mostra política destruição do Estado da dupla Bolsonaro-Guedes

*Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro e **Demóstenes Andrade de Moraes

O primeiro relato do GT de Cidades do novo governo federal revelou-nos que todas as informações e impressões anteriores relacionadas ao tamanho do desmonte do Estado Brasileiro não davam conta do grau de destruição e da dimensão dos obstáculos a superar para a reconstrução de institucionalidades e de políticas públicas urbanas em meio a uma crise urbana múltipla.

Os dados levantados, apresentados durante coletiva de imprensa, são alarmantes: a previsão de orçamento para desastres ambientais é de R$ 2,7 mi (R$ 500,00 para cada cidade). Paulo Guedes fez cortes de R$ 5 bi em cima do orçamento dos técnicos do próprio governo; 972 obras de habitação de interesse social (Faixa 1) paralisadas, além de outras em saneamento, mobilidade, etc.; 100.139 unidades de habitação paradas do Programa Minha Casa, Minha Vida; Bolsonaro lançou o programa fictício Casa Verde e Amarela e não entregou nenhuma moradia, ainda que no edital do protótipo da iniciativa constasse 3 mil casas até dezembro de 2022; o orçamento fictício de Paulo Guedes para o ano de 2023 prevê R$ 82 mi para obras em andamento, apenas 5% do valor total necessário. Estes são apenas alguns dos dados que expressam a extensão da política destruição do Estado promovida pela dupla Bolsonaro-Guedes. Um verdadeiro caos!

Em curto prazo, somente com a aprovação da chamada “PEC da Transição” será possível ter algum recurso para fazer frente às emergências decorrentes de desastres urbanos que já despontam no horizonte imediato com a chegada do verão e para retomar uma parte das obras paralisadas por falta de recursos. A transformação da vitória eleitoral em vitória política em relação às forças e interesses do fascismo social e do ultraliberalismo depende da capacidade do novo governo em propor e realizar intervenções nas cidades que evidenciem com clareza o seu compromisso com os abandonados estruturais pelo Estado, ainda que não consigam resolver no imediato o quadro de vulnerabilidade urbana agudizado pela política de destruição. 

Para além disso, restarão tarefas complexas nos âmbitos político e institucional como: a revogação de um conjunto de leis e dispositivos normativos que combinaram desregulação urbanística e ambiental, desmonte estatal e privatizações; a continuidade do monitoramento da execução do orçamento federal relativa ao desenvolvimento urbano em tempos de orçamento secreto; e buscar a reconstrução institucional-normativa e programática da atuação federal no desenvolvimento urbano, a partir de uma agenda reformista-redistributiva e da recriação das instâncias e mecanismos de gestão democrática.

Para os que lutam pela reforma urbana e pelo direito à cidade, além das várias propostas encaminhadas ao GT de Cidades, é fundamental incidir: 

1) Pela reconstituição em curtíssimo prazo da institucionalidade e dos processos da gestão democrática e participativa; 

2) Pela institucionalização do Sistema Nacional de Desenvolvimento Urbano; 

3) Pela identificação, priorização nas políticas urbanas dos espoliados urbanos e de seus territórios; 

4) Pela capacitação dos atores para intervirem nas disputas destas políticas, em especial participando das decisões sobre a alocação dos recursos dos orçamentos públicos. 

O INCT Observatório das Metrópoles deve e pode ter papel relevante nesta tarefa do campo da Reforma Urbana e Direito à Cidade com a realização do nosso plano de trabalho para 2023-2024.

*Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro – Coordenador nacional do INCT Observatório das Metrópoles.

**Demóstenes Andrade de Moraes – Pesquisador do Núcleo Paraíba do INCT Observatório das Metrópoles.

***As opiniões expressas nesse texto não representam necessariamente a posição do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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