Aparvalhados! Ou seria: atoleimados? Quiçá, apatetados? Ao que soa, não há definição suficiente para descrever como anda o povo brasileiro por esses tempos, tendo de conviver com a maior crise sanitária da história da humanidade ao mesmo tempo em que com o pior governante de toda a sua existência enquanto nação.
Em meio a um cenário de guerra – com jejum e tudo! – o Brasil começa sua semana envolto na fuligem de uma enorme cortina de fumaça. A grande mídia noticiava a provável demissão do ministro da saúde e o estrépito era grande. Na coletiva governamental de atualização dos dados da pandemia, nada do ministro. Enquanto isso, reunião do presidente com todo o corpo ministerial. Ainda, reuniões sobre saúde sem o chefe da pasta e vários novos nomes sendo cogitados para sua substituição. Mas o dia se encerra tal como começou, só com boatarias.
A verdade é que estamos vivendo uma grande distopia. Daquelas amplamente divulgadas pela literatura do século XX: Kafkas, Huxleys, Orwells, Asimovs e Burgess parecem desfilar sob nossos narizes; ou, para sermos menos eurocentrados, parece que a literatura fantástica latino-americana encarnou, como se tivéssemos evocado esses espíritos sem saber que de fato cobrariam suas presenças no mundo dos vivos. Para o caso brasileiro, talvez as obras de Ignácio de Loyola Brandão sejam a melhor tradução para essa prognosticação: “Zero”, “Não verás país nenhum”, “Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela”…
O vaticínio é macabro e, por ora, estamos defendendo a permanência de um ministro da saúde neoliberal (ou seja, anti-SUS) dentro do governo partido (e despartidarizado, ou seja, politicamente desordenado). Mandetta representa a Unimed (da qual já foi presidente, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul) e os planos privados de saúde dentro do subgoverno – a republiqueta do DEM – eleito a facadas em 2018. Começou doente, assim permanece.
Há algo de genial neste regime distópico-despótico: o embaralhamento das cartas, o espancamento das cabeças, o estonteamento das análises políticas. A steve-bannoncracia instaurada leva às últimas consequências seu jogo. Uma partida dos leva-e-traz, dos diz-que-diz, dos vai-não-vai. É uma espécie de eterno retorno dos que nunca foram. É o caso do episódio do ministro da saúde e a guerra fria (às vezes nem tão gélida assim) de declarações – assim como é o caso da perseguição, amplamente divulgada, ao registro eleitoral do PT, como lembrou ontem Guilherme Daldin. O presidente disse não ter medo de usar a caneta e de que a hora de alguns chegaria; o ministro diz que não fala, trabalha.
Pois é, a volta dos que não foram se vê também pelas distopias que se concretizam. De fato, não veremos país nenhum e desta terra nada sobrou… O, para usar a caracterização de Antônio Cândido, “realismo feroz” de Loyola Brandão, pelo jeito, sempre esteve correto. Chegou o escritor, aliás, a entrar em pelo menos uma parceria musical. O poema “Vai e volta” foi musicado por um compositor da nova geração da assim chamada MPB, Jair Oliveira. Jairzinho, filho do grande Jair Rodrigues (eterno intérprete de “Disparada”), não é dado a muito debate público sobre política, mas participou de alguns projetos relativamente críticos (caso do filme “Os desafinados” que apesar de enfocar a bossa-nova é atravessado pela ditadura). A música baseada no poema de Loyola Brandão enquadra-se aí. Bastante experimental, com linguagem próxima à do RAP e com direito a declamação do poeta, “Vai e volta” não deixa de expressar nosso tempo presente: “Pense tudo de novo pra não se arrepender de fato. Não diga bobagens pois toda palavra é contrato. Não invente mentiras nem tente espalhar boatos. Não distribua insultos, melhor é promover abraços”. Aí está: arrependimentos, bobagens, mentiras e insultos retratam nosso atual cenário político. Eis o vai-e-volta imperante.
Será que vamos parar em algum lugar? Pergunta de embasbacados, mas sobretudo de apopléticos – esta é a melhor palavra para nos definir! Bom, enquanto a incerteza reina, entoemos com Loyola Brandão:
“Chega de não lugares, não gentes, não humanos!”
Ouça a música “Vai e volta”, de Jair Oliveira sobre poema de Ignácio de Loyola Brandão, gravada no disco “Outro”, de 2002:
https://www.youtube.com/watch?v=_lCQWofxqOE
CANÇÕES PARA A PANDEMIA: Esta é uma série de diálogos diários de Guilherme Daldin e Ricardo Prestes Pazello sobre música e conjuntura em tempos de pandemia, para resistir ao confinamento. Desde 17 de março, estamos trocando cartas virtuais no “Facebook” e divulgando nas redes sociais. A carta de hoje é de Ricardo Prestes Pazello, professor da UFPR, músico amador e militante da Consulta Popular.