Brasília está prestes a ser vítima de mais um assalto que vai custar caro, e por muito tempo. Ibaneis quer transformar 115 mil vagas de estacionamento públicos em todo Plano Piloto em um negócio privado. Batizaram de “Zona Verde” e deram nomes de Ipês para cada área privatizada, mas de sustentabilidade este negócio só tem para o bolso do empresário que pegar essa bolada.
O Ipê Amarelo, que antes anunciava a chegada das chuvas, agora batiza todas as vagas das quadras residenciais das Asas Sul e Norte privatizadas: pagou, fica até 2 horas. Só morador cadastrado escapa, e apenas na própria quadra. Já o Ipê Roxo florescerá no centro do Plano e setor hospitalar: pagou, pode ficar até 5 horas. Vai acompanhar um familiar no hospital? Além da angústia e da espera, cronometre o relógio do carro.
O Ipê Rosa estende-se pelo Eixo Monumental, com até 12 horas de permanência por lá. Trabalha na Esplanada ou nos arredores? Prepare o bolso: cobrança por hora, todos os dias.
O Ipê Branco são os bolsões perto de metrô/ônibus: também paga por hora e só tem isenção real quem usar o transporte naquele dia. Sob a sombra dos ipês, o taxímetro da rua não vai parar: cronômetro ligado onde a cidade mora, trabalha, estuda e pulsa. A rua deixa de ser espaço comum para virar balcão de cobrança.
“Ah, mas é para organizar o trânsito.” Organizar é diferente de privatizar o cotidiano de quem não tem alternativa. Pensa no garçom que entra à noite e sai de madrugada. Não tem metrô funcionando, o ônibus é raro, a cidade não oferece opção. Ele vai de carro, como milhares. Com a “Zona Verde”, além da gasolina e do risco, vai pagar por hora para trabalhar, e se passar do teto, é penalizado. Isso é justiça urbana ou taxa sobre a necessidade?
E quem ganha com isso? A conta é indigesta: a maior parte do que você paga fica com os novos donos das ruas, a empresa que ganhar a licitação, 80%. E não para por aí: a ela ainda pode explorar outras receitas nas áreas. Ou seja, a rua pública vira ativo privado multifuncional. Bonito para o investidor; bem menos para quem vive a cidade.
“Mas vai melhorar a mobilidade!” Cadê o combinado? Não há entrega garantida de ônibus noturno digno, ampliação real de oferta, tarifa zero, acessibilidade, ou seja: nada que compense, de forma proporcional, o novo custo diário jogado no colo de quem depende do carro em horários sem cobertura. Cobrar sem dar alternativa é empurrar a conta para o elo mais fraco.
E há o método: primeiro vem o projeto embalado com nome simpático; depois, a corrida para lançar a licitação; e quando a sociedade percebe, o contrato já está amarrado por duas décadas. Vinte anos é tempo demais para um desenho que mexe no coração do Plano Piloto sem debate amplo, audiências públicas de verdade e dados transparentes por quadra e por região.
Não é “ideologia contra estacionamento pago”, é uma questão de prioridade e proporcionalidade. Antes de taxar o cotidiano, a cidade deveria garantir alternativa de deslocamento decente em todos os turnos.
Antes de transformar a rua em caixa registradora, deveríamos discutir quem paga, quanto, onde e por quê, com mapas e números na mesa, ouvindo moradores, trabalhadores, comércio, hospital, escola.
E afinal: o que fazer agora? Estamos na fase de preparação da licitação. É a hora de parar, ouvir e corrigir rota. A Câmara Legislativa do DF precisa, no mínimo, chamar o governo para prestar esclarecimentos e abrir um ciclo de audiências públicas em série, com compromisso de transparência total. Se a cidade é de todos, a decisão também tem que ser.
Se você acha que Brasília não está à venda, faça barulho, cobre da Câmara Legislativa audiências, compartilhe informação qualificada, converse no seu prédio, no trabalho, na escola do seu filho. Hashtag não resolve tudo, mas ajuda a organizar a pressão: #ZonaVerdeNão.
No fim, a pergunta é simples: queremos uma cidade que acolha ou que cobra pedágio social para viver? A “Zona Verde” do jeito que está não é mobilidade; é cobrança e lucro. E não precisamos de nomes de flores para perfumar uma ideia ruim.
*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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